Nas
estradas, vêem-se ainda carros com os nomes e
os logos das IES (Instituições de Ensino
Superior), indicando todos os contatos possíveis;
ônibus e táxis postam em seus vidros traseiros
chamadas referentes aos processos seletivos das Instituições.
Revistas
também não deixam de abrir espaço
para divulgar as mesmas mensagens, do mesmo modo que
as vias expressas, por onde trafegam pessoas pertencentes
a camadas sócio-econômicas abastadas, fartam-se
de painéis luminosos de grande sofisticação.
Faixas
em aviões que sobrevoam à beira-mar têm
sido exploradas para atrair possíveis candidatos
que mais parecem preocupados com o lazer ou com o agravamento
do tom dourado que bronzeia a pele.
A
internet - como espaço privilegiado de comunicação
- também não é dispensada nesta
busca incansável de gente, gente que ainda queira
estudar. Se por um lado a procura de candidatos, por
parte das Instituições, é quase
uma guerra - diríamos uma guerra diplomática
que, à primeira vista,parece de alto nível
- o número de pessoas que se dão o direito
de decidir o que estudar, onde estudar e por que estudar
é, sem dúvida, cada vez menor. O que a
maioria das pessoas admite é que ter formação
superior ainda é um diferencial. Muitas vezes,
lançam-se às universidades, sem atentar,
ao menos, as condições de oferta do curso
que pleiteiam, mesmo que saibam que isto pode imputar
prejuízos à formação ou
à inserção no mercado de trabalho.
Tentando
responder às inquietações sociais,
as universidades, defrontando com um mercado altamente
competitivo, buscam aprimorar-se. Isto pelo menos em
se falando daquelas que pretender ser universidades
- no sentido pleno da palavra - ou que almejam chegar
à condição de ser. A melhoria das
condições físicas parece ser a
questão mais fácil de ser resolvida, embora
se reconheça quão elevados são
os custos financeiros para tal. Provavelmente a seleção
de professores seja, neste contexto, um dos maiores
desafios. Na maior parte dos casos, o processo se dá
de forma muito primária e precária: consideram
a titulação docente e desprezam a trajetória
acadêmica do profissional na Instituição
formadora; computam a experiência do professor
no ensino superior, dissociando isto da qualidade da
prática pedagógica realizada. Chegam ao
cúmulo de solicitar currículos sem requerer
a devida comprovação, feita por documentos
autenticados, muitas vezes, apoiando-se em indicações
pessoais, motivadas por relacionamentos afetivos e desprovidas
de rigor avaliativo. Enfim, não raro, pagam um
preço bastante alto por tamanha ousadia: toda
trajetória compõe uma história;
história que não é desprezível,
que não é substituível, que nem
sempre é abonável.
A
trajetória profissional de qualquer pessoa é
bastante para dizer quem ela é. Não adianta
esperar que um professor incentive a leitura se ele
próprio não é um leitor convicto,
solicitar que valorize a pesquisa se ele mesmo não
se vê como pesquisador, requerer que estimule
a escrita se não consegue articular um texto
dentro de sua própria área de saber, pleitear
que se abram os horizontes dos alunos se os seus horizontes
pessoais estão fechados, consolidados e limitados.
Difícil
ser acadêmico se não se dispõe de
alguns atributos essenciais, se a Instituição
nos paga hora-aula e não percebe nosso potencial
para além da sala de aula, se dispensa o plano
de carreira desincentivando o crescimento do profissional,
se não adota um sistema de avaliação
que atue modulando as alterações necessárias,
se não reconhece como especialista aquele que
em verdade o é.
Viver
universidade não é dividir tempos entre
salas de aulas, consultórios e escritórios.
É estar de corpo e alma presentes, produzindo
para ela, estudando por ela, inovando com ela, isto
é, ocupando-se das grandes questões que
aflingem a sua comunidade. Mas nesse corre-corre que
vivemos nada acontece de fato: nem o docente assume-se
acadêmico nem tampouco cria condições
para que o graduando se veja como tal.
Chegando
à universidade, muitas vezes, sem pleno domínio
da leitura e da escrita, destituído de motivação
para querer saber mais, despreparado psicologicamente
para fazer o ensino superior, de modo superior, o aluno
decepciona-se porque descobre que o tempo passa e ele
não avança. Descobre-se impotente por
não ver meios de mudar; inútil por não
encontar aplicação no que estuda; incapaz
por não alcançar a realização
pessoal que imaginara possível quando dos exames
vestibulares.
O saber não vai ao aluno ou ao professor; estes
é que precisam ir a ele: buscá-lo, fundá-lo,
incrementá-lo, reformulá-lo num processo
incessante e interminável. Enfim, para assumir
a condição de ser acadêmico, é
preciso fazer disto um propósito de vida.