| ::. SUCESSO
NAS MENINAS, FRACASSO NOS MENINOS: O PAPEL DOS CONTEXTOS
NOS DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM E GÊNERO |
Janete Leony Vitorino
Historiadora pela Universidade do Estado de Santa Catarina
- UDESC, Psicopedagoga pela Universidade do Sul de Santa
Catarina - UNISUL e Graduanda em Psicologia pela Universidade
do Vale do Itajaí - UNIVALI - Atualmente desenvolve
projetos de acessoria junto às escolas Públicas
e Particulares referente a dificuldade de aprendizagem
no Município de Biguaçu - SC
E-mail: jleony@hotmail.com
RESUMO:
Este artigo tem por objetivo realizar um levantamento
bibliográfico, relacionando distúrbios de
aprendizagem em meninos e meninas referentes às
questões de gênero nos contextos: históricos,
biológicos, sociais, educacionais, psicológicos
e familiares. Mediante pesquisa, pode-se perceber quem
em cada contexto mencionado, meninos e meninas atravessam
processos que os diferencia, resultando, portanto, num
expressivo apontamento para os meninos no que diz respeito
a distúrbios de aprendizagem. O estudo é
bibliográfico e não tem o a intenção
de conclusões definitivas. Apresenta-se uma coletânea
de dados relevantes para lançar outras preocupações
e perspectivas de caráter científico no
campo das dificuldades de aprendizagem relacionadas às
questões de gênero.
PALAVRAS CHAVES: MENINOS E MENINAS, DISTÚRBIOS
DE APRENDIZAGEM, GÊNERO, CONTEXTO.
ABSTRACT:
This
article aims to achieve a reference survey, relating
to learning disorders in boys and girls relate to issues
of gender in contexts: historical, biological, social,
educational, psychological and family. Upon search,
you can see who mentioned in each context, boys and
girls through processes that differentiates them, thereby
pointing to an expressive boys with regard to the learning
disorders. The study is to bibliographic and has no
intention of definitive conclusions. It presents a collection
of relevant data to launch other concerns and prospects
of scientific character in the field of learning disabilities
related to issues of gender.
KEY
WORDS: BOYS AND GIRLS, DISTURBANCES OF LEARNING, GENDER,
CONTEXT.
Esta investigação tem o objetivo de analisar
a relação entre contextos, histórico,
biológico, social, familiar e educacional, distúrbios
de aprendizagem e gênero em meninos na idade escolar,
partindo-se do pressuposto de que "nada pode ser
intelectualmente um problema, se não tiver sido,
em primeiro lugar um problema da vida prática
e as questões investigativas estão, portanto,
relacionadas a interesses e circunstâncias socialmente
condicionadas" Minayo (1994, apud OLIVEIRA, 2008).
Como objetivo geral deste artigo é analisar a
relação existente entre contextos, gênero
e distúrbios de aprendizagem em meninos, sendo
utilizado o método qualitativo bibliográfico.
Como objetivo específico, se pretende confirmar
a hipótese de que os contextos, histórico,
biológico, social, educacional e familiar seriam
produtores relevantes de questões de gênero
produzindo nos meninos, distúrbios de aprendizagem
O gênero transcende a diferença física
e anatômica entre os sexos e, segundo Dias (2003,
apud SOARES, 2008), é "um produto social,
aprendido, representado, institucionalizado, e transmitido
ao longo de gerações", sendo, portanto,
gênero em Soares (2008), "influenciado pelos
valores sociais, políticos, econômicos
e culturais de uma determinada sociedade", não
sendo apenas e tão somente de forma social, mas
esta definição de gênero relaciona
este fenômeno a uma forma pioneira de significar
as relações de poder.
Inicialmente,
no contexto histórico, observa-se que foi a partir
do século XVI que a educação formal
iniciou sua organização no Brasil. Esta
educação chegou juntamente com os colonizadores
portugueses e com os missionários que construíram
os primeiros projetos de escolarização.
Por cerca de trezentos anos este foi o modelo que atravessou
diversas fases com contextos diversos. Nesse período,
a igreja católica desenvolveu um importante papel
de instituição formadora durante o período
colonial. Somente em 1549, chega ao Brasil a Companhia
de Jesus no governo de Tomé de Souza, que logo
colocou em funcionamento a primeira "escola de
ler e escrever". Logo após, por iniciativa
dos missionários, são criadas as escolas
secundárias, seminários e colégios,
isso somente nas principais vilas. Foi um longo período,
cerca de duzentos e dez anos onde ocorreram grandes
promoções de ação de catequese
indígena, educação dos filhos dos
colonos, formação de sacerdotes e da elite
intelectual. Neste período, era a igreja na pessoa
dos missionários que exerciam controle sobre
a moral, a fé e os costumes. Os currículos,
segundo Marques (2008), contemplavam uma formação
humanística, valorizando o estudo das letras,
bem como português, latim, grego, filosofia e
teologia. A disciplina era rígida, com estimulo
à memorização. Os jesuítas
foram expulsos em 1759, no governo do Marquês
de Pombal, que riscou do mapa da educação
do Brasil mais de 80 instituições de ensino,
como: missões, colégios e seminários,
sem contas nas diversas "escolas de ler e escrever"
que estavam espalhadas nas vilas.
Para Del Priori, (1994, apud MARQUES, 2008) "a
educação e o ensino sofreram grandes transformações
que, mesmo não ocorrendo simultaneamente em todas
as capitanias, foram definitivas". Somente em 1772
foi implantado o ensino público oficial no Brasil,
ainda no governo do Marquês de Pombal. O ensino
foi reformulado oferecendo aulas de francês, desenho,
aritmética, geometria e ciências naturais.
O novo ensino teve influência dos iluministas,
Locke, Rousseau e Voltaire. Ideais que mais tarde iriam
inspirar movimentos pela independência do Brasil.
As reformas pombalinas encontraram muitas dificuldades
principalmente, a não uniformidade do ensino.
Faltavam professores habilitados e investimentos para
a formação de novos docentes. O objetivo
das reformas pombalinas, de criar a escola útil
aos fins do Estado, passaria a ser concretizado, mas
apenas no que diz respeito ao ensino superior. Ficando
então o ensino fundamental em segundo plano.
Os grupos escolares espalharam-se pelas cidades brasileiras
com uma proposta de organização espacial,
baseados em modelos americanos e europeus. Surge neste
momento, mesmo que sutilmente as primeiras questões
de gênero relacionadas com aprendizagem. Deve-se
ressaltar que este modelo ainda privilegia e destina-se
aos filhos das camadas médias e das elites desta
época. No restante do Brasil encontravam-se as
escolas com ensino mútuo e a multiseriação
sob regência de uma só professora.
Na perspectiva biológica, para Bernhoeft (2005),
cada indivíduo tem um relógio biológico
que regula seu progresso ao estado de maturidade. "O
conceito de maturidade se relaciona ao momento biológico
no calendário do tempo". O crescimento biológico
e maturidade da criança, não necessariamente
prosseguem em comum acordo com o calendário do
tempo ou sua idade cronológica. Por isso, dentro
de um grupo de crianças do mesmo sexo e mesma
idade cronológica, haverá variação
na idade biológica, ou no nível de maturidade
biológica. Isso geralmente acontece durante os
estágios iniciais da adolescência ou durante
o estirão do crescimento, mas é aparente
também durante a infância. Dentro de um
grupo de criança, algumas crianças se
encontram biologicamente mais "avançadas"
(desenvolvimento precoce) e outras mais "atrasadas"
(desenvolvimento tardio), em relação à
sua idade cronológica. Em outras palavras, embora
duas crianças estejam na mesma faixa de idade
cronológica, não necessariamente estarão
no mesmo nível da maturidade biológica.
Para Werner (2001), Biologicamente nascemos com cerca
de 100 bilhões de neurônios, entretanto
as complexas redes neuronais para se estabelecerem e
permitirem a organização e o funcionamento
das atividades psíquicas humanas depende das
interações sociais e culturais. O cérebro
do homem é, portanto, um órgão
biológico e social.
A idéia de que, meninas possuem um amadurecimento
físico e cognitivo muito mais rápido que
os meninos, confirmados em Morais (1992), por isso,
ao ingressarem na primeira série, ambos com seis
anos, haveria uma diferença perceptível
entre o desenvolvimento físico e cognitivo em
favor das meninas. Isso seria muito visível na
aprendizagem da escrita, leitura e da linguagem. Com
relação aos aspectos lingüísticos,
as meninas iniciam a fala mais cedo e as noções
visuais e auditivas seriam mais aguçadas. Baseando-se
nestes fatores, as meninas saem em vantagem nas questões
da vida acadêmica. No grupo das meninas, a puberdade
acontece mais cedo, cerca de um ano e meio, Condemarin
(1978, apud MORAIS et al, 1992). A hereditariedade é
outra teoria que tenta explicar as dificuldades de aprendizagem
nos meninos.
A aprendizagem é essencialmente dependente de
organização neurológica do cérebro
e tal função está diretamente relacionada
a fatores genéticos, concluindo-se que alguns
fatores biotipológicos são de origens
neurobiológicas. Por último, Souza (2002)
conclui que, o potencial genético do indivíduo,
ou seja, seu genótipo influencia nas características
de comportamento, o mesmo ocorre interagindo com o meio
em que vive e se socializa. O fator aprender envolve
processos complexos e interativos, portanto, nos quais
vários componentes genéticos, neurológicos,
psicológicos, educacionais e sociais relacionam-se.
O ato de aprender ou, aprendizagem é algo complexo,
que tem início a partir do nascimento e, talvez
até mesmo na vida intra uterina e, o que pode
ser visível é que as identidades de gênero
iniciam-se também neste período.
Segundo Zanella (2005), "o sujeito só existe
porque se constitui em contextos sociais, os quais por
sua vez, resultam de ações concretas de
seres humanos que coletivamente organizam sua vida".
Em atuais contextos sociais, evidências mostram
pais muito mais preocupados com a educação
dos filhos (meninos) do que das filhas (meninas). Isso
tem muito a ver com o papel esperado de um homem em
nossa atual sociedade. Espera-se muito do menino (homem),
principalmente que ele possa manter uma família
(economicamente). Isso quer dizer que, o menino (homem)
deve possuir uma colocação no mercado
de trabalho que proporcione segurança, bem como
da família que ele venha construir. Desde o primeiro
momento do ingresso do filho (menino) na escola, mesmo
que, inconscientemente, os pais desejam que esta criança
tenha sucesso, seja um vencedor. Logicamente, não
se pode generalizar e conseqüentemente, não
se aplicam, a todos os extratos sociais.
Para Fagundes (2003), "observamos que na cultura
ocidental, as meninas aprendem desde cedo a exercer
funções associadas à maternidade,
bem como a desenvolverem características de personalidade
historicamente vinculadas à imagem feminina,
representada pela docilidade, emotividade e paciência.
Mas será que essa forma de educação
se mantém nos dias atuais? Para Ribeiro (2008),
esta forma educacional ainda resiste nos dias atuais,
mas, segundo o autor, "essa forma de educação
não pode ser transformada em desigualdade".
Mas do que se espera com esse fim, acredita-se em nossa
cultura que o ser homem é o mesmo que ser agressivo,
competitivo, e menos afetivo e mais durão. Em
contrapartida, das meninas, ninguém espera outro
comportamento que não seja a delicadeza e a fragilidade.
Por outro lado vivemos numa cultura que oprime também
este menino (homem) quando o coloca na obrigação
de estar sempre "de plantão" e, principalmente
quando não proporciona condições
de demonstração de suas fragilidades,
fraquezas e afetos" Ribeiro (2008). É importante
entendermos que, diferenças de gênero não
significam desigualdades de capacidades nem de expressão
emocionais. Pode-se pensar, por exemplo, que embora
predominem expectativas definidas - como as referidas
anteriormente - é possível que talvez
isto tenha se modificado relativamente, quer dizer,
que talvez em determinados setores, seja mais tolerável
que a filha siga uma carreira dita "feminina"
do que o filho, onde as expectativas seriam outras em
relação ao status. "Para tanto atingir
a igualdade de gênero deve-se compreender a identificação
destes mecanismos de dominação e a elaboração
de estratégias de empoderamento da mulher, objetivando
a criação de condições igualitárias
de escolha de projetos profissionais segundo o sexo
do indivíduo", Corandini, (2008, p. 182-183).
Em Torres (2003), os indivíduos, independentes
de suas diferenças estruturais e biológicas,
constroem um quadro de referência subjetiva na
qual aos meninos são atribuídos à
subjetividade, competitividade, praticidade, determinação
e inteligência e às mulheres são
atribuídas as características de submissão
e fragilidade. Em Torres (2003, apud CORANDINI, 2008):
Com relação a gênero podemos assim
definir: "é uma categoria social imposta
sobre um corpo sexuado". A lógica desse
poder se manifesta na tendência insistente a categorizar,
a se utilizar insidiosamente das diferenças (corpo
sexuado) para impor, classificando e diferenciando tal
racionalidade (do poder) que se visualiza através
de relações de domínio e de atribuição
de papéis diferenciados.
Segundo Foucault (1979 apud SANTOS, 2007), o corpo é
protegido socialmente. Para tanto, a linguagem do corpo
pode ser abordada, pois para Oliveira (2004), nos reporta
sobre "o corpo que fala". De um corpo subjetivado
numa vida de relações e de trocas carregadas
de valores morais e estéticos imputados a um
corpo sexuado, de gênero e classe, de ocupação,
de idade, de credos, gostos e preferências [...].
Para Foucault é o poder que gera o corpo social
e não o consenso como se acredita. O domínio
e a consciência do corpo só foram possíveis
com um investimento sobre o próprio corpo através
de exercícios disciplinares e que "o poder
que penetrou no corpo, encontra-se exposto no próprio
corpo" e este investe em lugares estratégicos
e de forma sutil, como as desigualdades sociais e de
gênero, porém, relações de
poder sempre existirão, sejam elas de saber ou
de poder.
A partir do século XVII lançou-se um poder
de controle sobre o corpo e uma vigilância sobre
a sexualidade. Dessa forma, "o corpo se tornou
aquilo que está em jogo numa luta entre filhos,
filhas e pais". Para manutenção de
suas estratégias, em vez do controle-repressão,
o poder passa a agir por meio de controle-estimulação.
Para o filósofo, nada é mais material,
mais físico e mais corporal que o exercício
do poder. Foucault afirma que não tenta delimitar
o poder ao nível da ideologia, porém,
o poder não exerce somente efeitos negativos
na sociedade, ele produz também efeitos positivos.
Se o poder é forte é devido ao fato de
produzir efeitos positivos, como por exemplo, no âmbito
do saber. "O poder, longe de impedir o saber, o
produz", onde certamente é reconhecido nas
rígidas normas dos colégios, nos uniformes,
nas filas etc. Somente foi possível um saber
sobre o corpo através de um conjunto de disciplinas
militares e escolares. Os mecanismos de poder funcionam
de forma disseminada e a nível elementar e, nada
mudará na sociedade sem que mude os mecanismos
cotidianos das relações de poder, pois
para McCallum (1998, apud OLIVEIRA, 2004), "o corpo
é o sítio da construção
social da vida e o conhecimento vai se inscrevendo no
mesmo".
Para Guareschi e Bruschi (2003), "às identidades
são construídas através das relações
de classe, sexo, gênero, raça e etnia,
através de diferentes atravessamentos, o que
implica dizer que as identidades são históricas,
fluidas e fixas". A partir desta afirmação
podemos concluir que meninos e meninas produzem diferentes
sentidos de competências em momentos e contextos
diferenciados, que podem ser entendidos como formas
de resistências e ou tentativas de transformação
de práticas hegemônicas. Antes a criança
aprendia de forma espontânea e isso era uma prática
comum entre as famílias, mesmo que esta espontaneidade
estivesse recheada de conteúdos que afirmassem
claramente o que diz respeito a meninos e o que diz
respeito às meninas. Ranços estes, que
persistem em se manter sutilmente na contemporaneidade
de alguns modelos de educação familiar
que se estende a esfera escolar em muitos momentos.
A partir do momento que se subdivide o conhecimento
em diversas especialidades, criando-se as escolas com
ensino formal, muitos alunos encontram dificuldade na
inserção e na compreensão deste
novo ensino devido sua fragmentação. Até
então, todo o conhecimento adquirido antes da
chegada na escola é espontâneo. "A
escolarização obrigatória é
uma realidade de dimensões sociais, políticas,
antropológicas, familiares e pessoais, que perpassam
na mentalidade, nos efeitos e nos comportamentos"
Sacristan (2001).
As dificuldades de aprendizagem aliadas à uma
política segregatória, somente intensifica
o surgimento de distúrbios, sem ao menos reconhecê-lo,
compreendê-lo e auxiliá-lo. Ao se separar
meninos de meninas intensifica-se a prática de
desigualdade de competências, indo de encontro
a uma visão questionadora do método, onde
meninos estariam mais sujeitos a desencadearem distúrbios
de aprendizagem. Alguns autores como Condemarin e Bromquist
(1970, apud Morais, 1992), afirmam que esta "diferença
seria de três meninos para cada uma menina",
observados na maioria das vezes, somente a partir da
iniciação do processo de alfabetização.
No contexto familiar, "o grupo humano que chamamos
de família é uma instituição
cujas origens remontam aos primeiros seres da espécie
humana e confunde-se com a própria trajetória
filogenética. Ela está presente em todas
as culturas ao longo da história como forma espontânea
de organização social" (AGUIAR, et
al 2006). Os novos modelos de configurações
familiares foram marcados por diversas modificações
sociais e tornou-se cada vez mais freqüente a prática
de adotar formas alternativas de convivência familiar.
Os integrantes da nova modalidade familiar se deparam
com a demanda subjetiva, advinda da exigência
de revisão de seu papel a fim de restabelecer
seu lugar no mundo contemporâneo.
As questões de identidade e características
já são determinadas a partir do gênero,
menino ou menina desde o nascimento. A isso vão
anexando-se comportamentos, influenciados pelos papéis
sociais que cada um, menino ou menina, desempenha no
meio social. Para Reis (1997), "a família
atua no sentido de aprendizado diferenciado dos papéis
sexuais ao tratar diferentemente filhos meninos) e filhas
(meninas)". Enquanto os filhos (meninos) são
estimulados a serem independentes, as filhas (meninas)
são resguardadas e os pais desenvolvem esforços
para retê-las no universo familiar pelo maior
tempo possível. Os estudos e a vida profissional
dos filhos homens constituem como objeto de principal
vigilância por parte dos pais, enquanto que, para
as filhas, a preocupação é tão
somente quanto a vida afetiva e sexual. Se a formação
universitária é necessária e importante
para o filho, para as filhas tem um sentido de "status",
seja para o pai ou para o marido. Enquanto os filhos
sentem-se livres para escolher e serem donos de seu
próprio destino, as filhas sentem a vida determinada
por outros e limitada pela família. Procura-se
aqui deixar claro que esse é um modelo de família
burguesa, típica do século passado e que,
muitos destes padrões foram absorvidos para as
famílias contemporâneas. "Sabe-se
que um modelo de família deve proporcionar o
bem estar de seus membros na comunidade e admitir que
exista um ambiente extra familiar em que seus componentes
estejam inseridos". Reis, (1997, p. 123).
Os valores morais são culturais e históricos
e são eles que mantêm a identidade de um
grupo num determinado contexto, pois segundo Chauí
(1999), "ética e moral se referem a um conjunto
de costumes e tradições de uma sociedade,
porém, Gomes (2006), faz uma clara distinção
entre moral e ética ao afirmar que "moral
é uma atitude ou relação guiada
por valores que visam a conquista e conservação
da identidade de um grupo social", enquanto "ética
é uma atitude ou relação guiada
por valores que visam a conquista e a conservação
do bem comum, é a possibilidade de um diálogo
que não seja moralmente determinado, ou seja,
que possibilite por em contato duas pessoas ou duas
comunidades radicalmente distintas". Então,
no contexto familiar aglomeram-se fatores éticos
e morais que perduram atravessando gerações
e construindo saberes e poderes.
Na sociedade contemporânea esta situação
vem se modificando, lenta e progressivamente, contribuindo
assim para uma mudança no papel do homem e da
mulher na sociedade e na família. Segundo (AGUIAR,
et al, 2006), o avanço do feminismo no século
passado contribuiu para que o antigo modelo de família,
organizado com base na hierarquia e regido pelo autoritarismo
do pai, seja gradualmente substituído por formas
diferenciadas de organização familiar,
sem deixar lugar para o autoritarismo anterior. Atualmente
a mulher não trabalha apenas pela necessidade
financeira, pois independente da vida familiar e importante
para esta mulher construir também uma carreira
profissional, contribuindo para uma realização
pessoal. Igualmente a mudança também ocorreu
no papel do pai contemporâneo, pois ele não
mais se identifica apenas como um provedor econômico,
mas sim, se faz presente no contexto familiar. Hoje,
pode-se afirmar que estes sujeitos (homem e mulher)
são movidos pelas transformações
sócio-culturais. No entanto é pertinente
ressaltar e segundo (AGUIAR, et al, 2006), que, por
maiores que sejam as mudanças na estrutura familiar,
esta instituição permanece como unidade
básica de crescimento e experiência, contribuindo
assim, tanto para o desenvolvimento saudável
quanto patológico de seus componentes.
Em aspectos educacionais, e segundo, Sacristan (2001),
"ser criança ou jovem é uma condição
de certa forma marcada pelo fato de freqüentar
instituições escolares". A escolarização
institucionaliza a infância e a adolescência
e contribui para conferir a elas um sentido e uma especificidade
em nossa cultura, facilitando-lhes um ambiente especial,
regulamentado pelas leis e normas inerentes aos usos,
institucionalizando o que antes eram espaços
de convivência espontânea. É o ensino
sistematizado que vai observar e analisar os alunos
que não acompanham o que lhes é ensinado,
surgindo assim, aqueles que não conseguem acompanhar
o currículo estabelecido e são identificados
como possuidores de distúrbios de aprendizagem
e que necessitam de outro olhar do profissional da educação.
Weiss, (2001), cita que "é necessário
levar em consideração alguns aspectos
ligados ao fracasso escolar sendo: aspectos orgânicos,
cognitivos, emocionais, sociais e pedagógicos".
Para mesma autora, a escola deveria ser o espaço
estimulante para o aprender e as funções
básicas dos profissionais da educação
deveriam ser: melhorar as condições de
ensino para o crescimento constante do processo ensino-aprendizagem
e assim prevenir as dificuldades na produção
escolar, fornecer meios para que o aluno possa superar
dificuldades na busca dos conhecimentos anteriores ao
seu ingresso na escola.
Segundo Martin, E. e Marchesi, A. (1995), "Devemos
ressaltar a influência do ambiente escolar e a
importância da concentração de focos
interpretativos nas demandas educacionais do aluno e
na proposta da instituição escolar e,
não especificamente em suas deficiências".
No entanto, esta formulação não
pode esquecer que é também necessário
conhecer quais dimensões psicológicas
tem papel mais relevante nos problemas do aluno e quais
são, portanto as respostas educacionais e institucionais
que devem ser utilizadas com a finalidade de facilitar
seu desenvolvimento e conseqüentemente, sua aprendizagem.
Para Carvalho (2003), Existe um outro aspecto a ser
relevado com relação ao contexto escolar:
é muito comum entre o professorado direcionar
o problema da dificuldade de aprendizagem para outras
instâncias como a família ou o trabalho,
porém o problema nunca está na escola.
Com esse tipo de explicação Carvalho (2003),
relata que a escola se exime da culpa. Para a autora,
não se cria um espaço para refletir sobre
qual é a responsabilidade da escola: "no
que a nossa própria atitude como educadores e
as relações entre as crianças em
sala de aula, no pátio do recreio, no que tudo
isso contribui para a formação desses
modelos de feminilidade e masculinidade diversificados".
Se este tema está o tempo todo em construção
nos adultos, o mesmo deve acontecer com as crianças.
Os conteúdos não estão e não
vem somente de casa, eles são construídos
também na escola. Acredita-se que não
se deve atribuir somente a outras instituições
a culpabilidade dos fracassos escolares e ter-se consciência
que a escola tem papel fundamental de formadora de subjetividades
com poder transformacional.
Em dimensões psicológicas, as questões
de gênero podem ser relativizadas. Uma proposta
institucional que leve em conta a igualdade de potencialidades
entre meninos e meninas e as relevâncias sutis
entre gênero, poderá encontrar soluções
consideráveis nos níveis de aprendizagem
e, sobretudo nos distúrbios de aprendizagem.
Ainda, em se tratando de aspectos psicológicos,
Zanella (2005), considera que cada pessoa é um
agregado de relações sociais encarnadas
num indivíduo, significando afirmar que, ao mesmo
tempo há um "eu" e não há.
Não há um "eu" imaginário,
descolado dos outros, da realidade, enfim, do que constitui
como humano e com possibilidade de diferenciação.
É este "eu", que em sua subjetividade
deve ser preservado, enquanto possuidor ou não
de algum distúrbio, independente de questões
de gênero.
Deve-se refletir e perceber que teorias podem ser contestadas
por diversas justificativas. Uma destas contestações
seria que meninos e meninas são submetidos a
modelos de educação diferenciados. Tenta-se
aqui, mapear alguns pontos relacionados às questões
de gênero e distúrbios de aprendizagem
em meninos e meninas. É um campo de investigação
complexo, exigente e comprometido ideologicamente, sabendo-se
que "nesse repertório de valores, as idéias
e os símbolos socialmente construídos
de masculinidade e feminilidade estariam presentes,
tanto quanto outras hierarquias ligadas à estrutura
sócio-econômica, às raças
ou etnias" Carvalho (2001). Se já são
ativas e marcantes em sistemas de avaliação
escolar mais formalizados ligados à realização
de testes, à atribuição de notas,
a não inclusão de uma avaliação
dialógica e à organização
da escola em séries, essas hierarquias parecem
tornar-se ainda mais poderosas nas chamadas "avaliações
de processo", associadas aos sistemas de ciclos
e não-repetência, particularmente pela
subjetividade e indefinição de critérios
que costumam cercar a adoção desse tipo
de mudança, em curso em muitas escolas brasileiras.
Mais do que em qualquer outro momento, pensar os processos
de avaliação dos alunos no sistema escolar
brasileiro requer hoje refletir sobre as relações
sociais de gênero, masculinidades e feminilidades
que informam nossas concepções de aluno,
aprendizagem, disciplina, infância, ao lado de
outras hierarquias mais ou menos consagradas nessa reflexão,
como as de classe social, etnia e gênero.
Considerações Finais
Não se teve a intenção com este
artigo de realizar afirmações conclusivas,
definitivas, fazer sugestões e/ou críticas,
mas apontar alguns tópicos para reflexão
sobre meninos, meninas, gênero, aprendizagem e
distúrbios. Profissionais ligados à educação
e aprendizagem em geral deveriam iniciar reflexões
a respeito das desigualdades relacionadas com distúrbios
de aprendizagem e gênero, no entanto, apesar de
existirem diversas teorias que tentam explicar a relação
entre distúrbios de aprendizagem e gênero,
apontando que meninos teriam mais probabilidades de
apresentarem distúrbios de aprendizagem do que
meninas, ainda não existem dados conclusivos
que reforcem qualquer um dos contextos mencionado anteriormente
como sendo causador universal, porém, existe
sim, a necessidade de contextualização
em qualquer distúrbio que seja observado em nível
de dificuldade de aprendizagem e gênero, contemplando
esta abrangência temática como relevância
acadêmica e social.
Conclui-se nesta investigação mediante
exploração bibliográfica que, são
diversos os fatores que contribuem para que os distúrbios
de aprendizagem acometam significantemente mais os meninos
do que as meninas. Remete-nos concluir que todos os
contextos colaboram para o comprometimento das desigualdades
de gênero sendo confundidas em desigualdades de
potencialidades, no que diz respeito aos meninos.
O contraste agressividade versus docilidade faz com
que meninos e meninas sejam educados de maneiras diferentes,
isso partindo do contexto familiar, se estendendo aos
demais contextos. Considera-se importante ressaltar
que, geralmente cabe a mulher o papel e a função
de educadora, seja enquanto mãe, professora,
responsável ou cuidadora, tendo-se a consciência
que o papel educativo de uma criança não
cabe tão e somente à mulher, mas sim as
demais pessoas que compõe os contextos responsáveis
pelo desenvolvimento infantil.
A reflexão reside na inquietude em perceber que,
é esta mulher educadora que passa e repassa valores,
crenças, moral, saberes e poderes de forma diferenciada
em meninos e meninas, desde o nascimento. Entende-se
que as atribuições delegadas às
meninas, é muito próxima de seu universo,
ou seja, os cuidados com a casa, com o fazer doméstico
e com a maternidade e, esta mulher que educa meninos
e meninas possui somente o conhecimento de seu mundo,
ou seja de um mundo feminino, repassado a ela através
de outras mulheres. Os meninos não lhes são
cobrados tais responsabilidades, pois o mundo feminino
não os identifica enquanto universo masculino.
Referências
AGUIAR, L.C.G. de, et al. Psicología Social:
Evolução no modelo familiar. In: Trabalho
apresentado na disciplina de Psicología Social
do Curso de Psicología da Universidade do Vale
do Itajaí - Univali - (mimeo), 2006.
CARVALHO, M. Mau aluno, boa aluna? Como as professoras
avaliam meninos e meninas. Estudos Feministas. Florianópolis,
v.9, n2. Dez. 2001.
CARVALHO, Maria Pinto de. Sucesso e fracasso escolar:
uma questão de gênero. Publicado em Scielo
Brasil. Educ. Pesq. V. 1, n.1, São Paulo jan./jun.
2003.
CHAUÍ, Marilena de Souza. Convite à filosofia.
São Paulo: Ática, 2004.
BERNHOEFT, Marcus F. In: Conceito de maturidade biológica.
Disponível em: http://www.cbda.org.br/arquivos
. Acesso em 02 de out de 2008.
BOURDIEU, Pierri. A Dominação Masculina.
Rio de Janeiro: Bertland Brasil, 2005.
CONDEMARÍN, M. e BLOMQUIST, M. - La dislexia:
manual de lectura corretiva. Chile, Editorial Universitária,
1970.
CONDEMARÍN, M.; CHADWICK, M.; MILICIC, N. - Madurez
escolar. Chile: Editorial Andrés Bello, 1978.
DEL PRIORI, Mary. Religião e religiosidade no
Brasil colonial. São Paulo: Ática, 1994.
DIAS, M.C.R. Por uma compreensão do conceito
de gênero. In: FAGUNDES, T.C.P.C. (org). Ensaios
sobre identidade e gênero. Salvador, p. 15-34,
Helvécia, 2003.
FAGUNDES, T.C.P.C. A Identidade Feminina - uma construção
histórico-cultural. In: Ensaios sobre a identidade
e gênero. Salvador: Helvécia, 2003.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 22a.
ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
GOMES, George. Distinção entre moral e
ética. Disponível em http://criseecritica.oi.com.br/fundamentos_distinção
entre moral e ética.htm. Acesso em 04 de out.
de 2008.
GUARESCHI, Neuza Maria de Fátima e BRUSCHI, Michel
Euclides, org. Psicologia Social nos Estudos Culturais:
perspectivas para uma nova psicologia social. Petrópolis,
Rio de Janeiro: Vozes, 2003.
LOURO, G.L. Segredos e Mentiras do Currículo.
Sexualidade e gênero nas práticas escolares.
Petrópolis: Vozes 2003.
NOBREGA, Paulo. Grupos Escolares: modernização
do ensino e poder oligárquico. In: DALLABRIDA,
Norberto. (org). Mosaico de escolas: Modos de educação
em Santa Catarina na Primeira República. Florianópolis:
Futura, 2003.
McCALLUM. Cecília. O corpo que sabe: da epistemologia
Kaxinawá para uma antropologia médica
das terras baixas sul-americanas. In: ALVES, Paulo César;
RABELO, Miriam C. Antropologia da saúde. Rio
de Janeiro: Fio Cruz, 1998.
MARCHESI, A e MARTIN, E. Desenvolvimento psicológico
e educação: Necessidades educativas especiais
e aprendizagem escolar. Porto Alegre: Artes Médicas,
1995.
MARQUES , Ana Maria. Realidade sócio-educacional
brasileira. Universidade do Vale do Itajaí -
Univali - Itajaí, 2008.
MINAYO, M.C. de S. (org). Pesquisa social: teoria, método
e criatividade. Petrópolis - R.J.: Editora Vozes,
1994.
MORAIS, Antônio Manuel Pamplona. Distúrbios
de aprendizagem: uma abordagem psicopedagógica.
5a. ed. São Paulo: Edicon, 1992.
OLIVEIRA, D. D. de. Desaparecidos civis: um problema
de gênero e geracional. In: 3o. Prêmio construindo
a igualdade de gênero, Brasília: 2008,
p. 80.
OLIVEIRA, Gislene de Campos. Avaliação
psicomotora à luz da psicologia e da psicopedagogia.
Petrópolis, RJ: vozes, 2003.
OLIVEIRA, Marcelo J. Alguns aspectos culturais de saúde
em torno da síntese corpórea: entre xamãs
e bezendeiras. (mimeo). Univali, Biguaçu, 2004.
PAIN, S. O problema de aprendizagem: Fatores. Porto
Alegre: Artes Médicas Sul, 1986.
PILETTI, Claudino: PILETTE, Nelson. Filosofia e História
da Educação. São Paulo: Ática,
1985.
RIBEIRO, Marcos. Educação de Meninos e
Meninas. Disponível em: http://pailegal.net.
Acesso em 05-09-08.
RIBEIRO, Maria Lúcia de Arruda Aranha. História
da Educação. 2ª. ed. Moderna. São
Paulo, 2001.
REIS, José Roberto Tozoni e outros. Psicologia
Social: O homem em movimento: In: Família, emoção
e ideologia. Ed. Brasiliense. São Paulo, 1997.
SACRISTAN. J. G. A Educação Obrigatória:
seu sentido educacional e social. Porto Alegre. Artmed.
2001.
SANTO, Shirlei Rezende Sales do Espírito. O jovem
Macho e a Jovem difícil: sexualidade, subjetividade
e governo no discurso curricular. 3º Prêmio
"Construindo a Igualdade de Gênero".
Governo Federal, Brasília, 2008.
SOUZA, Edinete Jeremias. Etiologia e os Problemas de
Aprendizagem. Virtus/Unisul.v.2, n.2 - Tubarão,
2002.
TORRES, C.R.V. Sobre gênero e Identidade. In:
Fagundes, T.C.P.C. Ensaios sobre identidade e gênero.
Salvador: Helvécia, 2003.
WERNER, Jairo. In: Desenvolvimento cultural da criança:
a transformação do biológico pelo
social. Disponível em: http://www.redebrasil.tv.br/salto/boletins2001/edtx.t1.htm.
Acesso em 20 set. 2008.
WEISS, Maria Lúcia Lemme. Psicopedagogia Clínica:
uma visão diagnóstica dos problemas de
aprendizagem escolar. Rio de janeiro: DP e A 8ª.
Ed. 2001.
ZANELLA. Andréa Vieira. Sujeito e auteridade:
Reflexões a partir da psicologia histórico-cultural.
In: rev. Psicologia e Sociedade; 17 (2): 99-104; mai/ago.
2005.
Publicado
em 17/08/2009
|