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A
apropriação da palavra escrita como
condicionante do sucesso escolar num
enfoque psicanalítico |
Maria da Graça Silva Pedrosa
Psicóloga /Pedagoga
Meu
objetivo aqui é estabelecer um ponto de convergência
entre a apropriação da linguagem escrita,
o fracasso escolar e os conceitos psicanalíticos
do desejo de saber e da transferência.
Faz-se necessário iniciar a reflexão com
algumas considerações sobre o papel da
linguagem na constituição do sujeito.
Retomando a observação construída
a partir da minha experiência docente e clínica
de que mais da metade dos alunos em situação
de insucesso escolar apresentam dificuldades na alfabetização,
ou seja, na construção da escrita, aparece
como percurso inevitável da reflexão a
consideração de que a aquisição
da escrita vai além de juntar letras e escrever
palavras. A aquisição da leitura e da
escrita aparece como a oportunidade ou o desejo de tornar
visível o processo do nascimento do sujeito.
No discurso de Lacan sobre a instância da Letra
no inconsciente, podemos entender que quando uma criança
constrói um significado e o internaliza, ele
adquire o estatuto da letra que se estabiliza como um
traço mínimo onde o sujeito está
situado. Por exemplo, quando a criança constrói
o significado do objeto cachorro, ela o faz através
da palavra, da letra que a cultura lhe ensinou ( aquele
bicho com rabo e que late se chama cachorro). Esta letra
( palavra) ficará em seu inconsciente. Este conceito
trabalhado por Lacan no final de sua obra coloca a letra
como a face material do significante ( do conceito formado)
o que dá sustentação para o significante,
ficando oculta tanto na fala como na escrita. Podemos
então considerar o advento da linguagem como
a entrada no mundo simbólico.
As letras funcionam, portanto, como ordenador simbólico,
uma tentativa de representação e simbolização
e a escrita podendo ser pensada como a produção
de um ato para tentar advir a uma ordem que lhe preexiste.
Ao ordenar-se primeiramente e ao ler e, posteriormente
ao escrever a criança pode ser reconhecida pelo
Outro como fazendo parte do humano. Então, na
construção da escrita, está envolvida
a tomada da letra do inconsciente, que lá se
encontra recalcada na forma do significante. Poder-se
ia intuir, portanto, que uma criança que conhece
as letras, mas não consegue juntá-las
para formar uma palavra não o faz porque também
não consegue operar com a letra, já que
para isto terá que subjetivá-la. Somente
na operacionalização do recalque é
possível que haja um aprender de fato, um apreender.
Isto possibilita um processo de transposição,
condição para o desenrolar da aprendizagem,
conforme afirma Renata de Luca .
Cabe aqui a também a consideração
sobre o fato de que a letra, o nome próprio é
o que veicula o processo de instauração
do sujeito, é o que nomeia seu lugar e especifica
sua pertença. Não se pode, portanto, negar
a estreita relação entre a constituição
subjetiva e o processo de alfabetização,
uma ligação recíproca de causa
e efeito. Isto significa dizer que não se pode
prescindir da construção do Eu para ler
e escrever, em contrapartida, caminhar evolutivamente
no aprendizado da palavra escrita fortalece esta construção.
É o momento de se fazer uma ressalva às
propostas pedagógicas construtivistas que postulam
o início da alfabetização da criança
a partir do seu próprio nome. Bastante interessante
e eficaz para a maioria das crianças, porém
estas propostas resultam ineficazes no caso daquelas
crianças cujo sintoma é justamente a dificuldade
com as suas identificações.
"A linguagem é condição do
inconsciente (...) O inconsciente é a ampliação
da lógica da linguagem: com efeito, não
existe inconsciente sem linguagem", nos ensina
Lacan , o que nos leva a perceber a necessidade de reconhecer
a singularidade do momento de cada aluno, para que se
possa investir no sujeito, levá-lo a perceber
sua falta e desejar produzir, aprender, escolher, singularizar-se.
A partir da resistência que se apresenta, aqui
no caso "sinal de saúde da criança
que rejeita uma mentira mutiladora em que a escolaridade
a aprisiona", a educação precisa
permitir que a criança possa nomear, criar o
mito de sua história, abrir espaços de
fala para transformá-la em escrita, alfabetizar-se.
Então, pode-se desenvolver uma linha de pensamento
no sentido de considerar a dificuldade do aluno em ler
e escrever como decorrência da ausência
da transferência na relação com
seu mestre. Esta ausência indica a existência
da completude ilusória, não quebrada pela
castração. Nesta situação,
a criança que ainda não se constituiu
como sujeito, portanto, não se reconhece como
um ser em falta, não aparece o desejo e, em última
análise, sem o desejo não se busca o Outro
e não se não se constrói o Eu.
Dadas estas condições, o aluno nega-se
a ler e escrever, entendendo esta negação
como uma resistência à imposição
que lhe é colocada e que anula o seu desejo,
anulando, por conseguinte, o próprio sujeito
que iniciava a construção da sua identidade.
Um outro aspecto ainda deve ser considerado para justificar
a importância da aquisição da leitura
e da escrita enquanto fator de sucesso escolar. A instituição
escolar, inserida em uma sociedade letrada tem seu funcionamento
totalmente baseado nos códigos da escrita. Para
que a criança consiga então se adaptar,
ou ao menos conviver neste ambiente, ela precisa muito
rapidamente decifrar estes códigos, razão
pela qual a primeira demanda com que ela se depara ao
entrar na escola é aprender a ler e escrever.
Entretanto, vimos que quando a transferência é
pervertida, não acontece o aprendizado e, por
conseguinte, o aprendiz não acessa os códigos
que a escola valoriza. A criança passa, então
a tentar "sobreviver" numa situação
onde o acesso aos códigos torna-se cada vez mais
difícil e onde o professor passa a lhe exigir
um investimento interno na busca do saber que lhe fica
cada vez mais distante. Nesta situação,
é provável que a criança não
consiga ver no professor o sujeito suposto saber sobre
o seu desejo, e por conta disto, também não
o coloque como o remetente do amor que moverá
sua tarefa de aprender. Para Lajonquière, "o
aprendiz, ao contrário do mestre, que atua por
dever, é movido na sua tarefa por amor. Quando
o mestre oferta seu ensino, instala no seu interlocutor
o desejo de saber mais sobre aquilo que cai no ato da
transmissão, bem como alimenta o amor do aprendiz
por aquele que aparece como sabendo disso que lhe faz
falta".
Nestas condições, não nos parece
restar muitas alternativas para o aprendiz preservar
sua estrutura constitutiva, que não seja a de
oferecer resistência, quer seja via negação
do que se lhe pede que aprenda - aqui no caso a leitura
e a escrita - quer seja por indisciplina, muitas vezes,
numa combinação desesperadora para o professor
das duas formas de atuação.
O aprendiz percorrerá então os sofridos
anos escolares repetindo a cada encontro com um novo
professor a forma de atuar instalada nos primeiros encontros,
num círculo vicioso aparentemente interminável:
senão desfaz este mal estar, não aprende,
senão aprende não adquire condições
de desfazer o mal estar até porque acaba classificado,
discriminado e inserido em uma das muitas rotulações
genéricas do tipo "alunos multirrepetentes",
"alunos problemáticos", "alunos
com dificuldades relacionais", "alunos com
problemas comportamentais", "alunos indisciplinados",
entre outras tantas, quando não criadas, aceitas
sem ressalva pela Psicopedagogia.
E o professor percorrerá os sofridos anos profissionais
na ilusão de controlar ou conduzir a relação,
sem se dar conta de que no encontro entre ele e seu
aluno estão envolvidos processos psíquicos
inconscientes, inclusive aqueles da ordem do confronto
com as crianças recalcadas em si mesmo. Monteiro
afirma: "Ao educar, ele depara basicamente com
duas crianças : a que está à sua
frente e a que foi recalcada em si mesmo. Depara com
a criança ideal que gostaria de encontrar no
aluno e que o coloca na posição do adulto
ideal e a criança ideal que gostaria de ter sido.
Depara com estas crianças recalcadas em si mesmo
que, desde o início da vida, idealizaram uma
relação de completude."
Parte da monografia apresentada como conclusão
do Curso Psicanálise, Infância e Educação,
realizado na faculdade de Educação da
USP/ LEPSI no ano de 2002
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