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Universidade
e a experiência de pesquisa em sala de aula
no mestrado em Educação
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Profa.
dra. Martha Abrahão Saad Lucchesi - Email:
mgrlucchesi@uol.com.br
Pesquisadora do Mestrado em Educação
Universidade Católica de Santos
As
estações vão e voltam num ciclo
aparentemente repetitivo, sem mudanças visíveis.
No entanto, o tempo pode ser revelador de transformações.
Da mesma forma, um educador que reconheça homens
e mulheres em sua própria humanidade, mesmo que
em um ambiente restrito - a sala de aula, é capaz
(e jamais perderei a esperança nisso) de transformar
o mundo.
Neusa L. de Vicente
Pesquisa
e Produção do Conhecimento
Quando
se fala em pesquisa em sala de aula, é preciso
conceituar o que entendemos por pesquisa. Gatti distingue
a pesquisa, em sentido amplo, daquela que produz conhecimento
novo, ou pesquisa científica.
Pesquisa
é o ato pelo qual procuramos obter conhecimento
sobre alguma coisa. Com definição tão
ampla, podemos dizer que estamos sempre pesquisando
(...). Contudo, num sentido mais estrito, visando à
criação de um corpo de conhecimentos sobre
um certo assunto, o ato de pesquisar deve apresentar
certas características específicas. Não
buscamos, com ele, qualquer conhecimento, mas um conhecimento
que ultrapasse nosso entendimento imediato na explicação
ou na compreensão da realidade que observamos
(...). Neste caso, estamos fazendo pesquisa para construir
o que entendemos por ciência, ou seja: tentando
elaborar um conjunto estruturado de conhecimentos que
nos permita compreender em profundidade aquilo que,
à primeira vista, o mundo das coisas e dos homens
nos revela nebulosamente ou sob uma aparência
caótica. Vamos então percorrendo aqueles
caminhos que nos parecem, segundo critérios,
mais seguros para construir uma compreensão aproximada
dos homens, da natureza, das relações
humanas, etc. (GATTI, 2002: 9-10).
Para a autora, a pesquisa científica tem alguns
elementos fundamentais, como a ausência de dogmas
e idéias pré-concebidas, a necessidade
de "critérios de escolha e interpretação
de dados", a fundamentação em teorias
de base, a seleção dos dados e um método
(GATTI, 2002:10-12).
Nessa perspectiva, a pesquisa em sala de aula constitui-se
em importante instrumento para a superação
da "crise" que vive hoje a educação.
Restringir a "crise" da universidade ao momento
atual é desconhecer que ela sempre foi um "espaço
de conflito e contradição" (LUCCHESI,
200:21). O foco do conflito é que mudou. Ele
já não se configura, como na década
de 1960, no debate entre formar um profissional competente
para o mercado de trabalho ou um crítico da sociedade
com sólida formação intelectual.
Hoje, o debate se refere à produção
do conhecimento. Ocorreu uma mudança epistemológica
na produção do conhecimento científico.
É preciso introduzir a questão do pensamento
complexo, que consiste na superação da
segmentação da realidade resultante do
método cartesiano. Não que este não
contribua para o crescimento do conhecimento científico,
mas é preciso considerar que não é
possível dar conta da complexidade da realidade
apenas compartimentando-a para estudá-la. (LUCCHESI,
2001). Nesse contexto, um grande avanço é
a pesquisa interdisciplinar e, indo mais além,
a transdisciplinar[1].
Da
interdisciplinaridade ao pensamento complexo, faz-se
necessário um caminho. Não se trata apenas
de um salto, mas de uma senda a ser trilhada com cuidado.
É preciso evitar transformar o estudo interdisciplinar
em uma somatória de visões estanques e
não-comunicantes, o que resulta estéril,
transformando a interdisciplinaridade em mera exibição
de erudição plural (LUCCHESI, 2001, p.30).
No entanto, ela tem sido pouco praticada, pois parece
que há um ethos de desmotivação
instituído em nossas instituições
de ensino. Para que a pesquisa interdisciplinar se configure,
é necessário: virtude, força (Fazenda,1999)
e coragem para colocá-la em prática. O
maior mérito dos pesquisadores inter e transdiciplinares
é pôr a descoberto a lógica das
disciplinas e a fragmentação do conhecimento
que delas resulta, além da ruptura entre o cognitivo
e o afetivo. É preciso coragem para que o novo
possa dar certo, transformar mentalidades e, conseqüentemente,
práticas pedagógicas superadas. Ousar,
numa ousadia de busca de uma transformação
possível, é um risco que os educadores
comprometidos devem dispor-se a correr.
Ultrapassar os limites das disciplinas impõe-se
como uma necessidade da ciência atual, porque,
como diz Moraes (200: 210), estamos saindo da era da
dualidade, "divisão entre observador e observado",
para entrar na "era relacional", na qual a
tramalidade do poder não mais se configura na
disponibilidade dos bens físicos e materiais,
mas sim no conjunto de informações e conhecimentos
disponíveis.
Não se pode pensar o ensino, sobretudo o ensino
universitário (e, menos ainda, a Pós-Graduação),
a não ser a partir da produção
do conhecimento. A relação entre ensino
e pesquisa não é um princípio meramente
legal e formal, mas uma questão epistemológica.
O conhecimento é, pois, elemento específico
fundamental na construção do destino da
humanidade. Daí sua relevância e importância
da educação, uma vez que sua legitimidade
nasce exatamente de seu vínculo íntimo
com o conhecimento. De modo geral, a educação
pode ser conceituada como o processo mediante o qual
o conhecimento se produz e se reproduz, se conserva,
se sistematiza, se transmite e se universaliza (SEVERINO
In: LUCCHESI, 2002, p.18).
Quando uma experiência de sala de aula é
bem sucedida é preciso compartilhá-la
com a comunidade acadêmica, socializá-la,
para que outros educadores venham a ousar. Este é
o objetivo deste artigo:compartilhar com os colegas
professores de Pós-Graduação e
universitários, com os pós-graduandos
da área de educação e com educadores
em geral o resultado de uma experiência em sala
de aula que provocou rupturas, deslocou valores arraigados,
desconstruiu dogmas de muito anos de prática
universitária. Ela resulta de um trabalho "em
parceria", ultrapassa a relação dialógica
professor e aluno, realiza-se entre ensinantes e aprendentes,
melhor dizendo, "colaborantes" (termo que
criei para designar as relações de colaboração
entre sujeitos de saberes em busca da produção
de conhecimento, de um conhecimento novo, que supere
e acrescente ao que já existe. Para este relato,
apóio-me nos trabalhos de conclusão de
curso dos aprendentes, que relatam com cores vivas e
emoção a sua produtiva "viagem".
Aqui também se faz necessária uma mudança
epistemológica de postura na relação
professor / aluno, redimensionando os padrões
de ver "o outro".
A
experiência mais extrema, às vezes, a mais
cruel, mas provavelmente também a mais enriquecedora
que podemos ter da heterogeneidade, é a que nos
é imposta pelo encontro com o outro, enquanto
limite de nosso desejo, de nosso poder e de nossa ambição
de domínio (na primeira acepção
do termo). Uma das significações mais
profundas (e talvez intoleráveis) do plural é
o caráter inelutável desse reconhecimento
e aceitação do outro, alteração
fenomenal, concebida como jogo dinâmico e dialético
do outro, inserida numa duração, muito
mais ainda do que alteridade eidética (somente
"idéia" do outro), mas todas as duas
superando amplamente a simples noção de
diferença porque ambas levam em conta a heterogeneidade,
aqui constituída principalmente de desejos, interesses
e intencionalidade e, mesmo, de estratégias antagônicas
(Ardoino, In: MORIN, 2001: 548).
Esta experiência, vivenciada no curso Teorias
da Educação e Prática Pedagógicas:
correntes e tendências, ministrado pela autora
no Mestrado em Educação da Universidade
Católica de Santos, no primeiro semestre de 2002,
foi um processo de colaboração e transformação
envolvendo alunos e professora como "colaborantes".
Por isso, divido com todas as personagens este texto
e cito vários autores das sínteses finais
dos trabalhos do curso. Se nem todos são citados,
é pela exigüidade de espaço dentro
do texto deste artigo, mas, com certeza, todos colaboraram
para o sucesso da "viagem".O resultado vem
comprovar a idéia de que as teorias da educação
devem perpassar todo o espaço da Universidade
e todos os cursos, para levar os educadores à
compreensão epistemológica de que pesquisa
é o próprio ensino.
Educação
e Pesquisa: os Novos Paradigmas
Ardoino (In: MORIN, 2001, p. 556) menciona Freud que
afirma que a "educação é uma
tarefa impossível", devido à sua
complexidade e natureza contraditória. Ardoino
prefere dizer que a educação é
"um compromisso", em benefício da permanência
(tradução mais adequada para o significado
da palavra durée em francês, neste contexto,
do que "duração" como empregou
o tradutor da edição brasileira) e uma
"mestiçagem".
Por
um lado, ela visa ao desenvolvimento da pessoa humana,
à constituição do sujeito, sua
autorização (capacidade conquistada para
tornar-se co-autor de si mesmo), por outro lado, prossegue
nos objetivos que lhe são atribuídos devido
à sua função social: adaptação
ao que existe, iniciação e submissão
a regras, o que possibilita a entrada na sociedade.
E vai bem mais longe do que a simples instrução,
transmitindo valores (familiares, sociais, universais).
Ao saber e ao saber-fazer vem juntar-se o desenvolvimento,
possível em cada um, de um saber ser e estar,
que legitima, em função da apropriação
dos efeitos das trocas relacionais, a alteração
da infidelidade e, mesmo, da traição (Ardoino
In: MORIN, 2001, p. 556).
Marcondes (1994:14.) aborda a questão dos paradigmas
da ciência moderna e das revoluções
científicas. Ao propor, como fazemos agora, a
superação desse paradigma, é importante
conhecer o que ele significa para o conhecimento humano.Em
primeiro lugar, faz-se necessário conceituar
paradigma.
Do
ponto de vista filosófico, paradigma pode ser
entendido segundo uma acepção clássica,
como em Platão, e segundo uma acepção
contemporânea, a partir de Thomas Kuhn (1962)
(MARCONDES, 1994, p. 14).
Para Kuhn (1970, p.218 apud Marcondes,1994, p. 15),
um paradigma "indica toda a constelação
de crenças valores, técnicas, etc. partilhadas
pelos membros de uma comunidade determinada". Os
paradigmas são modelos, exemplos, que nos servem
de base para lidar com os problemas científicos
e do conhecimento. Kuhn traça uma relação
estreita entre ciência e paradigma, considerando
que este define, de certo modo, a própria ciência.
(...)
um paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade
científica partilham e, inversamente, uma comunidade
científica consiste em homens que partilham um
paradigma (KUHN, 1970, p.219 apud MARCONDES,1994, p.
15).
As crises de paradigmas, como a que vivemos neste momento,
caracterizam justamente os grandes momentos de mudança
na ciência, as revoluções científicas
que ocorrem tanto pelas transformações
da realidade na qual se insere a ciência como
pela evolução desta.. Em outras palavras,
só podemos, hoje, questionar o modo cartesiano
de compreender a realidade, dividindo para estudá-la,
porque durante vários séculos fizemos
ciência utilizando esse paradigma, o que enriqueceu
imensamente o cabedal de conhecimento da sociedade moderna.
Só podemos compreender que esse paradigma não
dá conta da complexidade, porque, primeiro, a
ciência o utilizou exaustivamente para produzir
conhecimento.
Um processo semelhante ocorreu nos séculos XVI
e XVII, quando surgiu o modelo de ciência que
se desenvolveu até a atualidade, baseado na racionalidade,
na observação controlada, na experimentação,
que se contrapunha aos dogmas, crenças religiosas
e verdades inabaláveis.
Um
dos períodos mais marcantes e significativos
de crise de paradigmas é a revolução
científica dos séculos XVI-XVII, que pode
ser considerada um dos principais fatores desencadeantes
do pensamento da Modernidade. A "nova ciência"
[termo empregado por Galileu] que nesse momento se constitui
pode ser ilustrada pelo modelo heliocêntrico de
sistema solar formulado por Nicolau Copérnico,
em seu De Revolutionibus Orbium Coelestium. Publicado
postumamente em 1543, opõe-se ao modelo geocêntrico
de cosmo da tradição aristotélica,
formulado por Cláudio Ptolomeu (100-178). A crise
provocada pelo confronto entre os dois modelos é
bem representada pela obra de Galileu intitulada Diálogo
sobre os Dois Grandes do Mundo, de 1632, em que ele
assume a defesa de Copérnico contra Ptolomeu
e toda a tradição anterior, obra esta
que o levará à condenação,
em 1633 (MARCONDES, 1994, p. 17).
A educação visa à formação
integral do indivíduo, para o desenvolvimento
da sua inteligência, criatividade, intuição
e consciência, capacitando-o para viver numa sociedade
pluralista em permanente processo de transformação,
o que inclui a responsabilidade social.. A educação
deve oferecer instrumentos e condições
que ajudem o aluno a aprender a aprender, a aprender
a pensar, a conviver e a amar, a formular hipóteses,
construir caminhos, tomar decisões, tanto no
plano individual quanto no plano coletivo (MORAES, 2000).
A educação chegou a um ponto de ruptura,
uma ruptura positiva, a gestação de um
novo paradigma, que integra a produção
do conhecimento, ao invés de fragmentá-lo,
que não separa a produção e a transmissão
do conhecimento. Essa mudança, epistemológica,
precisa estar no âmago da discussão sobre
a universidade e os demais níveis de ensino,
pois, como diz Morin (2001, p. 21), aprender a viver
significa preparar os espíritos para afrontar
as incertezas e os problemas da vida humana.
Com a palavra, nosso "colaborante", Antonio
Máximo:
Reconhecer
o homem na sua própria humanidade é a
finalidade do ensino. Dar ao homem a condição
de homem, situando-o no mundo junto a outros homens,
é tarefa da qual se incumbe a ciência dos
saberes, o que leva tudo a contribuir para a formação
de uma consciência humanista, voltada à
construção de um mundo melhor, mais perfeito
e mais justo ( Trabalho de conclusão de curso,
xerox).
A
Complexidade, a Fragmentação e a Religação
dos Saberes
Há muitas maneiras de pensar a "religação
dos saberes" (desde que se pressuponha que eles
estão fragmentados e que é necessário
reconstituir um todo que faça sentido). Lerbert
(In: MORIN, 200:528-529) propõe um caminho de
"religação" a partir do conceito
piagetiano de abstração, um conceito "dinâmico,
que põe em ação dois processos
cognitivos em interação, um processo de
interiorização, que consiste em interiorizar
dados do mundo material, se assim se pode dizer".
Esse processo é descentralizador e exige uma
"racionalidade aberta".
Não se pense a interdisciplinaridade como uma
superposição ou "ajuntamento"
de saberes de especialistas, que, encastelados em suas
áreas, dêem a sua visão limitada
e segmentada do todo.A questão fundamental da
produção interdisciplinar e transdisciplinar
do conhecimento é que cada um traga a sua contribuição
ao todo, integrado e integrador, que será algo
novo e jamais uma soma, um ajuntamento.
Morin (2001, p.489) aborda a questão da "humanização"
do ser humano, que se pela cultura e linguagem, sem
anular a identidade biológica, num processo que
se estendeu por milhões de anos. Isso levou a
uma "dupla identidade" humana: um ser que
pertence ao mundo natural e que dele difere. Esse estranhamento
está na origem da complexidade da realidade,
da qual hoje tomamos cada vez mais consciência
e de cuja compreensão a ciência moderna
ainda não deu conta. No entender de Morin e de
seus grupos de estudos, isso ocorre porque o nosso conhecimento
científico é fragmentário.
É preciso ressalvar, como faz Ardoino (In: MORIN,
2001, p. 548), que a complexidade não é
o contrário da simplicidade e nada tem a ver
com complicado. O pensamento complexo é uma nova
forma de perceber e entender a realidade.
Trata-se de uma tomada de posição epistemológica.
Joël de Rosnay faz de seu macroscópio uma
nova ótica, enquanto, para Edgar Morin, o postulado
do pensamento complexo corresponde essencialmente a
uma reforma, se não mesmo a uma revolução,
do procedimento de conhecimento que quer de agora em
diante manter juntas perspectivas tradicionalmente consideradas
como antagônicas (universalidade e singularidade)
(Ardoino In: MORIN, 200:548).
Por outro lado, é preciso levar em conta que
conhecer a realidade não é capturá-la,
que o conhecimento é um processo de construção
mental (MORIN, 2001, p. 490). O mundo pode ser visto
como algo simples, se observarmos seus princípios
de regulação e de organização,
tal como fez a ciência mecanicista dos séculos
XVIII e XIX, sobretudo. Mas, a partir do conhecimento
disponível, começa-se a perceber de uma
maneira nova, e é aí que se configura
a complexidade, o que existe na realidade e no mundo,
mas que precisa estar presente no olhar e no raciocínio
do pesquisador.
Ele [o mundo] se complexifica a partir do momento em
que uma inteligência da desordem se elabora para
refinar, enriquecer e tornar mais sutil o olhar que
se dirige aos fenômenos. Estes não são
mais então supostamente divisíveis, suscetíveis
de ser reduzidos a elementos mais simples, ao sabor
de uma análise-decomposição, mas
são, ao contrário, postulados como não
suscetíveis de ser decompostos, devido à
própria natureza do tecido que os constitui,
em função da inteligência que quer
apreendê-los. O conjunto interativo (sistema que
funciona como uma rede) deixará entrever, mais
profundamente, hierarquias entrelaçadas a partir
das quais serão representados efeitos contrariantes,
até mesmo antagônicos, que, entretanto,
não proíbem a manutenção
da coerência do discurso científico (Ardoino
In: MORIN, 2001, p. 551).
Morin propõe jornadas temáticas para enfrentar
dois problemas que considera centrais: a globalidade
do conhecimento e sua fragmentação, que
fazem parte da prática da ciência na maior
parte dos centros de pesquisa, universitários
ou independentes. "O mais difícil é
mudar mentalidades" (MORIN, 2001:3), o que pode
ser sentido e percebido por todos, docentes e discentes,
que tentam fazê-lo.
Não se trata de desmerecer ou parar de produzir
conhecimento sobre questões específicas
ou limitadas. Isso tem sua função, e Morin
costuma insistir sobre o fato de que só podemos
contestar a visão cartesiana porque a utilizamos
fartamente, e, fazendo-o, podemos superá-la.
Trata-se de integrar os conhecimentos existentes e os
que estão sendo produzidos, de maneira a formar
uma nova visão integradora.
O desafio da globalidade é a inadequação
cada vez mais ampla, profunda e grave entre um saber
fragmentado em elementos desconjuntados e compartimentados
nas disciplinas, de um lado e, de outro, entre realidades
transnacionais, planetárias e os problemas cada
vez mais transversais, polidisciplinares e até
mesmo transdisciplinares.
A não-pertinência de nosso modo de conhecimento,
de ensino, que nos leva a separar (objetos de seu meio,
disciplinas uma das outras) e não reunir aquilo
que, entretanto, faz parte de um mesmo tecido (MORIN
In: MORIN, 2001, p.14)
Um dos caminhos para a "religação
dos saberes" é a abordagem sistêmica,
que "permite organizar os conhecimentos de maneira
diferente e compreender não mais somente pela
análise, mas também pela síntese"
(ROSNAY In: MORIN, 2001, p. 493). O autor ressalva que
a abordagem analítica e a abordagem sistêmica
não são mutuamente excludentes e sim complementares.
A abordagem analítica reduz os saberes a um certo
número de disciplinas desconexas, isoladas umas
das outras - é uma abordagem de natureza enciclopédica
-, enquanto a abordagem sistêmica concentra-se
sobre a interação entre os parâmetros,
entre os fenômenos. Ela considera suas dinâmicas
de evolução e suas relações
no tempo. Existe, pois, uma complementaridade entre
as duas: a abordagem analítica permite extrair
os fatos da natureza, a abordagem sistêmica favorece
sua inclusão num quadro de referências
mais amplo, o que permite o exercício da razão,
da lógica " (ROSNAY In: MORIN, 2001, p.
494).
Os sistemas são dinâmicos, mudam, especialmente
os sistemas complexos, que podem apresentar acelerações
intensas e períodos de estabilização.
Eles tampouco estão isolados, interagem, anulando-se
mutuamente, inibindo-se , ou, ao contrário, realizando
trocas.
A
evolução de um sistema no tempo não
é uma sucessão de transições
entre elementos estáticos, mas sim ataques de
níveis sucessivos de complexidade ou, ao contrário,
de desorganização. (...) Na sistêmica
moderna, age-se sobre diversos parâmetros ao mesmo
tempo. A ação é combinatória.
(...) Nosso ensino deve oferecer quadros de referência
analítica, mas também desembocar numa
relação com a ação, fundamental
em sistêmica (ROSNAY In: MORIN, 2001, p. 495-496).
E, nesse ponto, chegamos à questão do
ensino, pois ensinar para agir é diferente de
ensinar um conteúdo. Indo mais longe, é
preciso não apenas ensinar a agir, mas também
a compreender os resultados dessa ação,
o que representa um dos objetivos da educação.
A relação permanente entre o sujeito de
saber, o sujeito de ação e o sujeito de
reflexão resulta no surgimento de uma nova teoria.
A relação entre teoria e prática,
ou, como diz Ladrière (In: MORIN, 2001, p. 501)
"entre razão teórica e razão
prática", não pode mais ser identificada
com a visão kantiana que identifica a ordem prática
à ordem moral, pois, embora a ação
possa ter uma significação moral, não
pode ser identificada como tal.
A racionalidade relaciona-se à "direcionalidade"
no
sentido da constituição de uma rede cada
vez mais densa de sistemas interconectados, de complexidade
cada vez maior e cujo funcionamento é cada vez
mais autônomo. Claro, essa grande complexidade
resulta de uma profusão de decisões tomadas
muito conscientemente por indivíduos ou grupo
organizados, mas a resultante global de todas essas
empreitadas parciais, o grande movimento que elas determinam,
escapa às vontades particulares e apresenta-se
como um fenômeno de auto-constituição,
que obedece a um aparente determinismo interno, parcialmente
limitado pela invenção de fatores aleatórios,
mas mesmo assim perfeitamente controlado intrinsecamente,
no que diz respeito ao essencial, por uma estrutura
monológica que lhe dá sua direcionalidade
(LADRIÈRE In: MORIN, 2001, p. 504-505).
A relação ensino -aprendizagem tem que
ser repensada a partir da pesquisa científica.
Este é o novo paradigma, que nos conduz ao pensamento
complexo. Como diz Ardoino (In: MORIN, 2001:557), "a
complexidade é concebida como uma reforma profunda
do pensamento, uma tomada de posição epistemológica
que, em si mesma, é desígnio e método
educativos". A questão do ensinar e do aprender
não se resume mais a aprender e ensinar o passado,
mas inclui descobrir o futuro, o qual está em
construção.
Anos e anos de vivência no ensino superior, de
graduação e pós-graduação,
levam-me a crer que a pesquisa é o próprio
ensino. O aluno aprende melhor, quando pesquisa. E,
quanto antes começar, mais incentivo terá
para envolver-se com seu estudo e formação
universitária. Nesse sentido são de suma
importância e devem ser ampliados os programas
de iniciação científica (Pibic).
Como diz Lecourt (In: MORIN, 2001, p. 527), "o
ensino tem um tipo próprio de pensamento e de
valores próprios". Dentre esses valores,
o mais "característico" é justamente
"o da inovação, ruptura assumida".
Não se trata de desorganizar a estrutura do ensino
e da ciência, mas dinamizá-la.
(...)
que esses valores sejam trazidos por normas revele-se
sempre mobilizadora, incitadora, e que seu sistema esteja
sempre aberto em direção ao futuro, antecipando
incessantemente novos modos de uso (Lecourt In: MORIN,
2001, p. 527). (conferir citação)
O professor ensina melhor, quando pesquisa, quando gera
um conhecimento de primeira mão. Para fazê-lo,
deverá conhecer a produção científica
recente da área ou tema que está estudando.
Posteriormente, fazer uma reflexão crítica,
analítica e profunda sobre os dados obtidos e,
a partir deles, produzir sua contribuição.
Esse processo permite-lhe: atualizar-se permanentemente,
desenvolver sua capacidade como produtor de conhecimento
e envolver permanentemente seus alunos no processo.
Por isso, é plenamente justificada a exigência
de Mestres e Doutores na Universidade, pois é
preciso ser pesquisador para ensinar pesquisando.
Aqui reside um perigo: algumas instituições
acreditam que a conquista de um título é
um "ponto de chegada", quando ela é
o ponto de partida para a solidificação
de uma carreira de pesquisador, liderando equipes formadas
por pesquisadores em formação (mestrandos,
mestres e doutorandos) e por alunos.. O professor pesquisador
deve saber instigar o sujeito de saberes, o aluno, a
buscar seu próprio conhecimento.
Há autores que defendem a pesquisa em todos os
níveis de ensino, mas ela é especialmente
importante na universidade, que é onde se pode
realizar plenamente, porque o aluno já traz (ou
pelo menos espera-se que traga) uma base de conhecimentos
que lhe permite buscar por si mesmo, ou seja, pesquisar.
Nas fases anteriores do ensino, a prática da
pesquisa tem o mérito de criar na criança
e no jovem uma atitude de busca ativa do saber e não
de recepção passiva da informação,
preparando para atuar, quando atingir o nível
universitário. Morin (2001:491-492) atribui à
universidade o papel de levantar as questões
epistemológicas sobre o conhecimento.
O Trem do Conhecimento
O "trem do conhecimento", na busca do conhecer
e transformar (discurso metafórico), ousa enfrentar
os descaminhos, cruzar túneis. Tal metáfora
não é mero recurso de linguagem, mas diz
mais que qualquer definição. O trem busca,
vara a escuridão, detém-se para receber
e deixar passageiros e coisas, não é apenas
um vagão, mas uma composição de
vagões maiores e menores, diferenciados, porém,
interligados, janelas abertas para fruir, descobrir
e observar a paisagem, atento nos túneis e curvas,
ousado nas retas, levando pessoas das mais variadas
condições físicas, sociais e psicológicas,
com uma direcionalidade, uma meta a atingir, modernizando-se
da lenha e vapor para o elétrico, para o trem-bala,
programado automaticamente; enfrenta a nevasca, os deslizamentos
de terra, as pontes perigosas, enquanto os passageiros
riem, conversam, comem e bebem, temem e rezam...O importante
é que todos cheguem ao destino, não apenas
o primeiro vagão, o vagão de primeira
classe, mas todos, porque o trem não é
um vagão, mas uma composição, uma
procissão de ferro e luzes, engatada à
máquina que os puxa a todos.
Pesquisa
só se aprende fazendo. As características
do ato de pesquisar constroem-se socialmente, num verdadeiro
processo de socialização, até de
formação artesanal. Essa construção
demanda interlocução dos menos experientes
com os mais experientes (GATTI, 2002, p. 65).
Essa relação de troca produtiva e criativa
entre os mais experientes e os que estão vindo
foi a proposta do curso Teorias da Educação
e Prática Pedagógicas: correntes e tendências.
Era importante que a interdisciplinaridade nascesse
da formação e experiência de cada
participante, mas tendo como foco a educação,
área de concentração deste mestrado.
Este é um dado de extrema relevância, pois
a pesquisa em educação, no Brasil, precisa,
urgentemente, crescer, produzir e renovar-se.
Os
fatores aos quais mais se atribui, no geral, a insuficiente
participação das instituições
de ensino superior nos projetos de desenvolvimento ou
inovações do sistema educacional, bem
como a pouca utilização das pesquisas
educacionais, são: desvinculação
das universidades brasileiras com os níveis básicos
de ensino; distanciamento das universidade em relação
aos problemas práticos; visão idealizada
e teórica da universidade sobre o ensino; falta
de maior procura por parte dos órgãos
governamentais em relação à universidade;
o caráter teórico das pesquisas; a inexistência
quase total de trabalhos conjuntos; a falta de comunicação
dos resultados das pesquisas; as dificuldades dos administradores
de ensino em fazer a passagem da teoria para a prática;
a rigidez do sistema educacional na absorção
de propostas inovadoras; a pouca importância atribuída
à pesquisa em alguns segmentos governamentais
(GATTI, 2002: 33).
Lecourt (In: MORIN, 2001, p. 526) alerta que a ciência
e a teoria devem nascer de um processo de "polêmica
ininterrupta e dolorosa", e não algo pronto,
recebido das instituições. Este é
o grande equívoco, o grande risco que corremos,
se quisermos "ensinar ciência" em vez
de "produzir conhecimento científico".
Ou seja, reside aí, na tentativa de "transmitir
a ciência", uma negação do
próprio pensamento científico.
Ora,
justamente o pensamento científico, por essência,
não é um pensamento de adesão ou,
se preferirmos dizer, um pensamento "adesivo";
ele é muito mais um pensamento que "desdobra"
(Bachelard), um pensamento que não pára
de julgar-se a si mesmo para melhor progredir por meio
de retificações progressivas (Lecourt
(In: MORIN, 2001:526).
O nosso "trem do conhecimento" surgiu na busca
de conhecer e transformar (discurso metafórico),
que ousa enfrentar os descaminhos, cruzar túneis,
ultrapassar barreiras, em busca do novo, que traz medo
porque desconhecido, mas também traz alegria
porque é pleno de possibilidades.
Os alunos que vieram para o "trem do conhecimento"
traziam a lógica de suas áreas de conhecimento,
campos demarcados em suas disciplinas, cheios de certezas
quanto às práticas pedagógicas
repetidas milhares de vezes em anos e anos de magistério,
inúmeras salas de aula, centenas de alunos (não
de "aprendentes"), avaliação
coercitiva, visão fragmentada, separação
entre o vivido e o estudado. Traziam um conhecimento
referendado, aceito, sem interrogações,
sem inquietações, que fora construído
segundo o paradigma cartesiano de ciência.
No entanto, eles aceitaram o desafio da viagem para
o conhecimento, sem expectativas pré-formuladas,
a não ser uma vaga inquietude com relação
à pesquisa individual que deveriam realizar para
seu mestrado.
Alguns vieram de Comunicação Social (Jornalismo),
outros, de Letras, outras, de Filosofia, outros tantos
de Matemática, Física, Química,
Ciências Biológicas (odontologistas clínicos,
enfermeiros, fisioterapeutas), entre eles, nossa psicóloga
e mediadora, pedagogos e geógrafos. Uma turma
atípica para um curso de Teorias da Educação
e Práticas Pedagógicas. Assim, nossa equipe
interdisciplinar já estava formada pela própria
configuração da classe.
Eles traziam uma coisa em comum: eram sujeitos de saberes
consolidados em suas áreas (ou "claustros
disciplinares") e muitos não estavam abertos
à possibilidade do novo, da mudança. Havia
até aqueles que vinham dispostos a resistir a
qualquer atitude ou prática inovadora (tinham
todas as certezas do "dividir para compreender"
cartesiano), diziam que as novas teorias não
"se encaixavam no cotidiano de suas salas de aula,
etc.". Outros diziam-se "perdidos", o
que, na realidade, significa que já estavam um
passo adiante, tendo rompido com suas certezas, mas
sem saber onde buscar novos caminhos.
Palavras como "matéria", disciplina,
"minha escola", "meu curso de ...",
"minha diretoria" demarcavam bem o território
em que se encontravam e legitimavam o próprio
conhecimento, mas também apontavam caminhos.
O respeito aos seus saberes individuais permitiu nova
compreensão durante esta viagem única.
Digo
que me senti, inicialmente, um passageiro sem destino,
e isso me angustiava (Robnaldo, 2002, Trabalho de conclusão
de curso, xerox).
A mestra, como o condutor de trem, sentiu que precisava
ousar, uma ousadia de busca, uma busca que é
sempre pergunta, sempre pesquisa ( Fazenda). No entender
de Fazenda (1979), a interdisciplinaridade pressupõe
intersubjetividade. Ela não pretende a construção
de uma superciência (ou supraciência), mas
de uma mudança de atitude diante do problema
do conhecimento, na substituição da concepção
fragmentária para a unitária do ser humano.
A menção a Fazenda tem uma razão
especial. Foi com ela que descobri a interdisciplinaridade,
essa prática de respeito a pares e alunos (ou
aprendentes) e desapego a verdades pré-concebidas,
sempre mantendo, contudo, o rigor metodológico
necessário à pesquisa, a fim de superar
as barreiras e derrubar a resistência consolidada
nas mentes dos sujeitos de saberes com quem interajo.
"Talvez por ser um caminho novo, a interdisciplinaridade
está mais caracterizada como método de
ação que de reflexão" (LUCCHESI,
2002, p. 34). Entretanto, ela nos leva, dialeticamente,
a refletir sobre o vivido, retomar outras experiências,
em busca de uma nova ação transformadora
em sala de aula.
Le Moigne (In: MORIN, 2001, p. 540) propõe uma
pergunta que todo professor deveria se fazer permanentemente:
"Que saberes estamos produzindo por meio de nossa
ação?"
Inovação
e Educação
Foi preciso que nosso "trem" partisse de um
lugar seguro para que as resistências e temores
não solapassem de pronto a viagem. Segundo Silva
(2000), a Educação praticada nas nossas
escolas tem muito da educação tradicional,
embora se apregoem os valores da Escola Nova e Progressista.
A educação é um processo muito
mais abrangente do que se costuma pensar.
A educação é um processo de humanização,
de inserção do homem na sociedade, historicamente
construída e em construção. Sociedade
que é rica em avanços civilizatórios
e problemas de desigualdade social, econômica
e cultural. De valores. De finalidades. A tarefa da
educação é inserir as crianças
e os jovens tanto no avanço civilizatório,
para que dele usufruam, como na problemática
do mundo de hoje, por intermédio da reflexão,
do conhecimento, da análise, da compreensão,
da contextualização, do desenvolvimento
de habilidades e atitudes. Garantir que se apropriem
do instrumental científico, técnico, tecnológico,
de pensamento, político, social e econômico
e cultural, para que sejam capazes de pensar e gestar
soluções. Apropriar-se dessa riqueza da
civilização e dos problemas que essa mesma
civilização produziu. (PIMENTA; ANASTASIOU,
1997, v.1, p. 97).
Nossos "colaborantes" já se mostravam
capazes de exercer a crítica da prática
da escola tradicional.
A nossa escola tradicional tinha como modelo uma relação
professor - aluno, na qual o papel do professor como
mediador estabelecia o contato entre o aluno e a realidade
social. O professor era o guia que punha o aluno em
contato com as grandes obras, introduzindo-o progressivamente
nas "coisas do mundo". O professor tinha uma
tarefa bem definida: delinear o caminho do conhecimento.
(Máximo, 2002,Trabalho de conclusão do
curso, xerox, p.2).
Embora os valores ainda sejam válidos para nossas
escolas e muitos tenham sido educados nesses valores,
era o momento de demonstrar que uma nova visão
de mundo está emergindo e com ela novas possibilidades
de práticas pedagógicas. "Há
uma crise axiológica" instaurada no contexto
da pedagogia brasileira (Silva, 2000).
Segundo Castells (1999a e 1999b), a globalização
atual leva ou pode levar à padronização
dos hábitos e costumes da humanidade, numa relação
assimétrica, injusta e tendenciosa, que impõe
padrões e interesses de algumas nações
mais poderosas sobre as demais, destituídas de
poder de barganha.
Nesse cenário, senti que o "trem do conhecimento"
entrara em outro ramal, apropriando-se da síntese
dos educadores:
Logo nas primeiras aulas, tinha a sensação
de que estava 'entrincheirada' nas minhas convicções,
no sopé da montanha, sofrendo e respirando o
ar da crise dos paradigmas, sem uma visão ampla
e real dos acontecimentos. A primeira sacudida deram-me
as idéias de Castells. Amante das novas tecnologias
e ao mesmo tempo idealista quanto ao seu uso, fingia
não enxergar o lado sombrio da sociedade do capitalismo
informacional emergente. Compreendia o quanto ele aliena
e serve para reforçar uma visão conservadora,
individualista e controladora. Castells (1999) aponta
as contradições do capitalismo, a crise
da democracia política, as manobras estratégicas
do mercado, o fundamentalismo religioso, o crescimento
de uma 'conexão perversa' gerada pela exclusão
social, que colocam em risco a paz mundial e o futuro
da humanidade. Essa aula foi o estopim de grandes mudanças
internas. O lugar onde me encontrava tornou-se pequeno
e incômodo. Ao invés de lamentar a realidade,
resolvi, como Castells,(1999), subir a montanha (metaforicamente)
para avistar soluções e tentar redirecionar
os rumos de nossas vidas.
'Não há mal eterno na natureza humana.
Não existe nada que não possa ser mudado
por ação social consciente e intencional,
munida de informação e apoiada em legitimidade
(Ana Maria, 2002, Trabalho de conclusão de curso,
xerox).
Castells afirma que, na nova economia, as tradicionais
comunidades da classe trabalhadora praticamente desapareceram,
dando lugar a duas outras categorias. A do trabalho
não especializado, "genérico",
que não precisa ter acesso à informação
e ao conhecimento, não traz a valorização
do trabalhador, que deve apenas executar ordens e é
facilmente substituível. A segunda categoria
é a do "'trabalhador com formação',
que tem a capacidade de chegar a um nível mais
alto de educação, de processar informações
e de criar conhecimentos" (apud Capra, 2002, p.
154).
Para Capra (2002, p. 155), a " exclusão
social é conseqüência direta da estrutura
em rede da nova economia". Essa exclusão
se dá pela falta de acesso à informação,
às novas tecnologias e à educação
formadora de indivíduos capazes de lidar com
a inovação e a informação.
Estava posto o desafio: compreender o papel dos educadores
na nova sociedade e fazê-los compreender que a
educação assume papel central na agenda
deste milênio. Só os trabalhadores com
capacidade de adequar seus conhecimentos ao ritmo acelerado
das mudanças sociais estarão incluídos
e valorizados. Aos demais, aos "genéricos",
caberá a informalidade ou marginalidade. É
a lógica perversa na qual "o capitalismo
global faz aumentar a pobreza e a desigualdade social
não só através das relações
entre o capital e o trabalho, mas também da "exclusão
social", nesse mundo digital, onde vale a informação,
um mundo sobre o qual, como diz Castells (1999, p. 17),
"admirável ou não, trata-se de um
mundo novo".
Para Morin (1982), a ordem estabelecida passa por um
processo de desintegração. A partir da
(des)ordem, efetiva-se o processo de transformação
e organiza-se o sistema. Aceitar e trabalhar o binômio
ordem / desordem é transcender a idéia
de permanência, imutabilidade e constância.
Demonstrar a "ruptura dos paradigmas até
então vigentes" foi tarefa dos matemáticos,
físicos, químicos, etc. que faziam parte
da sala. Apropriamo-nos dos seus campos disciplinares,
para agir interdisciplinarmente. O "comboio"
entrara em caminhos tortuosos, deixava a planície
e rumava para as amplas, mas escarpadas trilhas que
podiam nos levar ao cume ou fazer retroceder. Dráusio
fala da física de Galileu e de Newton, da lógica
de Descartes, da física quântica, da teoria
da relatividade de Einstein, mostrando que diferentes
paradigmas podem coexistir, como vem acontecendo na
física. Serafim demonstra a ruptura provocada
pela física quântica. João demonstra
o princípio da incerteza de Heismberg. Carmen
(Prigogine) explica-nos o princípio da entropia
e como a desordem provocou a energia. E declara, num
momento de grande tensão: "Estas teorias
causam entropia em nossas mentes". Seu colega complementa:
As antigas dúvidas esclarecidas acabaram formulando
novos questionamentos ainda sem resposta, ocasionando
uma 'entropia mental', base para o rompimento de muitos
paradigmas que ainda se colocarão na frente dos
educadores comprometidos cada vez mais com a interpretação
e reformulação dos contextos sociais,
locais, regionais e planetários" (Ênio,
2002, Trabalho de conclusão do curso, xerox).
O "desconforto" aponta a mudança, o
crescimento intelectual. Morin (1982) afirma que enfrentar
qualquer processo de mudança implica assumir
a tarefa pouco confortável de (re)ver-se, (re)dimensionar
e (re)fazer um universo até então considerado
organizado. Havia, no entanto, de minha parte, uma intencionalidade
metodológica, ao apresentar o rompimento dos
paradigmas nas outras ciências para adentrar suavemente
o "Paradigma Educacional Emergente" (Moraes,
1997). O desequilíbrio que esse processo gerou
nos alunos revela que minha intenção atingia
seu objetivo, operando intersubjetivamente e que a ruptura
em direção ao novo estava em processo.
Eles compreendiam que a ruptura de um paradigma, como
demonstram Kuhn (apud MARCONDES, 1994) e Morin , é
gestada, quando os modelos de um campo teórico
já não são capazes de solucionar
os problemas daquela área do conhecimento. Isso
vem acontecendo hoje em todas as ciências e, mais
especificamente, na Ciência da Educação.
Faz-se necessário que os educadores, interdisciplinarmente,
busquem novos debates, novas idéias, novas buscas,
(re)construindo práticas e fundamentos para novas
teorias. Foi com essa atitude interdisciplinar de busca
que se iniciou no "trem" um processo de mudança
nas postura dos educadores, novos conceitos foram sendo
elaborados e aceitos. Estávamos no ponto de confluência,
na transição de um modelo de práticas
superadas para outro, em gestação, cuja
trilha cabia a nós traçar.
A riqueza das discussões deveu-se à multiplicidade
de formação dos alunos, cada um contribuindo
com o cabedal de conhecimentos de sua área, o
que mais uma vez trouxe a certeza de que Edgar Morin
está correto, ao defender a interdisciplinaridade
e a transdisciplinaridade (Elita, 2002, Trabalho de
conclusão de curso, xerox).
Fazenda afirma que a interdisciplinaridade pode facilitar
a superação da dicotomia entre pesquisa
teórica e pesquisa prática, pois, nas
atividades interdisciplinares, não será
possível separar o conhecimento teórico
do conhecimento prático, tendo em vista a reciprocidade
e a interdependência entre ambos. Essas dimensões
incluem o diálogo com a realidade e integram
o mesmo processo. Superam também a dicotomia
ensino - pesquisa, permitindo a passagem do saber setorizado
para o saber integrado.
Tanto
a inter quanto a transdisciplinaridade, em termos educacionais,
têm uma grande importância metodológica,
exigem uma nova pedagogia, que requer um processo de
comunicação, leva as disciplinas a sua
real efetivação" (FAZENDA apud MORAES,
1997: 182).
O nosso "trem" havia rompido a barreira, o
paradigma da fragmentação cartesiana e
suas conseqüências nas práticas pedagógicas
de cada um. Estas vinham sendo superadas por novos valores
que eram explicitados e assumidos nos trabalhos em grupo,
nas trocas em sala, no "currículo oculto"(Apple,1982),
que se tornara mais forte que o currículo manifesto.
Os educadores estavam compreendendo a proposta de uma
educadora para a "era das relações"
(MORAES, 1997, p. 209), que tem sérias implicações
nos sistemas econômicos, políticos, tecnológicos
e sociais, e para a própria evolução
da ciência, ao compreender a relação
íntima entre instrumentos e teorias. A passagem
da Era Material para a Era Relacional demonstra que
o poder atual está na teia de relações,
representado pelo conjunto de informações
e conhecimentos disponíveis, está na preponderância
dos poderes da mente sobre a força bruta, o que,
em última instância, significa que o poder
está sendo transferido para o ser humano, o indivíduo.
compreendido como um ser de relações,
como tudo que existe na natureza.
Em anotações feitas em aula, ficou claro
que a identificação de novos cenários
nos leva a compreender que somos cidadão do mundo
e que temos o direito de estar preparados para nos apossarmos
dos instrumentos de nossa realidade cultural para participar
do mundo, o que significa estarmos preparados para elaborar
as informações nele produzidas que afetam
diretamente nossas vidas (Eloah, 2002, Unisantos, Trabalho
de conclusão de curso, xerox).
Nessa
nova configuração de mundo, onde as verdades
e paradigma já não respondem às
necessidades da ciência, da cultura e da sociedade,
surgem novas necessidades. As teorias tradicionais perderam
seu valor explicativo, a crise se instaurou e não
é apenas científica, mas também
metodológica (Sílvia, 2002, Unisantos,
Trabalho de conclusão do curso, xerox).
"A
virada do milênio é razão oportuna
para um balanço sobre teorias e práticas
da educação que atravessam os tempos...marcando
o passado, caracterizando o presente e abrindo possibilidades
para o futuro"(Regina,2002, Trabalho de conclusão
do curso, xerox)
Aonde
Chegamos com Nosso "Trem"?
Nesse momento, o "trem" atingiu a planície.
Tínhamos superado a desordem (entropia), entrado
em estado de equilíbrio, uma "nova ordem"
se instalara e uma permanente busca do novo permeava
o espaço de nossa sala de aula. Havia no ar uma
nova busca de sentido para a educação,
bem como para os trabalhos conjuntos, os seminários,
a pesquisa e rastreamento bibliográfico, a revisão
de literatura ou estado da arte (que consiste no levantamento
de toda a produção recente sobre determinado
tema ou objeto de estudo científico). Como sujeitos
do saber, agora com a nova percepção de
mundo, buscavam só e coletivamente o sentido
e o significado para novas práticas, como também
para suas pesquisas. Era a afirmação da
prática interdisciplinar, de uma "professoralidade"(Fazenda)
interdisciplinar que se baseia no respeito ao outro,
enquanto sujeito de saber, quando o instiga a mudar,
a emergir, a compreender o sentido e a responsabilidade
de ser educador, que me faz lembrar Fazenda:
O
respeito à plenitude do ato de educar é,
em si mesmo, um convite a uma pitada de ousadia, ao
experienciar, nem que seja em momentos reduzidos, a
alegria (grifo da autora) - força de uma educação
interdisciplinar (FAZENDA, 1999:10).
Aluno
do Programa de Mestrado em Comunicação,
sinto-me privilegiado em ter participado de reflexões
e análises tão importantes para o meu
amadurecimento acadêmico. Vou além. Com
certeza não sou o mesmo homem, centrado em meu
tempo, remoendo os mesmos valores que até então
eram imutáveis pela falta de conhecimento e possibilidades
... A certeza absoluta, que até então
limitava as práticas, agora perde sua razão.
Negociação é a palavra-chave. A
sala de aula é um desses espaços de circulação
de conflito. É preciso haver um processo de negociação
de sentidos. Nesse novo universo é que acontece
a relação educador-educando. O currículo
passa a ser um processo de negociação
entre professores, alunos e realidade. Incerteza, planejamento
e diálogo fazem parte do novo cenário.
Humildade também não seria uma palavra-chave
nesse processo? (Robnaldo, 2002, Unisantos, Trabalho
de conclusão do curso, xerox).
Humildade é um dos princípios da interdisciplinaridade,
define-se como o reconhecimento de nossos próprios
limites e possibilidades, exige cautela e espera, abriga
uma atitude crítica que reconhece o "não
saber", mas nos impulsiona na busca do saber compreender
que o (des)velamento de novos saberes supõe reações,
resistências e contrapoderes. É uma atitude
sábia do pesquisador interdisciplinar.
Talvez
estejamos começando a nos tornar sábios,
já que estamos atingindo a consciência
de nossa própria ignorância e limitação.
Só se pode saber que não se sabe nada,
quando já se sabe o bastante para entender que
há muitíssimo mais a saber (LUCCHESI,
1999, p. 31).
Foi através do princípio da humildade
que meus parceiros de viagem compreenderam que há
urgência em construir processos educativos que
disseminem formas solidárias, igualitárias
e plurais de convivência entre os homens. Ousar,
buscar, gestar, produzir novos saberes através
da pesquisa, com seus erros e acertos (pois são
parte de nossa busca e de nossa humanidade), talvez
nos possibilitem alcançar novos valores em educação.
E todos sabemos o quanto eles são urgentemente
necessários.
Mais do que enfocar as diferentes tendências pedagógicas,
as novas teorias foram importantes para orientar a produção
do conhecimento e conseqüentemente balizar as nossas
pesquisas em Educação (Maria Cristina,
2002, Unisantos, Trabalho de conclusão do curso,
xerox).
Vieram os seminários, e os colegas, assim como
eu, especialistas das mais variadas áreas do
conhecimento, trabalharam alguns temas que continuam
indo ao encontro de alternativas educacionais colocadas
em prática para funcionarem como "instrumentos
e ferramentas" que tornem mais fácil a inclusão
social, ensinantes comprometidos com a prática
da cidadania.
- a concepção dialética de educação
(Moacir Gadotti)
- a contribuição de Paulo Freire
- a escola nova
Tenho a certeza de que as sementes plantadas a partir
do mês de março irão com certeza
florescer e gerar muitos frutos (Ênio, Trabalho
de conclusão de curso)
Gadotti
se inspira na dialética de Marx, porque este
não parte, como fizeram os filósofos idealistas,
de um esquema conceitual, teoricamente construído,
procurando identificar a essência. Também
não toma como ponto de partida os fenômenos
isolados em si como faziam os empiristas. Na dialética
estão incluídos os princípios da
totalidade, do movimento, da contradição.
A pedagogia é do conflito. Na mesma linha raciocina
Lucchesi, ao colocar a Universidade como centro de poder
e lugar de luta. 'A negação dos conflitos
não contribui para superá-los'" (LUCCHESI,
apud Maria Cristina, 2002, Unisantos, Trabalho de conclusão
de curso).
Foi uma longa viagem (curta em sua temporalidade de
15 encontros). Se perplexidades houve, elas não
impediram que nosso percurso fosse considerado pelos
viajantes como uma atitude normal entre pesquisadores.
Se houve reações e momentos de dificuldade
em encontrar o ponto de equilíbrio, não
houve desmotivação. A cada encontro, todos
estavam presentes. Metaforicamente falando, ninguém
queria descer do "trem do conhecimento". Todos
queriam chegar ao destino, com atitudes de transformação
e superação.
Diante
da era da informação, só o professor
não foi informado, não é? Parece
existir um desconhecimento total sobre o que antecede
a "tela viva" ... (Neuza, 2002, Unisantos,
Trabalho de conclusão de curso, xerox).
Nessa "tela viva" passaram os valores, o chão
seguro, o cenário, a nova era, os paradigmas
e sua ruptura, o paradigma emergente, novas visões
de homem, de mundo e de sociedade. A dialética,
a escola nova, o grande e insubstituível mestre
Paulo Freire. Chegamos à Religação
dos saberes de Morin. O primeiro grande momento de ruptura
foi com Castells,o segundo foi o contato com Moraes
e o gran finale com Morin.
Meus parceiros de jornada afirmam ter agora o aporte
teórico para a construção de um
pensamento próprio na elaboração
de suas respectivas dissertações, cada
um terá que buscar suas próprias respostas,
naquilo que define a missão de qualquer universidade
que mereça ser assim designada: a produção
do conhecimento.
A "viagem" deixou-lhes infinitas possibilidades
e a liberdade para transgredir seus limites daquilo
que já faz para "aquilo que ainda não
é", mas também deixou-lhes a mais
importante das lições, a idéia
de "solidariedade entre os pares", no caso,
os ensinantes e os aprendentes ou "colaborantes".
A
conquista da solidariedade, da amorização
ocorrerá progressivamente e aos poucos, permitindo
a irradiação de uma energia de contato
entre os homens sequiosos de amizade (Dráusio,
2002, Unisantos,Trabalho de conclusão do curso,
xerox).
Nem sempre a "viagem" foi fácil. Mas
nenhum rito de passagem o é, porque toda transformação
implica coragem para enfrentar o novo e dor de separar-se
do já conhecido, mas traz em si a alegria e a
riqueza da descoberta e do crescimento pessoal e daqueles
que nos cercam.
Utilizando a metáfora do trem, digo que me senti
inicialmente um passageiro sem destino, e isso me angustiava.
Com o tempo aprendi que o importante não era
o destino, mas, sim, o percurso. Vou além, em
cada estação descobri, observei, experimentei.
Hoje tenho convicção de que o destino
é o principal objetivo dos acomodados, que só
esperam a hora da chegada. O que vale realmente são
as descobertas nas estações, pois a chegada,
muitas vezes, significa o fim.
Nessa reflexão, lembrei da canção
"Encontros e Despedidas", de Milton Nascimento:
"O trem que chega é o mesmo trem da partida...
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos...
Todos os dias é um vai -e- vem, a vida se repete
na estação... A plataforma dessa estação
é a vida desse meu lugar... (Robnaldo, 2002,
Unisantos, Trabalho de conclusão do curso, xerox).
Assim, nosso "trem do conhecimento" chegou
a uma parada. Não é o ponto final, certamente,
é a primeira parada de um caminhar infinito,
que não se acaba nem mesmo com a vida de cada
um, pois o conhecimento pertence à humanidade
e, enquanto existir a espécie humana, o "trem
do conhecimento" seguirá seu curso, abrindo
novas estradas, reaproveitando e reinterpretando as
antigas, enfim, levando o ser humano a concretizar sua
humanidade.
[1] A interdisciplinaridade tem uma ambição
diferente daquela da pluridisciplinaridade. Ela diz
respeito à transferência de métodos
de uma disciplina para outra. Pode-se distinguir três
graus de interdisciplinaridade:
-a)
um grau de aplicação. Por exemplo, os
métodos da física nuclear transferidos
para a medicina conduzem ao aparecimento de novos tratamentos
do câncer;
-
b) um grau epistemológico. Por exemplo, a transferência
dos métodos da lógica formal para o campo
do direito gera análises interessantes na epistemologia
do direito;
-
c) um grau de engendramento de novas disciplinas. Por
exemplo, a transferência dos métodos da
matemática para o campo da física engendrou
a física matemática, a física das
partículas e a astrofísica; a cosmologia
quântica, a matemática dos fenômenos
meteorológicos e os da bolsa; a teoria do caos;
a informática na arte, a arte informática.
Como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade
ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade continua
inscrita na pesquisa disciplinar. Por seu terceiro grau,
a interdisciplinaridade até contribui para o
big-bang disciplinar.
A
transdisciplinaridade diz respeito, como o prefixo "trans"
indica, ao que está, ao mesmo tempo entre as
disciplinas, através de diferentes disciplinas
e além de qualquer disciplina. Sua finalidade
é a compreensão do mundo presente, do
qual uma dos imperativos é a unidade de conhecimento
(CIRET - UNESCO, 1997, p. 4).
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