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A
sexualidade enquanto tema transversal: Educadores
e suas representações |
Lilian
Fenalti Salla
Alberto Manuel Quintana
O presente artigo aborda a questão da sexualidade
humana a partir de uma investigação de cunho
qualitativo e fenomenológigo. A principal finalidade
desta investigação foi apreender as concepções
acerca da sexualidade humana vigentes entre educadores
de escolas públicas estaduais de Santa Maria. A
aproximação da realidade focada foi desenvolvida
com base na teoria das Representações Sociais.
A técnica utilizada para a obtenção
dos dados foi a entrevista semi-estruturada. Os dados
apreendidos passaram pelo processo de análise de
conteúdo. A partir dos Parâmetros Curriculares
Nacionais, instituídos em 1995 pelo Ministério
da Educação, a Orientação
Sexual passou a ser um tema transversal idealizado pelo
viés da transdisciplinaridade. A Representação
da sexualidade humana pelos educadores foi valorizada
neste estudo em virtude de constituir-se em um aspecto
de extrema relevância na abordagem do tema dentro
da escola. O estudo demonstrou que a Representação
que os educadores têm sobre a sexualidade humana
é bastante reducionista e atrelada ao sexo orgânico,
desprezando-se os seus aspectos sócio-político-culturais.
Considerando-se todos os aspectos inferidos deste estudo,
espera-se que ele venha a contribuir, juntamente com outras
visões, com a construção de uma proposta
menos dogmática e mais crítica de Orientação
Sexual escolar. Palavras
Chave: sexualidade humana; representação
social; educadores.
Introdução
A
presente pesquisa originou-se a partir de uma observação
prática. Através de projetos de extensão
em saúde preventiva nas escolas, observou-se
que uma das principais angústias dos educadores
concentra-se na área de Orientação
Sexual. Os educadores freqüentemente procuram na
figura do médico ou de outros profissionais da
área da saúde uma maneira de resolver
situações referentes a esse tema. Percebeu-se
que a sexualidade humana estava sendo encarada como
uma área técnica cujo suposto saber estaria
nas mãos de alguém da área da medicina,
enfermagem e outras, reduzindo assim, a sexualidade
humana a sua dimensão organicista. Além
disso, observou-se que na maioria das escolas não
existe nenhum projeto de Orientação Sexual
escolar e a proposta dos PCNs, que preve uma abordagem
contínua do tema enquanto tema transversal não
está se concretizando.
Sabe-se
que a sexualidade humana é uma dimensão
que abarca muitos aspectos do sujeito social, não
é apenas o sexo genital e compreende também
aspectos psicológicos, religiosos, políticos,
éticos e principalmente culturais. A sexualidade
humana reveste-se de alta subjetividade e as representações
sobre a mesma é que vão balizar a abordagem,
ou não, do tema dentro da escola.
Supondo
que um dos principais entraves para a praticabilidade
desse tema transversal esteja justamente nas ressignificações
simbólico-culturais, nos imaginários dos
educadores, e, considerando-se a inevitabilidade da
emergência da sexualidade no cotidiano escolar,
decidiu-se estudar as representações dos
educadores em relação ao aspecto transversalidade
da Orientação Sexual escolar. Não
obstante essa importância prática da presente
pesquisa, procurou-se definir alguns aspectos teóricos
em relação às representações
que permeiam o imaginário dos educadores, buscando
ampliar o conhecimento sobre as mesmas.
Metodologia
Foram
entrevistados 11 educadores de escolas estaduais de
Santa Maria. A escolha das escolas foi pelo critério
da localização geográfica e da
população discente das mesmas, sendo uma
de grande porte com 2000 alunos e 180 professores, e
de localização central (escola A), uma
escola de médio porte e com 1000 alunos e 82
professores com localização intermediária
entre o centro e a periferia da cidade e uma de pequeno
porte e com 487 alunos e 58 professores, de localização
periférica.
As
entrevistas foram do tipo semi-estruturada, gravadas
e transcritas com o prévio consentimento dos
entrevistados. O local de realização das
entrevistas foi na escola e a duração
média das entrevistas foi de 40 minutos.
Após
o trabalho de campo, as entrevistas sofreram uma interpretação
textual usando-se para tal a técnica da análise
de conteúdo.
RESULTADOS
E DISCUSSÃO
Observa-se
que os educadores concebem a Orientação
Sexual como uma "disciplina" a ser explorada
pelas Ciências Biológicas emprestando à
sexualidade um caráter biológico e tecnicista,
reduzindo a sua dimensão ao sexo genital. A idéia
de transversalidade da sexualidade, veiculada nos PCN
(1998), não coincide com a concepção
que os educadores têm sobre esse tema. Infere-se
deste estudo, três categorias resultantes que
retratam a representação dos educadores
em relação a transversalidade da sexualidade
humana no contexto escolar quais sejam: 1- A sexualidade
como tema transversal em si. 2-Sexualidade "organicista"
ou "economicamente útil" e 3-a Disciplinarização
da sexualidade. Isto é evidenciado nas falas
produzidas pelos educadores quando se posicionaram sobre
a questão da Orientação Sexual
como tema transversal e que são apresentadas
a seguir.
Escola
A:
"...
eu acho que deveria haver dentro da escola, já
... por exemplo assim, a parte de Ciências ...
poderia ser desenvolvido o conteúdo..."
(professora de currículo da escola "A").
"eu
nunca tive problema ... todas as dúvidas que
eles têm eu procuro esclarecer, sabe, todas dessa
parte aí, eu tava preparando uma aula aqui pra
eles onde entra a parte de reprodução,
né ... então eu mostro o filme pra eles,
sobre sexualidade ... então tudo isso ajuda,
né?
...
ah, eles ficam sem jeito, eles ficam ... eles tentam
enrolar o aluno ... não falam abertamente com
o aluno, eu noto que eles tentam ... 'ah ... quem sabe
tu pergunta pra professora de Ciências'...
...
tu conversando com certas professoras mesmo ... 'ah
... mas eu não sei como é que eu enfrentaria
isso aí em sala de aula', por quê? Porque
elas nunca enfrentaram realmente, elas vão ali,
dão as aulas dela, não lidam com essa
parte, acham que ... quem tem que lidar é o professor
de Ciências, mas por que isso? Porque elas realmente
não tão preparadas, até pelos próprios
nomes dos aparelhos, como se dá a reprodução,
pra isso ... elas não tão preparadas pra
isso ... claro que caberia bem mais ao professor de
ciências que sabe bem mais do assunto!" (professora
de Ciências da escola "A").
Escola
B
"...
é interessante a curiosidade deles mas eu acho
assim ... impróprio pra uma aula de História,
né?" (Orientadora educacional da escola
"B")
Escola
C
"...
a escola, a escola tem muito pouco a oferecer, até
dentro da própria, dentro da própria classe
médica tinha que ter uma preocupação
maior ... em nos auxiliar dentro da escola. Dentro da
... dentro da ginecologia ... vários ramos que
poderiam nos ajudar". (Supervisora geral da escola
"C").
"a
gente acaba sendo muito técnico né, fica
mais na área assim, como é que funciona
os órgãos, né, funcionamento dos
órgãos, não é ... que isso
aí, isso aí é obrigatório
dentro da área de ciências...
...
é mais cômodo achar que o professor de
ciências já tem mais conhecimento técnico
daquilo ... fica mais fácil tudo, fica mais com
o técnico do que com o real". (professora
de Ciências Biológicas número "2"
da escola "C").
"...
pra nós professores foi muito bom isso daí
porque ahhhh ... não que nós professores
de Ciências a gente não saiba, não
é ... a gente tem uma longa experiência
... e muitos professores que não são da
área ... tem dificuldades pra lidar com o assunto
por essa falta de formação" (professor
de Ciências Biológicas número "1"
da escola "C").
Discussão
Das Categorias:
1-A
Sexualidade Como Tema Transversal Em Si
Se
a sexualidade fosse considerada em sua dimensão
emocional, seria possível evitar a sua transversalidade?
Conforme assevera Furth (1995), conhecimento e emoção
não se separam no sujeito epistêmico. Nesse
sentido, como se poderia separar o sujeito cognitivo
do emocional (atravessado pela sexualidade)? Por essa
perspectiva, fica difícil delimitar o campo da
sexualidade como um momento, um lugar ou uma disciplina.
Se a sexualidade é dotada de uma transversalidade
inerente, ela passa a ser, então, participante
de todos os processos de construção do
conhecimento e interage com o sujeito epistêmico,
fornecendo-lhe o desejo de aprender. Assim, talvez essa
transversalidade da sexualidade já ocorra genuína
e silenciosamente dentro das diversas áreas do
saber. Além disso, a sexualidade é colocada
em pauta todos os dias, inconscientemente, pela emergência
de valores, posturas e visões de mundo dos que
participam do cotidiano escolar. Dentro dessa perspectiva,
seja no discurso verbalizado, seja no discurso silencioso,
a sexualidade está percorrendo o currículo.
Dessa maneira, a sexualidade possui um caráter
de transdisciplinaridade e transversalidade que lhe
é inerente, independentemente de sua sistematização
como Orientação Sexual.
No
entanto, apesar dessa transversalidade inerente à
sexualidade, as representações sobre esta
ainda são fragmentadas.
De
acordo com os dados obtidos nesta pesquisa, a concepção
de uma Orientação Sexual escolar pelo
viés da transversalidade está longe de
ser alcançada. Observa-se que os educadores ainda
têm uma visão bastante reducionista da
sexualidade limitada ao sexo genital, ao conhecimento
da anatomia e fisiologia dos órgãos da
reprodução, delegando geralmente ao professor
de Ciências Biológicas a abordagem do tema
dentro da escola. Certamente o professor de ciências
tem muito a contribuir; porém, o mais difícil
não é lidar com as questões biológicas
e orgânicas, mas, sim, com os valores e posturas
inerentes ao tema.
Infere-se,
portanto, no contexto estudado, uma representação
de sexualidade bastante organicista.
2-Sexualidade
"organicista" ou "economicamente útil"
Antes
de se discutir esse aspecto, faz-se conveniente para
sua melhor compreensão, observar as diferentes
concepções sobre corpo e organismo existentes
na literatura.
Fernández
(1994, p. 44) estabelece uma distinção
entre organismo e corpo quando explicita: "Organismo
é o equipamento genético-infra-estrutural
neurofisiológico de todas as coordenações
possíveis. O organismo é recebido por
herança". Enquanto por corpo entende-se
uma construção realizada sobre a "matéria-prima"
fornecida pelo organismo que, atravessado pela inteligência
e pelo desejo, em um momento histórico determinado,
transforma-se em corpo.
Nesse
sentido, entende-se que o corpo compreende o substrato
orgânico fornecido pelo organismo, mas transcende
esse organismo quando passa a ter uma lugar social,
um papel na história e um psiquismo. Considerando-se
essas definições, parece que as concepções
acerca da sexualidade estão mais associadas ao
"organismo" do que ao "corpo" propriamente
dito, realizando uma cisão que elimina o desejo
e o afeto e reduzindo, assim, a sexualidade ao organismo.
Em
relação ao termo "sexualidade",
Chauí (1985) observa que ele é relativamente
recente e surgiu quando o conceito de sexo teve seu
sentido alargado, especialmente quando se passou a distinguir
e diferenciar necessidade e desejo. Esse alargamento
fez com que o sexo deixasse de ser encarado somente
a partir de sua função de reprodução
e passasse a ser visto como
...
um fenômeno mais global que envolve nossa existência
como um todo, dando sentidos inesperados e ignorados
a gestos, palavras, afetos, sonhos, humor, erros, esquecimentos,
tristezas, atividades sociais como o trabalho, a religião,
a arte, a política que, à primeira vista,
nada têm de sexual (Chauí, 1985, p. 11).
Entretanto,
as representações acerca da sexualidade
estão ainda muito arraigadas às suas dimensões
orgânica e reprodutiva.
Pelas
concepções inferidas neste estudo, a representação
de sexualidade não alcança sequer a dimensão
de corpo (atravessado pelo afeto e com um lugar social)
e continua vinculada à concepção
de organismo, reduzindo-se, assim, ao sexo genital.
Consequentemente,
a identificação de gênero, os papéis
sexuais/sociais, os relacionamentos, a cidadania ligada
à sexualidade, os aspectos culturais e econômicos
são ignorados.
Gonçalves
menciona essa visão isolada que o homem contemporâneo
tem da sexualidade ao dizer que
O
homem contemporâneo é fragmentado. Sua
existência desdobra-se em uma multiplicidade de
papéis, que são, muitas vezes antagônicos.
A perda da unidade existencial e a auto-identidade do
homem moderno refletem-se também na forma de
viver sua sexualidade. Esta é vista pelo homem
[...] como um compartimento estanque, um mero fenômeno
corporal [...] perdendo sua significação
humana (1994, p. 113).
Entretanto,
a Orientação Sexual que visa contribuir
na formação integral do cidadão
transcende esse caráter organicista. Pinto (1994)
avança nessa questão quando comenta criticamente
sobre os poucos programas de Orientação
Sexual vigentes no Brasil:
Os
programas de Educação Sexual nas escolas,
por sua vez, ajudam muito pouco os adolescentes, em
virtude da sua obsolescência, caretice e inadequação
pragmática. Raramente estes programas escolares
são abrangentes, interessantes e satisfatórios
a ponto de atender aos interesses, curiosidades e, sobretudo,
às necessidades dos adolescentes [...] os programas,
em si mesmos, geralmente, não vão além
de algumas aulas elementares, formais e preconceituosas
sobre anatomia e fisiologia do aparelho reprodutor (p.
46) (grifos meus).
Esse
paradigma pedagógico não é generalizado.
Entretanto, a representação de sexualidade
dos entrevistados na presente pesquisa é limitada,
uma vez que a primeira idéia que vinha à
mente desses sujeitos ao se referirem à sexualidade
era justamente o "conhecimento do aparelho reprodutor",
"a desinformação sobre os métodos
anticoncepcionais", "a prevenção
das doenças sexualmente transmissíveis".
Essas falas denotam uma representação
muito atrelada à dimensão orgânica
e à prevenção das DST.
Veiga
(1997, p. 240) considera as representações
dos educadores ainda muito bitoladas, pois "Alguns
professores, na sua ação pedagógica
em sala de aula, apresentam [...] uma visão reducionista,
sexológica, biologicista e que necessitam ser
redimencionadas".
Mas
qual seria o motivo dessa representação
da sexualidade manter-se tão atrelada à
reprodução e a genitalidade?
Foucault
(1997, p. 38) reflete profundamente sobre essa questão
e avança na discussão. Relacionando sexualidade
e poder numa rede intrincada, sugere que a primeira
se submete a este último por uma razão
política e econômica. Ele questiona se
essa representação da sexualidade centrada
na genitalidade e atrelada à reprodução,
característica dos últimos três
séculos, não estaria ordenada a uma preocupação
elementar: "... reproduzir a força de trabalho,
reproduzir a forma das relações sociais;
em suma, proporcionar uma sexualidade economicamente
útil e politicamente conservadora?" (grifo
meu)
Não
seria essa concepção procriadora e organicista
da sexualidade um dispositivo da política da
produtividade?
Essa
visão da sexualidade limitada ao genital e cerceada
pela reprodução não é uma
idéia "a priori"; certamente é
um produto de toda uma cultura (educação)
que perpetua os interesses sociais a partir de uma realidade
dada, forçando o sujeito social a se "adaptar"
ao que é pré-existente, sem chance de
transformação. Essa educação
serviria como um eficiente mecanismo de "enquadramento"
do sujeito social às normas do sistema. O sistema,
por sua vez, vê a sexualidade sob a égide
da produtividade e, na sua crescente consolidação,
modificou gradualmente o tratamento dispensado ao corpo,
o qual passou a ser um instrumento usado para a expansão
do capital.
Dentro
dessa perspectiva, onde a representação
de sexualidade é balizada pela concepção
do "corpo" (organismo) subjugado pela produtividade,
é pouco provável que um "projeto
relâmpago", sem considerações
prévias, consiga realizar seu ideal de transversalidade.
3-Disciplinarização
Da Sexualidade
Infere-se,
também, das entrevistas, a crença no fato
de que a sexualidade e a Orientação Sexual
constituem uma disciplina a ser ministrada por um profissional
específico dentro da escola. Werebe (1981) assevera
que a concepção da sexualidade como um
processo isolado e independente falseia a visão
que se deveria ter sobre ela. Mas, por que essa tendência
de se ver a sexualidade como uma disciplina? Talvez
essa resposta possa ser encontrada em Foucault (1999,
p. 36), quando lembra que a "disciplina" é
uma das formas de interdição ao discurso
por delimitar seus poderes e os sujeitos que dela podem
falar. Quando define disciplina "... por um domínio
de objetos, um conjunto de métodos, um corpus
de proposições consideradas verdadeiras,
um jogo de regras e de definições, de
técnicas e de instrumentos", Foucault faz
entender que talvez o processo de "disciplinarização"
da sexualidade seja uma maneira anônima e discreta
de censurá-la, pois a disciplina constitui-se
num "princípio de limitação".
Ressalta também, que, no interior de seus limites,
a disciplina define o que é verdade ou não
e repele para fora de si toda uma teratologia do saber.
Isso significa que, através da disciplina, delimitam-se
para o discurso o que pode e o que não pode ser
dito como verdade, quem pode e quem não pode
enunciar esse discurso. Enfim, essa é mais uma
maneira de enquadrar a sexualidade dentro de certos
limites, pois como diz Foucault (1999, p. 36), "A
disciplina é um princípio de controle
da produção do discurso. Ela lhe fixa
os limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma
de uma reatualização permanente das regras".
Nesse entendimento, a sexualidade, ao ser considerada
uma disciplina, torna-se refém dos limites desta.
Talvez
essa visão da Orientação Sexual
ou da sexualidade como uma disciplina seja um legado
dos paradigmas de cientificidade que, apoiados nos pilares
do certo/errado e do falso/verdadeiro, regeram o pensamento
ocidental nos últimos dois séculos. É
mais uma forma de interdição à
sexualidade, conduzindo-a ao discurso disciplinar e
privando-a da liberdade que gozaria fora dele. Nessa
perspectiva, a percepção da sexualidade
como um tema transversal e interdisciplinar anularia
todas as limitações impostas pela disciplina.
Pelo contrário, ao ser vista como disciplina,
a sexualidade será encarada como uma verdade
a ser repassada juntamente com suas regras, limites
e definições. Nesse sentido, no momento
em que ela deixasse de ser "a" disciplina
e seu conteúdo passasse a diluir-se em "todas"
as disciplinas como um tema "transversal",
ela estaria escapando do campo de domínio disciplinar.
Assim, essa visão disciplinar da sexualidade
como uma verdade a ser "ensinada" reflete
o positivismo que deixou marcas profundas no pensamento
ocidental moderno, inclusive no campo da sexualidade.
A
proposta de estudo da sexualidade como tema transversal,
apresentada nos PCN (1998), é uma maneira de
tentar amenizar a visão fragmentada que se tem
do saber e do ser humano. Fugindo dos modelos cartesianos,
que fragmentam o todo em partes para compreender o sistema,
os novos movimentos tendem a considerar o todo em seu
conjunto e não em suas partes separadas, conforme
comenta Moraes:
Sistemas
complexos apresentam interações intensas
entre seus componentes, de modo que o todo é
mais do que a soma de seus elementos constituintes.
O sistema é compreendido muito mais pelas relações
e interações entre seus componentes de
base do que pela natureza destes componentes em si (s/d,
s/p) (grifos meus).
Por
um viés mais holístico que busca um redimensionamento
dos aspectos cognitivos, afetivos e sociais com suas
inter-relações, os novos paradigmas político-pedagógicos
tentam resgatar a dimensão integral do cidadão
(o todo). O projeto de transversalidade situa a sexualidade
como um tema que atravessa todas as áreas do
saber, contextualizando-a e problematizando-a em seus
aspectos biológicos, psicológicos, sociais,
políticos, religiosos, éticos e culturais.
Reduzir
a sexualidade ao biológico, segundo Souza (1993),
é um legado secular que trouxe conseqüências
marcantes em toda a história da humanidade. Já
o oposto, ou seja, a capacidade de associar a cultura
ao biológico, é um traço que caracteriza
a existência humana, diferindo-a de outras espécies
animais.
No
entanto, qualquer proposta de transversalidade deve
ser precedida de uma avaliação abrangente
dos valores, conceitos e visões de mundo que
rondam as representações dos educadores.
É duvidosa a eficácia de projetos que,
por melhor intencionados que sejam, despejam um modelo
pedagógico a ser seguido, sem um prévio
retrato do campo no qual será semeado.
A
proposta dos PCNs (1998), colocando a sexualidade como
tema transversal, é uma maneira de tentar amenizar
a visão segmentária que se tem do saber
e do ser humano.
Buscando
um redimensionamento dos aspectos cognitivos, afetivos
e sociais com suas inter-relações, os
novos paradigmas político-pedagógicos
buscam resgatar a dimensão integral do cidadão
através da cidadania. No entanto, qualquer proposta
de transversalidade necessita ser precedida de uma avaliação
abrangente dos valores, conceitos e visões de
mundo que rondam o imaginário dos educadores.
É duvidosa a eficácia de projetos que,
por melhor intencionados que sejam, despejam um modelo
pedagógico a ser seguido, sem antes se ter "estudado
o terreno" no qual vai ser semeado. O projeto de
transversalidade coloca a sexualidade como um tema a
atravessar todas as áreas do saber, contextualizando-a
e problematizando-a em seus aspectos biológicos,
psicológicos, sociais, políticos, religiosos,
éticos e culturais. Reduzir a sexualidade ao
biológico, segundo Souza (1993), é um
legado secular que trouxe conseqüências marcantes
em toda a história da humanidade. Já o
contrário, ou seja, a capacidade de associar
a cultura ao biológico, é o que caracteriza
a existência humana, diferindo-a de outras espécies
animais.
Considerações
Finais
A
transversalidade proposta pelos PCNs não corresponde
às representações dos educadores
entrevistados os quais mantêm uma concepção
bastante segmentária e reducionista da sexualidade.
A Orientação Sexual escolar é percebida
como um assunto de especialistas que detêm o suposto
saber sobre a sexualidade levando a uma disciplinarização
da mesma e portanto a uma censura sobre o que e quem
pode falar sobre ela. Levando-se em consideração
que a Representação dos educadores, em
última análise, será o fator norteador
da abordagem do tema dentro da escola, a busca pela
cidadania através de uma proposta de transversalidade
precisa ser repensada e recontextualizada, sob pena
de se fazer de uma possível Orientação
Sexual, um (des) serviço social.
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