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::. Tornar-se acadêmico, um propósito da vida
Profa. Dra. Lucí Hildenbrand
Licenciada em Biologia (UFRRJ), M.Sc em Educação/Tecnologia Educacional (UFRJ), Ph.D.em Comunicação/ Radio e Tv.(USP); especialista em Campanhas de Saúde Pública, Consultora e Assessora de Projetos em Tecnologia Educacional ; Educomunicação; Comunicação, Educação e Saúde. Docente da UFRRJ, UNIG e UNESA.
E-mails:
lucihildenbrand@uol.com.br / luci.h@ig.com.br
Prof. Sérgio Eduardo M. Pereira
Mestre em Educação pela UNIG/RJ



Exames e exames vestibulares são em quantidade anunciados pelos outdoors. Nos jornais impressos e eletrônicos há um chamamento geral da sociedade para que se integre a população de alunos de nível superior.

Nas estradas, vêem-se ainda carros com os nomes e os logos das IES (Instituições de Ensino Superior), indicando todos os contatos possíveis; ônibus e táxis postam em seus vidros traseiros chamadas referentes aos processos seletivos das Instituições.

Revistas também não deixam de abrir espaço para divulgar as mesmas mensagens, do mesmo modo que as vias expressas, por onde trafegam pessoas pertencentes a camadas sócio-econômicas abastadas, fartam-se de painéis luminosos de grande sofisticação.

Faixas em aviões que sobrevoam à beira-mar têm sido exploradas para atrair possíveis candidatos que mais parecem preocupados com o lazer ou com o agravamento do tom dourado que bronzeia a pele.

A internet - como espaço privilegiado de comunicação - também não é dispensada nesta busca incansável de gente, gente que ainda queira estudar. Se por um lado a procura de candidatos, por parte das Instituições, é quase uma guerra - diríamos uma guerra diplomática que, à primeira vista,parece de alto nível - o número de pessoas que se dão o direito de decidir o que estudar, onde estudar e por que estudar é, sem dúvida, cada vez menor. O que a maioria das pessoas admite é que ter formação superior ainda é um diferencial. Muitas vezes, lançam-se às universidades, sem atentar, ao menos, as condições de oferta do curso que pleiteiam, mesmo que saibam que isto pode imputar prejuízos à formação ou à inserção no mercado de trabalho.

Tentando responder às inquietações sociais, as universidades, defrontando com um mercado altamente competitivo, buscam aprimorar-se. Isto pelo menos em se falando daquelas que pretender ser universidades - no sentido pleno da palavra - ou que almejam chegar à condição de ser. A melhoria das condições físicas parece ser a questão mais fácil de ser resolvida, embora se reconheça quão elevados são os custos financeiros para tal. Provavelmente a seleção de professores seja, neste contexto, um dos maiores desafios. Na maior parte dos casos, o processo se dá de forma muito primária e precária: consideram a titulação docente e desprezam a trajetória acadêmica do profissional na Instituição formadora; computam a experiência do professor no ensino superior, dissociando isto da qualidade da prática pedagógica realizada. Chegam ao cúmulo de solicitar currículos sem requerer a devida comprovação, feita por documentos autenticados, muitas vezes, apoiando-se em indicações pessoais, motivadas por relacionamentos afetivos e desprovidas de rigor avaliativo. Enfim, não raro, pagam um preço bastante alto por tamanha ousadia: toda trajetória compõe uma história; história que não é desprezível, que não é substituível, que nem sempre é abonável.

A trajetória profissional de qualquer pessoa é bastante para dizer quem ela é. Não adianta esperar que um professor incentive a leitura se ele próprio não é um leitor convicto, solicitar que valorize a pesquisa se ele mesmo não se vê como pesquisador, requerer que estimule a escrita se não consegue articular um texto dentro de sua própria área de saber, pleitear que se abram os horizontes dos alunos se os seus horizontes pessoais estão fechados, consolidados e limitados.

Difícil ser acadêmico se não se dispõe de alguns atributos essenciais, se a Instituição nos paga hora-aula e não percebe nosso potencial para além da sala de aula, se dispensa o plano de carreira desincentivando o crescimento do profissional, se não adota um sistema de avaliação que atue modulando as alterações necessárias, se não reconhece como especialista aquele que em verdade o é.

Viver universidade não é dividir tempos entre salas de aulas, consultórios e escritórios. É estar de corpo e alma presentes, produzindo para ela, estudando por ela, inovando com ela, isto é, ocupando-se das grandes questões que aflingem a sua comunidade. Mas nesse corre-corre que vivemos nada acontece de fato: nem o docente assume-se acadêmico nem tampouco cria condições para que o graduando se veja como tal.

Chegando à universidade, muitas vezes, sem pleno domínio da leitura e da escrita, destituído de motivação para querer saber mais, despreparado psicologicamente para fazer o ensino superior, de modo superior, o aluno decepciona-se porque descobre que o tempo passa e ele não avança. Descobre-se impotente por não ver meios de mudar; inútil por não encontar aplicação no que estuda; incapaz por não alcançar a realização pessoal que imaginara possível quando dos exames vestibulares.

O saber não vai ao aluno ou ao professor; estes é que precisam ir a ele: buscá-lo, fundá-lo, incrementá-lo, reformulá-lo num processo incessante e interminável. Enfim, para assumir a condição de ser acadêmico, é preciso fazer disto um propósito de vida.
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