| ::.
Transformando
o frágil em forte |
Janete
Leony Vitorino
Graduada em História pela Universidade
do Estado de Santa Catarina-UDESC, pós-graduada
em Psicopedagogia pela Universidade do Sul de Santa Catarina
- UNISUL, pós-graduanda em Educação
Infantil e Séries Iniciais pela Faculdade de Educação
de Joinville. Atualmente é Professora Mediadora
do Centro Integrado de Educação do SESI,
desenvolvendo trabalho com alunos que apresentam dificuldade
de aprendizagem.
Email: janetepsicopedagoga@yahoo.com.br.
Resumo
Quem, além dos especialistas, já ouviu
falar neste termo: X-Frágil? Embora a denominação
possa parecer estranha aos ouvidos menos atentos, trata-se
de uma síndrome de origem hereditária,
reconhecida somente a partir dos anos 80. Christian
Gauderer, em seu livro "Autismo e outros atrasos
do desenvolvimento", com colaboração
dos especialistas Mary Ann Fischer, Randi Hagerman,
Shannon Geis e Maria Linda Lemos Bezerra, afirma que
a síndrome pode acometer cerca de 13% da população
autista e de 5% a 10% das pessoas que sofrem de rebaixamento
mental de causa desconhecida. Segundo o especialista,
a síndrome do X-Frágil ocupa o segundo
lugar, depois da síndrome de Down, como causa
de deficiência mental. Partindo-se do princípio
de que a informação é a principal
arma contra o preconceito, reunimos, neste artigo, algumas
informações importantes para que a síndrome
do X-Frágil seja identificada, tratada e compreendida
por todos nós.
Palavras - chave
Síndrome
Hereditária; X-Frágil; Atraso no Desenvolvimento
O que é a Síndrome do X-Frágil?
É uma condição de origem genética,
considerada a causa mais freqüente de comprometimento
intelectual herdado e a deficiência mental congênita
mais comum no mundo além da Síndrome de
Down. As pessoas afetadas apresentam atraso no desenvolvimento,
problemas de comportamento e, eventualmente, características
físicas peculiares.
Estima-se que 1 em 2000 homens e 1 em cada 4000 mulheres
sejam afetados pela mutação completa do
gene. As características dos portadores de X-Frágil
vêm sendo observadas há muitos anos em
pessoas com atraso de desenvolvimento.
Os homens portadores do gene com "defeito"
passam a síndrome para todas as filhas, mas a
nenhum de seus filhos. Cada filho de uma mulher portadora
tem 50% de chance de herdar o gene defeituoso. A pré-mutação
do gene pode ocorrer ao longo de gerações
numa família até que se transforme numa
mutação completa e apareça uma
criança afetada. As estatísticas indicam
que 1 em 250 mulheres e 1 em 700 homens são portadores
da pré-mutação.
Essa síndrome é reconhecida como uma anormalidade
inerente ao cromossomo X. Para maior compreensão
é necessário relembrar o seguinte: as
mulheres têm dois cromossomos X (XX). Os homens
têm um cromossomo X e um Y (XY). Quando uma criança
é concebida, herda um dos cromossomos X da mãe
e o cromossomo X ou Y do pai, o que determina o sexo
do bebê: se herdar o X do pai, combinado com o
X da mãe, será uma menina; se herdar o
Y do pai, será um menino.
Se houver mutação em um dos cromossomos
X, está presente a Síndrome do "X-Frágil"
que afeta diretamente o cérebro, devido a alterações
no número de ligações entre as
células cerebrais.
Em 1969, Dr. Herbert Lubs relatou ter encontrado o cromossomo
X alterado numa família com quatro casos de rebaixamentos
mentais do sexo masculino. Foi somente após os
anos 80 que os laboratórios passaram a detectar
o cromossomo X-Frágil com maior freqüência.
Desde então, os médicos têm observado
aspectos físicos e comportamentos diferenciados
característicos de quem é portador da
síndrome.
As mulheres não são afetadas tão
freqüente ou severamente quanto os homens, não
por discriminação sexual, mas por uma
seleção decorrente de um cálculo
racional. Vejamos: as mulheres têm dois X, se
um deles sofre mutação, há o outro
para compensar. Os homens têm somente um X, já
que sua composição cromossômica
é XY. Se o único X masculino sofre alteração,
os efeitos são perceptíveis tanto física
quanto mentalmente. Entretanto, a alteração
em um cromossomo X de uma mulher, não a exime
da deficiência. Gauderer aponta uma estimativa
segundo a qual a cada 1.000 homens, um é afetado,
e cerca de uma em 700 mulheres recebe a herança
do X-Frágil.
Pessoas afetadas pela Síndrome do X-Frágil
gozam de boa saúde e sua aparência pode
ser semelhante à de outras pessoas. Algumas características
físicas, entretanto, são freqüentes
e, em geral, se tornam mais evidentes após a
puberdade:
-
face alongada;
-
orelhas grandes e em abano;
-
mandíbula proeminente;
-
macrorquidia (testículos aumentados), principalmente
no adulto.
Podem apresentar, ainda, um ou vários dos traços
abaixo:
-
hipotonia muscular;
-
comprometimento do tecido conjuntivo;
-
pés planos;
-
hiperextensibilidade das articulações;
-
palato alto;
-
pectus excavatum(1) ;
-
prolapso da válvula mitral;
-
prega palmar única;
-
estrabismo;
-
escoliose;
-
calosidade nas mãos (decorrente do hábito
de morder as mãos).
Características Comportamentais
Na infância, é comum a hiperatividade e
a falta de atenção nos meninos portadores
da síndrome. Nas meninas, a timidez é
bastante observada. Os distúrbios de fala e do
comportamento se manifestam nesta fase. Na etapa escolar,
os "X-Frágil" são notados pelo
distúrbio atencional e pelos distúrbios
de aprendizagem, podendo aparecer, também neste
período, a fala repetitiva, as imitações,
maneirismos de mãos, agressividade e dificuldade
em manter um tema.
Na puberdade, isolam-se socialmente, o que geralmente
agrava a timidez nas meninas, podendo chegar a uma depressão.
A intelectualidade diminui, a agressividade, às
vezes, aumenta, não sustentam o olhar.
O diagnóstico não se faz essencialmente
pela presença das características físicas,
mas a qualquer demonstração de atraso
mental, pela história familiar com registro de
atraso mental e ou dificuldade de aprendizado de etiologia
desconhecida, em combinação com algumas
das características acima evidenciadas. Esses
fatores nos fazem suspeitar que encontramos um indivíduo
com a Síndrome do X-Frágil.
O comportamento e a linguagem típicos da síndrome
são resultantes do fato de o cérebro não
processar nem organizar corretamente o fluxo de estímulos
sensoriais. Por exemplo: os portadores da Síndrome
do X-Frágil são muito ligados ao seu meio
ambiente e alguns, devido à disfunção
sensorial, não conseguem filtrar o barulho e
as luzes, que lhes causam hiperatividade, problemas
de concentração, irritabilidade e impulsividade.
Quando se sentem ameaçados, sobrecarregados pelo
meio ambiente em função de luzes e ruídos,
podem ter problemas emocionais, expressados por acessos
de raiva, explosões, comportamento agressivo.
Podem, ainda, esconder-se embaixo ou atrás de
móveis ou objetos, esfregar ou morder as mãos
ou fazer outros movimentos repetitivos, autísticos.
Os pais ou responsáveis por uma criança
que apresenta alguns dos sintomas que identificam a
Síndrome do X-Frágil devem procurar um
médico o quanto antes, para que possa receber
orientações de como lidar com o portador.
Um geneticista pode orientar sobre a possível
transmissão de mãe portadora de um X-Frágil
para os filhos.
Um aspecto importante, tanto para a família como
para os profissionais, é identificar, no meio
ambiente da criança afetada, o que a incomoda.
Quando esse fator é identificado, pode-se eliminar
ou modificar o estímulo do meio ambiente.
Não há cura para quem possui a Síndrome
do X-Frágil, mas há tratamento que ameniza
o quadro, possibilitando a integração
social. Terapia ocupacional, fisioterapia, musicoterapia,
fonoaudiologia, terapia psicológica para a família
e para o portador, além de remédios com
ácido fólico associado a vitaminas do
complexo B, magnésio e zinco, ajudam a minimizar
problemas comportamentais e de linguagem.
As crianças portadoras da Síndrome do
X-Frágil requerem educação especial,
com programa apropriado. O importante é que se
estimulem suas potencialidades o mais precocemente possível,
num ambiente com o mínimo de barulho e mudanças,
para que possa evoluir seu desenvolvimento.
Para
a médica neurologista que presta atendimento
no Centro de Desenvolvimento Humano (CDH) da AME, Suzana
Bechelli, uma vez confirmado o diagnóstico da
Síndrome do X-Frágil, deve-se procurar
serviços especializados que façam acompanhamento
multidisciplinar para tratamento da deficiência
mental, principal característica da síndrome.
Segundo a especialista, o momento certo de se buscar
ajuda é quando há suspeita de que algo
não vai bem com a criança, quando há
um quadro de deficiência e um desenvolvimento
inadequado. Ou, ainda, quando o pediatra observar que
a criança é hiperativa ou apresenta comportamento
autístico, ou seja, é muito desligada,
sem conseguir estabelecer contato no meio em que vive.
"Nessas situações, é feito
um exame de sangue, um cariótipo, em que é
possível detectar a existência da Síndrome
do X-Frágil", esclarece. Ela lembra que
10% das crianças autistas do sexo masculino são
portadoras da síndrome. A médica ressalta
que pode haver dificuldades em diagnosticar o X-Frágil
logo no início, porque, algumas vezes, a criança
pode não apresentar traços evidentes.
"A deficiência mental pode ser tão
leve que só seja percebida quando a criança
vai para a escola e começa a apresentar dificuldades
de aprendizado", explica.
A única forma de amenizar o quadro evidenciado
pelo comportamento e aspectos físicos da criança
é o tratamento precoce. "Todo o sucesso
das terapias pedagógica e psicológica
depende principalmente da precocidade com que se inicia
o tratamento", destaca a médica.
Cada célula do nosso corpo contém 46 cromossomas
agrupados em 23 pares e constituídos por material
genético (DNA) necessário para a produção
de proteínas que levam ao crescimento, desenvolvimento
e à definição das características
físicas e intelectuais de uma pessoa. Os primeiros
22 pares de cromossomas são iguais nos homens
e nas mulheres, o que já não acontece
com o último par de cromossomas - os cromossomas
sexuais X e Y, que são diferentes consoante o
sexo da pessoa. Nos homens, existe um par XY e nas mulheres
um par XX. Assim, na concepção de uma
nova vida, a mulher contribui com um dos seus dois cromossomas
X e o homem contribui com o cromossoma Y ou o X, determinando
se essa nova vida será menino ou menina.
Portanto, uma pessoa herda a Síndrome do X-Frágil
em virtude de uma série de acontecimentos que
ocorreram com os seus ascendentes, não apenas
com os seus pais. O primeiro passo envolvido é
a mudança de uma versão estável
do gene FMR1 (presente na maioria da população)
para uma versão instável (pré-mutação).
Este evento é raro, mas assim que ele ocorre,
a mudança passa a ser mais freqüente, sendo
comum uma pessoa com pré-mutação
passar uma mutação.
O que causa a síndrome
A proteína FMRP é indispensável
para o desenvolvimento do sistema nervoso. Indivíduos
com X-Frágil não produzem esta proteína,
o que desestabiliza todo o processo de funcionamento
cerebral. Esta proteína ativa o Gen FMR-1 encontrado
no cromossoma X. Sua ausência afeta mais os homens
do que as mulheres, já que essas possuem dois
cromossomas X.
Técnica e métodos
Hoje, com os genes já bem definidos, FMR1 e FMR2,
podemos fazer diagnósticos precisos da Síndrome
do X-Frágil. Estes diagnósticos são
realizados através de técnicas de Biologia
Molecular tais como PCR (Reação de Cadeia
da Polimerase) e Southern Blot, que são mais
sensíveis e se baseiam na análise de DNA.
Quando utilizadas conjuntamente são capazes de
diagnosticar 96% dos casos. As análises feitas
podem ser através de sangue, fio de cabelo e
até de líquido amniótico, caso
a mãe esteja grávida.
O PCR é um triador inicial que apresenta vantagens
como ser mais barato que o Blot, mais fácil,
rápido e com muita sensibilidade, podendo determinar
os pacientes normais e pré-mutados. Não
é útil no caso de meninas homozigotas
e em casos de confirmação de pacientes
afetados. Nesse caso, é utilizado o Southern
Blot (mais caro e mais demorado).
A análise dos resultados baseia-se no número
de repetições de CGG, ou seja: Citosina,
Guanina, Guanina, que em indivíduos normais apresentam
de 6 a 52 cópias. Uma expansão de 52 a
200 cópias é associada à pré-mutações:
podem apresentar sintomas mais suaves da síndrome
e podem ser portadores assintomáticos (muitas
mães são pré-mutadas e não
apresentam estigmas da síndrome). Quando os resultados
superam as 200 repetições, tem-se a Mutação
Completa, ou seja, o paciente está afetado com
a Síndrome do X-Frágil.
Herança
Os descendentes dos portadores da Síndrome do
X Frágil são diferentes, dependendo do
sexo. Quando o pai é o portador, pode transmitir
o cromossoma X a suas filhas, mas nunca para seus filhos.
A mãe portadora tem 50% de probabilidade de transmitir
o gene afetado a cada um de seus filhos e filhas.(2)
Conclusão
Verifica-se,
então, a possibilidade de interação
da psicopedagogia com o meio ambiente educacional do
portador da Síndrome do X-Frágil, pois
a criança só conseguirá atingir
a integração e tornar-se agente transformador
com sob a atuação de diversos recursos
profissionais associados, quais sejam: médicos,
fonoaudiológicos, fisioterapêuticos, psicológicos
e psicopedagógicos.
A notícia de que um filho é portador de
uma deficiência pode causar um forte impacto emocional
na família, e para superá-lo é
preciso buscar ajuda com pais que já tiveram
esta experiência, compartilhar sentimentos com
outras pessoas importantes no contexto familiar, buscar
informações sobre o problema do filho,
pois quanto mais ele for conhecido, mais possibilidades
de ajuda se apresentarão.
Às vezes, más notícias podem parecer
tão terríveis que obscurecem todo o resto.
Por mais elevado que seja o grau de dificuldade de uma
criança, ela pode apresentar características
excepcionais como: afetividade, perseverança,
habilidades motoras entre outras. É primordial
que a família viva um dia de cada vez estimulando,
proporcionando novos desafios, tentando adaptar-se à
nova situação, sem esconder sentimentos
e mantendo a criança informada sobre sua deficiência.
Não há progresso sem a conjugação
dos diversos campos do saber, por isso os profissionais
não podem agir como onipotentes. Conforme pontua
Scoz(3) : "... nenhuma teoria
ou corrente tomada isoladamente pode dar conta do processo
educativo e que o trabalho em educação
envolve uma multiplicidade de fatores nos quais inúmeras
ciências têm importantes colaborações
a prestar".
Enfim, a informação é a principal
arma contra o preconceito.
Tentamos, neste artigo, abordar alguns pontos importantes
para que a síndrome do X-Frágil seja identificada,
tratada e compreendida por todos nós.
(1) conhecido entre os leigos como
"peito de sapateiro", "peito escavado",
"tórax escavado" é uma deformidade
em depressão do esterno e cartilagens costais
inferiores, eventualmente acompanhada de deformidade
da extremidade anterior das costelas na sua articulação
com as cartilagens costais (http://www.fisioterapia.com.br/publicacoes/abordagfisiocompresp.asp).
(2)
http://www.neurogene.floripa.com.br/causa.htm
(3) SCOZ, Beatriz. Psicopedagogia e
realidade escolar: problema escolar de aprendizagem.
Petrópolis/RJ: Vozes, 1994.
Referências
SCOZ,
Beatriz. Psicopedagogia e realidade escolar: problema
de aprendizagem.Petrópolis/RJ:Vozes, 1994.
www.neurogene.floripa.com.br
www.fisioterapia.com.br
www.xfrágil.org/oquee.htm
|