Os
adultos se informam, buscam conhecimento e aplicam leis
e saberes a partir de seus estudos e vivências.
Podem se informar sobre a pedofilia mas e quando a questão
é falar sobre pedofilia à criança?
Como nomear isto para uma criança?
É,
a partir deste ponto percebemos que a questão
não se restringe só ao debate da pedofilia,
antes disto vem à tona o falar sobre sexualidade
com a criança. Assunto considerado pela maioria
dos adultos como "difícil e cabeludo".
Por ser considerado desta forma, este acaba não
sendo abordado e discutido com as crianças. A
família acha que a criança é muito
nova e posterga, dizendo que na escola ela estará
"mais madura" e será instruída.
Na escola, os educadores partem do princípio
que a criança já foi instruída
em casa e não querem tocar neste assunto "delicado
e difícil", com medo de "excitar e
levar a criança a maus pensamentos e comportamentos".
Falar de pedofilia, abuso sexual, que seria um passo
posterior, é possível desta forma?
Como
explicar a questão do corpo, da intimidade e
limites do corpo, do que é público e do
que é da privacidade, de toques e carícias,
de abuso e contato sexual....sem antes abordar a sexualidade?
Desta
forma ninguém toca a "coisa". A coisa
sexual, que é motivo de tantas piadas, brincadeiras,
jogos e histórias no universo adulto e paradoxalmente
tão negada ao universo infantil. Como se a criança
não fosse Sujeito de um corpo, de sensações,
de desejo, de questionamentos, enfim de uma sexualidade.
Antes
de mais nada é importante definirmos sexualidade:
após as descobertas da psicanálise no
começo do século passado (especificamente
em 1905) a sexualidade mudou um pouco de significado,
deixando de ser um sinônimo de ato sexual para
abranger todos os movimentos de busca de prazer e satisfação.
A sexualidade engloba uma série de excitações
e de atividades presentes desde a infância que
proporcionam grande prazer na satisfação
de uma necessidade fisiológica fundamental (exemplo:
respiração, amamentação,
função de excreção, toques
pelo corpo e milhares de outros).
Inclui-se
na sexualidade, fora o próprio ato sexual, toda
uma série de excitações corporais,
a sensualidade, a curiosidade pelo corpo (próprio
e o alheio), a sedução, modos de se pintar
e vestir, os jogos sexuais, os comportamentos sexuais
e assim por diante. Sexualidade: essa palavra contém
em si um erro comumente cometido por nós. Sexualidade
não quer dizer apenas o sexo ou ato sexual.
Desta maneira, quando se fala de sexualidade infantil,
não se quer dizer ato sexual ou movimentos de
sexualidade erótica e/ou pornográfica
na criança. A sexualidade infantil é a
busca por satisfação, por sensações
prazeirosas independentes de ato sexual. Esta busca
está inicialmente ligada às sensações
corporais e posteriormente às duvidas e questionamentos
quanto ao corpo, suas funções, e principalmente,
seu surgimento e origem.
Faz
parte da opinião popular, quando se fala sobre
sexualidade, achar que a mesma está ausente na
infância e só despertará no período
da vida designado de puberdade. Mas esse não
é apenas um erro qualquer e comum, mas sim um
equívoco de graves conseqüências,
pois é o principal culpado de nossa ignorância
de hoje sobre as condições básicas
da vida sexual - Sigmund Freud abordou isto em 1905,
e mesmo passado tanto tempo, ainda hoje encontramos
muitas dúvidas sobre este tema, principalmente
quando confrontados com este por intermédio das
tentativas e descobertas curiosas de nossas crianças
(independente de uma idade maior ou menor). Ainda hoje
somos surpreendidos e não acreditamos na sexualidade
infantil.
O
fato é que ela existe e, cedo ou tarde vai se
perfilar frente aos nossos olhos e ouvidos com perguntas
insistentes tais como: "Pai, a cadeira tem pipi?
Cadê o pipi da Maria? Meninas tem pipi pequeno?
De onde veio a Maria? Por que meu pipi fica assim? Mãe
por que o meu não é igual o do Pedro?
Cadê meu pipi? Como o bebê foi parar dentro
da mamãe?" e por meio de tentativas de descoberta
corporal pela criança.
A
aventura do descobrimento começa já nos
primeiros meses, quando o bebê experimenta o prazer
de explorar o próprio corpo, e se acentua nos
anos seguinte quando sua atenção se volta
para o corpo dos pais e de outras crianças.
As
descobertas corporais na criança são tão
naturais quanto aprender a andar, falar e brincar -
todas as crianças passam por essa fase e fenômenos.
Mas o adulto nega este acontecimento ou muitas vezes
olha para o mesmo como se fosse uma aberração
na criança.
Há
uma clara incongruência na linguagem sexual do
adulto, que é erótica, com a linguagem
sexual da criança, que busca prazer por meio
da descoberta de seu corpo - a primeira linguagem é
genitalizada (adulto), a segunda é sensual (infantil).
O adulto interpreta os fenômenos da sexualidade
infantil a partir de seu referencial, por isso julga-a
erroneamente pela via do erotismo ( FERENCZI,)
Na
maioria das vezes, a distancia entre a moral do universo
adulto e a ausência de pudor infantil resulta
em ensinamentos cheios de "tira a mão daí,
isso não pode fazer porque é feio, nojento,
tem vergonha na cara, que absurdo, me respeite seu safado"
- tratar o assunto com a naturalidade que merece é
condição fundamental para possibilitar
um diálogo aberto e saudável adulto-criança.
Ralar
ou castigar a criança com reações
extremadas quando esta está descobrindo seu corpo
é pior, por que ela dificilmente vai abandonar
o que lhe dá prazer, só o fará
escondido. Muitas vezes a repressão do adulto
é entendida pela criança como se ela fizesse
algo muito errado e que fosse sujo ou inadequado. A
criança fica com uma imagem deformada do que
é a sexualidade e como reagir aos fenômenos
de seu corpo. A sexualidade deixa de ser algo natural
para tornar-se algo vergonhoso, motivo de receio ou
fruto proibido.
E
é exatamente por intermédio destas tentativas
infantis de descoberta e questionamentos voltados ao
seu corpo e origem que o adulto tem a chance de abordar
o que é sexualidade humana, suas apresentações,
conceitos (do que é adequado, do que é
privado, da intimidade) e repercurções.
O
homem, sendo um ser Bio-Psico- Social ( é influenciado
por fatores biológicos tais como a genética,
hereditariedade / fatores psicológicos tais como
sua historia pessoal, emoções, sentimentos,
caráter entre outros / e fatores sociais como
a cultura em que nasceu e regras e leis sociais as quais
responde como responsável, como cidadão
), desenvolveu-se desde a infância a partir de
suas relações reais e/ou fantasiosas com
as figuras materna e paterna ( nisso inclui-se quem
faz a função materna e função
paterna ). A base de sua segurança e senso de
orientação estão nesses primeiros
relacionamentos - o olhar e falar do outro traduz e
apresenta-lhe a realidade. Sem a presença de
outros surgem sentimentos de possível inadequação
e insegurança. Todo ser humano adquire grande
parte do senso de sua própria realidade pelo
que os outros dizem e pensam a seu respeito.
Aquele
que representa a figura de respeito e cuidado, o responsável
pela criança será o tradutor da realidade
para a criança e até para o adolescente
- suas intervenções, falas, atos mostrarão
ao jovem o que é saudável, o que é
inadequado, o que socialmente se espera dele e o que
não é aceitado e punido pela lei.
Por
isso a função materna e/ou paterna é
tão importante: ela direcionara e dará
noções sociais e orientações
para os movimentos sexuais do infante. Cabe àquele
que executa tal função inicialmente escutar
o que o a criança tem a dizer sobre suas investigações
ou investidas sexuais, para a partir deste momento debater,
explicar, conversar sobre o fenômeno.
Falar
de sexualidade é difícil e embaraçoso
para os pais e, é por esta razão que,
a educação sexual nas escolas e a informação
adequada disponível na comunidade, exercem um
papel tão importante. Mas para que a comunicação
com o a criança e o adolescente possa ocorrer,
tanto em casa como no meio escolar, deve ser proporcionado
um ambiente de compreensão, de sinceridade e
de aceitação e respeito pela criança
e suas dúvidas, sem fazer julgamentos de valor
sobre as mesmas ou recriminá-la por suas questões
ou apresentações.
Uma ressalva mostra-se importante: não dispare
as informações de uma vez para a criança
ou adolescente, esclareça e pontue a partir das
dúvidas ou comportamentos apresentados. Se a
criança pergunta por que a irmã não
tem pipi, não é preciso explicar ato sexual
ou gravidez, explique sobre a diferença entre
homens e mulheres, meninos e meninas. Responda o que
foi perguntado sem muitos rodeios ou elocubrações.
Use palavras e expressões que sejam próximas
à criança e esteja aberto para as geralmente
comuns teorias fantasiosas que a criança lhe
apresentar - escute atentamente e depois pontue o que
é real do que é fantasioso. A criança
coloca suas dúvidas aos poucos e se lha respondemos
aos poucos teremos sua confiança e compreensão,
agora se a ludibriarmos ou tentarmos explicar cientificamente
e verborrágicamente tudo, ela procurará
outros meios para satisfazer suas dúvidas e fantasias.
Sintetizando, existe um conjunto de informações
muito importantes a serem transmitidas às crianças
e aos adolescentes:
"
Conversar sobre sexualidade (órgãos e
fisiologia/funcionamento aparelho reprodutor, intimidade
corporal, ato sexual, reprodução, gravidez,
parto, entre outros), quando isto mostrar-se oportuno
ou necessário;
" Abordar conceitos como intimidade e privacidade;
" Manter-se informado(a) sobre os movimentos da
sexualidade no âmbito nacional e internacional
(Exemplos atuais: os relacionamentos casuais, ficar
/ namorar, aumento nos casos de divórcio e diminuição
de casamentos, sexo virtual, Homo-hetero- , Trans- e
bissexualidade como formas atuais de busca de prazer,
entre outros)
" Abordar a importância da comunicação
e respeito com e pelo(a)s parceiro(a)s;
" Informar sobre os riscos de saúde da atividade
sexual (doenças sexualmente transmissíveis);
" Esclarecer quais os riscos e conseqüências
da gravidez na adolescência;
" Informar quais os métodos contraceptivos;
" Explicar onde encontrar mais informação
ou procurar ajuda profissional (ginecologista, urologista,
sexólogo, psicólogo, etc);
A
partir do momento em que o tema da sexualidade for mais
tranqüilo e motivo de aproximação
entre pais e filhos, o debate sobre temas como os usos
que se faz do corpo na modernidade, abuso e assédio
sexual, pornografia infantil, e pedofilia fluirá
com mais facilidade e sem tantos rodeios, remorsos,
banalizações e preconceitos.