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::. Sensibilizando o docente sobre as contribuições da arte e ludicidade no processo ensino-aprendizagem
  Profª Eladyr Boaventura Raykil

Durante nossa vida escolar geralmente nos é imposto que a escrita é a melhor, senão a única, forma de nos expressarmos. Através da escrita demonstramos o quanto aprendemos e apreendemos um determinado conteúdo, através de trabalhos ou avaliações. Bom para aqueles que tem facilidade de se comunicar e se expressar através da escrita, mas será que todos tem essa facilidade?

No filme Iris, direção de Richard Eyre, baseado no livro Um ensaio para Iris, de John Bayley, a personagem principal diz:

"...a educação não traz felicidade. E nem sequer liberdade. Não nos tornamos felizes porque somos livres. A educação pode ser o meio pelo qual percebemos que somos felizes. Abre nossos olhos e ouvidos. Conta-nos onde se escondem os prazeres. Convence-nos que só existe uma liberdade que realmente importa, aquela da mente. E nos dá a segurança, a confiança para trilhar o caminho, que nossa mente educada propicia.

...claro que é questionável descrever ao sentimentos, por mais que se tenha cuidado, assim que se começa a definir um sentimento, a linguagem trai. Não bastam palavras para dizer a verdade.

...os seres humanos se amam, no sexo, na amizade e, quando estão apaixonados eles cuidam de outros seres humanos, animais, plantas e até mesmo, pedras.

...a busca e a manutenção da felicidade está em tudo isso e no poder da nossa imaginação.

...amor é a linguagem que todos entendem.

A linguagem não é a única maneira de nos comunicarmos."

Será que através da escrita conseguimos transmitir tudo o que pensamos, a forma, a intensidade, a dimensão como vemos as coisas?

Certamente existem outras formas de expressão e a arte nos apresenta uma infinidade de possibilidades, todas muito atraentes e lúdicas.

Já observaram como os alunos se referem às aulas de educação artística, educação física? Geralmente demonstram entusiasmo, disposição, interesse por essas aulas e também por alguns momentos como por exemplo, "a hora do recreio", são momentos tão esperados, desejados pelos alunos que nós educadores deveríamos parar para observar o que "de tão interessante" acontece nesses momentos? Por que em algumas aulas o aluno é totalmente disperso, desinteressado, improdutivo e em outras é um exemplo de dedicação, organização, disciplina, zelo e carinho com o que faz?

Podemos observar que as aulas de educação artística, educação física e a hora do recreio têm em comum o aspecto lúdico. Será que as demais disciplinas não são passíveis de momentos lúdicos? Será que é possível tornar mais prazerosas as aulas?

Observemos as possibilidades ao nosso redor, são tantas as oportunidades de despertar no aluno "formas" de ver e sentir tudo que nos rodeia. Se é tão simples, por que não é o que se verifica na maioria das aulas? Talvez porque nós professores não consigamos ter a sensibilidade de "ver", sentir as coisas, as possibilidades e oportunidades. Bertrand Russel defende que o "ócio", é necessário para que nos tornemos mais produtivos, temos que pensar na melhor forma de fazer as coisas, e isso só é possível se tivermos "tempo" para pensar, refletir, contemplar. Pedro Jorgensen Júnior em O elogio ao ócio contextualiza a afirmativa de Russell quando diz:

" ...neste jardim há um pé de abricó velho e retorcido, rachado pela idade, que a cada ano produz uma quantidade menor de seu suculento fruto. Mas seus galhos ainda davam sombra suficiente para que eu pudesse me dedicar ao prazer de ler no ensaio O conhecimento 'inútil', o relato de Russell sobre a chegada dos pêssegos e abricós ao Ocidente. Eles começaram a ser cultivados na China, durante a dinastia Han, depois foram levados para a Índia e mais tarde para o atual Irã, até chegarem finalmente a Roma. A etimologia da palavra "abricó" remete à mesma raiz latina de "precoce", devido ao fato de a fruta amadurecer cedo. O 'a', no entanto foi acrescentado por engano. Russell lança mão desse exemplo para mostrar como o conhecimento pode tornar a fruta mais doce.
A atitude mental contemplativa requer um ócio."

A vida de professor geralmente é uma correria, a maioria trabalha em vários turnos e em escolas distintas, às vezes distantes uma da outra. Na maioria das vezes o ritmo das atividades diárias do professor não possibilita uma "atitude mental contemplativa", um momento de reflexão. No intuito de fazer o melhor para si e para os alunos acaba reproduzindo de forma mecânica os conteúdos do programa de curso e ao final do bimestre aplica uma avaliação para que os alunos escrevam o que "sabem" sobre o assunto.

Precisamos urgentemente lapidar nossa forma de ver e sentir tudo o que nos rodeia, as modalidades artísticas nos dão essa oportunidade. Muitos professores argumentam que não é possível trabalhar a sensibilidade através das formas de expressão por "falta de recursos".

O que é realmente necessário para desenvolver atividades que despertem nos alunos a sensilibidade?


Na letra de "Aquarela" Toquinho nos chama a atenção para a simplicidade e demonstra que a imaginação é o mais importante recurso:

"Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo.
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu ...

No texto percebemos claramente que o processo criativo independe de materiais caros e raros.

Que materiais o homem das cavernas precisou para deixar registrada sua passagem pelo planeta? Que recursos o homem primitivo que viveu na Chapada Diamantina precisou para comunicar sua realidade, seus medos, sua forma de ver as coisas? Foi a necessidade de se expressar que acionou o processo criativo.

Alguns extravasam a necessidade de se expressar através da dança, da música, do teatro, da pintura; cada um de nós tem uma forma diferente de ver e sentir as coisas e nós professores temos que dar oportunidade aos nossos alunos de encontrar a melhor forma de se expressar.

A forma de se expressar é o resultado do processo criativo e principalmente da sensibilidade de cada um de nós.

A sensibilidade, ou seja, a forma como é percebido tudo ao nosso redor é que vai ser o fato gerador das ações do indivíduo. Na campanha publicitária onde aparece um tronco sendo serrado e dele emergindo sangue....como cada um de nós sente essa mensagem? Será que todos se sensibilizam na mesma intensidade? Será que todos terão a mesma atitude diante do "corte de árvores"? seguramente alguns serão indiferentes, outros sempre que virem o corte de árvores lembrarão da cena, outros arregaçarão as mangas e passarão a ser ferrenhos defensores da floresta. Essas foram formas de expressar o que sentiram sobre o fato. Comumente se associa a sensibilidade a tristeza, os programas de televisão apelam para esse nicho que geralmente causa maior impacto no indivíduo mas devemos ser sensíveis às coisas boas e belas do mundo. Uma linda flor, uma criança brincando, um gesto de carinho e gentileza. Devemos perceber nas pequenas coisas a beleza e ser sensíveis às oportunidades que nos rodeiam.

Através da aplicabilidade das modalidades artísticas, nas diversas disciplinas, podemos desenvolver habilidades e competências, trabalhar o conteúdo da disciplina propriamente dito, temas transversais dentre outros, isso tudo num só momento, numa só ação e, o melhor de tudo, de forma prazerosa e inesquecível para o aluno e geralmente para o professor também. As modalidades artísticas são importantes ferramentas, facilitadoras no processo ensino-aprendizagem.

Quando o aluno dramatiza, dança, pinta ou canta sobre um determinado assunto este o fez a partir de uma leitura prévia, geralmente pesquisa em várias fontes, busca a melhor forma de expressar o que sentiu sobre o tema. Durante a produção de sua forma de expressão o aluno teve que ser responsável, disciplinado, organizado, trabalhou em equipe, discutiu com os colegas o assunto e a melhor forma de apresentá-lo, trouxe para o seu trabalho a realidade do momento histórico que vive, e apresentou sua forma de ver as coisas, os outros, a si próprio. O resultado desse mix de informação, criatividade e sensibilidade é a vontade que foi despertada no aluno de transformar o meio em que vive, ver as dificuldades e perceber nestas as oportunidades de contribuir de alguma forma, ou seja, é a consecução da construção do conhecimento.


Referências

Brasil. Secretaria de educação fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Artes. Brasília: MEC/SEF,1997.

IRIS. Direção: Richard Eyre. Produção Miramax, gravação Playarte, 2002. Color; NTSC Adaptação: do livro Um ensaio para Iris, de John Bayley.

RUSSEL, Bertrand. Elogio ao ócio. Rio de Janeiro: Sextante, 2002
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