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::. A auto-estima e o rendimento escolar na adolescência
  Priscila de Faria Gaspar
Psicanalista, Terapeuta de Regressão Filiada à Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa, Mestre em Ciências pela USP.
E-Mail: priscilagaspar@terra.com.br - Fone: (0xx11) 5585-0286


Com freqüência, pais e professores são surpreendidos pela queda abrupta no rendimento escolar dos adolescentes. Uma análise superficial mostraria que o jovem perdeu o interesse nos estudos, ou que o garoto bem comportado de outrora transformou-se em um adolescente rebelde. Porém, ao avaliar de forma mais profunda, observa-se que, na maior parte das vezes, tratam-se de problemas relacionados à auto-estima e às adaptações frente às mudanças que ocorrem na adolescência. No momento em que o jovem se depara com maiores responsabilidades e dificuldades em suas escolhas, entram em cena uma série de mecanismos de defesa inconscientes e comportamentos determinantes da queda no rendimento escolar.

Embora a nota não seja a única forma de avaliar o rendimento escolar, em última instância ela é o que determina a aprovação ou a reprovação e o que constará do histórico escolar. O aluno bem ajustado tende a apresentar notas razoáveis – o que não significa que não terá dificuldades. Por outro lado, boas notas nem sempre significam bom ajustamento psicoemocional. Todos conhecem ao menos um caso de jovem tímido, com dificuldade em se relacionar com os colegas e que apresenta notas excelentes. Nesse caso típico, a auto-estima pode estar abalada quanto à aparência, ao desempenho nos esportes ou à capacidade de fazer amigos, de forma que ter boas notas pode compensar essas deficiências. O oposto também é típico: aluno com dificuldades na aprendizagem, mas que se sobressai nos esportes ou tende a ser o mais popular.

O que compete a este texto, no entanto, é a queda no rendimento daqueles alunos que iam razoavelmente bem até determinada série. E, repentinamente, têm uma queda no rendimento escolar. A mudança, na maior parte das vezes, está relacionada à auto-estima abalada por algum conflito e aos mecanismo de defesa utilizados para lidar com ele.

A auto-estima é, sem dúvida, o mais importante julgamento que o ser humano faz, pois pode ser responsável tanto pelo sucesso como pelo fracasso nas mais diversas áreas da vida: familiar, pessoal, afetiva, profissional e estudantil. Relaciona-se ao auto-respeito, calcada sobre os sentimentos de competência pessoal e de valor pessoal. Quando a auto-estima é elevada, o sujeito sente-se adequado à vida, competente e merecedor. Ao contrário, na baixa auto-estima sente-se errado como pessoa, inadequado à vida, podendo apresentar sentimento de culpa, dúvidas e medos exagerados. Uma auto-estima média pode apresentar oscilações, ou seja, existem momentos em que o sujeito se sente mais adequado e em outros menos, o que é perfeitamente normal.

A auto-estima pode ser profundamente abalada na adolescência, principalmente quando a estrutura emocional do sujeito é mais frágil, tornando mais difícil lidar com as mudanças. A adolescência caracteriza-se por transformações orgânicas, emocionais, intelectuais e sociais inerentes ao processo de desenvolvimento humano. Seu início é facilmente observado com as primeiras transformações corporais, enquanto que o final, caracterizado socialmente, ocorre de forma sutil, com a independência relativa, uma profissão ou estudos superiores. As transformações do corpo geram intensa angústia no jovem, porque não sabe como irá ficar e também pelas pressões da mídia quanto ao "corpo ideal". É uma fase em que a auto-imagem modifica-se tanto ou mais que o corpo, o que pode levar à queda da auto-estima. Se a queda do rendimento escolar ocorre no início da adolescência, provavelmente, a causa relaciona-se à aparência e às mudanças corporais.

Em um segundo momento, o jovem necessita pertencer a um mundo próprio, com plena identificação junto ao grupo e seguir determinados líderes (desde que estes não sejam representantes típicos do mundo adulto). É necessário ter vínculo com o grupo para que, ao compartilhar suas idéias junto a amigos com características semelhantes, possa romper com alguns valores de seus pais e sedimentar sua própria identidade. O foco principal na adolescência média está em estabelecer relações, tanto de amizades como amorosas. A dificuldade nos relacionamentos é, muitas vezes, derivada dos conflitos quanto à aparência. O jovem sente-se feio, desajeitado, muito gordo ou muito magro, muito alto ou muito baixo – e, com isso, afasta-se do grupo. O isolamento reforça ainda mais a crença de ser diferente ou inadequado. Se a auto-estima estiver baixa, será mais difícil para o jovem dizer "não" aos colegas, pois a necessidade de aprovação torna-o ainda mais influenciável.

Ao final da adolescência, o sistema de valores dos adultos é incorporado e o jovem está emocionalmente mais estável, buscando a independência econômica e vínculos afetivos mais estreitos. Nessa fase predominam os conflitos relacionados à escolha da profissão e à aquisição de maiores responsabilidades. Dúvidas e medos com relação ao futuro, bem como o sentimento de incapacidade, podem dificultar e até mesmo impedir que o jovem consiga o sucesso profissional. Nessa fase, a auto-estima pode ser o diferencial que o levará ou não a uma boa escolha profissional e ao sucesso.

Independentemente da fase, a baixa auto-estima leva a uma espécie de ciclo vicioso, no qual o jovem tende ao fracasso e, ao esperar pelo pior, faz com que isso ocorra. A cada novo fracasso reforça a idéia de incapacidade ou inadequação, alimentando o ciclo. Os alunos que apresentavam dificuldades de aprendizagem antes da 5ª série do ensino fundamental, tendem a alimentar esse ciclo de forma mais intensa, pois já trazem consigo a idéia de inadequação, a crença de que são incapazes e de que não conseguirão. Dessa forma, não se esforçam, usando o fracasso anterior como justificativa para o atual e esperando o mesmo para o futuro.

A sucessão de experiências dolorosas, como as frustrações e os conflitos psíquicos não elaborados, leva à necessidade de encobri-los para diminuir a tensão e a ansiedade. Entram em cena os mecanismos de defesa, que são processos mentais inconscientes para aliviar a ansiedade ou outras formas de tensão, em geral oriundas de frustrações. O mais comuns são: negação, racionalização, generalização, fantasia, defesa maníaca, identificação, projeção, deslocamento e regressão.

A negação consiste em não admitir para si mesmo e para os outros as suas frustrações, bem como seus medo e limitações ou deficiências. Com freqüência, o jovem tende a compensar os sentimentos de inferioridade por meio dos riscos a que se expõe, negando os perigos reais.

A racionalização ocorre quando busca uma justificativa externa para algo que lhe compete, como uma dificuldade, por exemplo. É comum que o jovem justifique seu mau desempenho escolar racionalizando, como na frase "Essa matéria não serve para nada, mesmo!".

De forma semelhante, na generalização são encontradas justificativas externas, porém colocadas como algo coletivo. Por exemplo "Ninguém entende essa matéria".
Já a fantasia consiste em gerar um substituto imaginário para um realidade que se apresenta desagradável. É comum que o jovem se imagine em locais agradáveis, na presença da pessoa amada ou ainda, construindo um futuro ideal, no qual suas dificuldades são superadas e ele surge como vitorioso frente àqueles que o hostilizam ou menosprezam.

A defesa maníaca é uma espécie de fantasia, na qual são negadas todas as dificuldades e, assim, ele pode aparentar auto-estima elevada. O jovem fantasia ser melhor que os demais e sente-se realmente especial como forma de não encarar suas limitações. Para não sofrer com sua insegurança, mostra-se excessivamente seguro, porém trata-se apenas de uma máscara que encobre sua fragilidade interna. Muitas vezes o sujeito interpreta tão bem esse papel, que seus problemas reais não são notados pelos pais nem pelos professores.

Na identificação, o sujeito toma para si qualidades ou idéias de outros. Ao contrário, na projeção, atribui suas próprias qualidades a outra pessoa, que pode ser um colega ou um professor. A identificação e a projeção atuam normalmente em todas as relações humanas e nem sempre são mecanismos de defesa. Porém, em certas situações, podem ser utilizadas para resguardar o sujeito daquilo que não gosta em si mesmo. Como defesa, em geral o jovem projeta aquilo que não tolera em si mesmo a outrem. São típicos os casos de meninas que dizem que determinada colega é invejosa, quando na verdade trata-se da projeção da própria inveja. Já nos rapazes, dúvidas com relação à sua própria masculinidade podem levá-lo a atribuir caráter homossexual aos colegas. Existem também os casos de identificação projetiva, quando o aluno pode se ver espelhado no professor, que se torna um ídolo, o que geralmente é desejável e somente em casos extremos pode ser prejudicial. Na relação professor-aluno, deve ser dada atenção especial para projeção de características negativas no professor. Neste casos, o aluno projeta no professor as suas dificuldades pessoais, levando, inevitavelmente à queda no rendimento escolar.

É muito freqüente ocorrer o deslocamento, quando o sentimento para com uma pessoa é transferido para outra. Muitas vezes o professor, enquanto representante do mundo adulto e no papel de autoridade, pode ser inconscientemente associado ao pai ou à mãe. Sentimentos hostis para com os genitores podem ser deslocados para o professor, que se torna o alvo das agressões.

Na regressão, o jovem apresenta momentaneamente reações tipicamente infantis. Pode bater os pés no chão, fazer birra, falar de forma infantilizada e até mesmo agir como criança. A regressão diante de uma crise é perfeitamente normal, tornando-se patológica apenas quando o comportamento infantil é constante. Um exemplo comum é o do adolescente que morde e chupa o lápis ou a caneta, ou ainda que rói as unhas. Essa forma de lidar com a ansiedade é uma regressão ao comportamento típico das crianças de dois a três anos, que levam tudo à boca.

Os adultos podem auxiliar o jovem a constituir uma auto-estima sadia, levando-o a observar em si mesmo seus potenciais, dons, bem como suas limitações reais. Através da observação atenta de seu comportamento, é possível verificar que mecanismos de defesa estão envolvidos e quais os conflitos subjacentes. Cabe, pois, aos pais, professores e orientadores pedagógicos a observação atenta do comportamento do jovem, para compreendê-lo e auxiliá-lo tanto no reconhecimento como na elaboração de seus conflitos. É necessário também reconhecer os casos em que o tratamento psicoterápico se faz necessário, quando deverão ser encaminhados a um profissional qualificado para atender a essa faixa etária.
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