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Corpo,
afeto, pensamento no ato de aprender |
Elcie
F. Salzano Masini
Doutora em Psicologia (área Educação)
pela PUCSP e Livre Docente em Educação Especial
na USP. Professora da pós - graduação
da Faculdade de Educação da USP. Professora/pesquisadora
do Mestrado em Distúrbios do Desenvolvimento da
Universidade Presbiteriana Mackenzie. e coordenadora do
Curso de pós - graduação lato sensu
em Psicopedagogia.
INTRODUÇÃO
Esta comunicação pode ser vista como relato
de excertos de uma experiência junto à
crianças e jovens em seus Atos de Aprender.
Para abordar este tema vamos nos referir ao ser que
aprende, considerado na singularidade de suas expressões,
gestos, movimentos, interesses, experiências e
dificuldades.
FOCALIZANDO QUESTÕES SOBRE O APRENDER
Em nossa trajetória profissional, foi ficando
cada vez mais claro como era importante estarmos atentos
ao que era pessoal na maneira de adquirir informações:
o que a criança expressava, na aula, no trabalho
individual, nas atividades em grupo, em situações
de solução de problemas. Isso foi reiterando
que o conhecimento se faz e emerge de situações
da vida do dia a dia. e envolve o aspecto conotativo,
aquilo que a criança sente e o aspecto denotativo,
aquilo que a criança apreende e pensa.
A experiência foi contribuindo para por em dúvida
a crença de que se pode ensinar com clareza certo
assunto por meio da simples adequação
de recursos metodológicos e didáticos
e de que seria possível lidar com a cognição
como fator isolado, sem considerar o ambiente cultural
e social do aprendiz. Veio acompanhando essa dúvida
um novo sentido para o que se denomina conhecimento
ou "saber" - o sentido de abrangência
do "saber" que ocorre na totalidade do ser:
em seu corpo (sentidos e percepção); seu
pensamento (conceitos, idéias e a reflexão
sobre o que ocorre consigo mesmo e com o que o cerca);
sua afetividade e valores (culturais e sociais). Foi
se evidenciando, dessa forma, a impossibilidade de se
conceber um "saber" restrito ao aspecto intelectual.
Para acompanhar e compreender o ser humano no seu Ato
de Aprender, nas situações em que está
ampliando o seu "saber" é necessário
pois, percebê-lo na sua totalidade: na maneira
como age, como se expressa, como sente, como pensa.
Isso requer que se entre em contato com seu viver, em
diferentes momentos e situações.
Procuraremos descrever algumas situações
de aprendizagem de crianças para ilustrar o que
ficou dito. Antes porém faremos referência
ao embasamento desta forma de trabalho.
FUNDAMENTOS DESTE ENFOQUE
Merleau-Ponty, sem negar o valor e a contribuição
das ciências introduziu, no início do século
XX questionamentos que levaram as ciências do
homem a novos caminhos.
A característica marcante de seu enfoque está
na ênfase dada ao corpo. O esforço desse
filósofo foi o de mostrar que a relação
no mundo é corporal e sempre significativa. Propôs
que a ciência retornasse ao solo do mundo sensível
como é na própria vida para o próprio
corpo - corpo sentinela silenciosa dos atos e das palavras.
Ao considerar o Sujeito no mundo, como corpo no mundo
- corpo que sente, que sabe, que compreende - Merleau
Ponty assinala a importância de voltar-se para
a experiência original que é pré
- consciente, pré - emocional, pré - categorial.
Afirma então que a experiência perceptiva,
e a síntese perceptiva. se dão no saber
latente que ocorre no corpo próprio(1). Nesse
sentido diz - se que as coisas "se pensam"
em cada Sujeito porque não é um pensar
intelectual, no sentido de funcionamento de um sistema,
mas sim do saber de si ao saber do objeto - ao entrar
em contato com o objeto o Sujeito entra em contato consigo
próprio. Assim falar da percepção
é falar do corpo, pois como afirma Merleau -
Ponty o corpo é o instrumento geral da compreensão,
pelo menos em relação ao mundo percebido
e assinala. "Meu corpo tem seu mundo ou compreende
seu mundo sem precisar passar por 'representações'
(ou imagens), ou subordinar-se a uma 'função
simbólica' ou 'objetivante'". (Merleau Ponty,
1999, p.195).
A experiência perceptiva (que é corporal)
surge da relação dinâmica do corpo
como um sistema de forças do mundo e não
da associação que vem dos órgãos
dos sentidos. Assim o corpo é visto numa totalidade,
na sua estrutura de relação com as coisas
ao seu redor - como uma fonte de sentidos(2), não
como conjunto de órgãos, e o sujeito da
percepção é visto como corpo, não
como consciência(3). "O movimento não
é o pensamento de um movimento, e o espaço
não é um espaço pensado ou representado".(Merleau
Ponty, 1999, p.192). Diz, pois o autor "não
estou no espaço e no tempo, não penso
o espaço e o tempo; eu sou no espaço e
no tempo, meu corpo aplica-se a eles e os abarca"
(Merleau Ponty, 1999, p.195), em vez de dizer o corpo
está no espaço.
"O corpo é eminentemente um espaço
expressivo/.../não é apenas um espaço
expressivo entre todos os outros... é a origem
de todos os outros o próprio momento de expressão,
aquilo que projeta as significações no
exterior dando-lhes um lugar, aquilo que faz que comecem
a existir como coisas /.../ o corpo é o nosso
meio geral de ter um mundo " (Merleau Ponty, 1999,
pp.202, 203).
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(1) corpo próprio expressão usada para
referir-se à experiência corporal própria
de cada pessoa
(2) sentido entendido como significação
da relação do Sujeito no mundo, Sujeito
sempre orientado no seu agir
(3) consciência da qual provém o conhecimento
e que é separada da experiência vivida
Cada um de nós está cercado de objetos
que têm a marca humana e que constituem os objetos
culturais. O primeiro objeto cultural é o corpo
do outro como portador de uma experiência humana,
o lugar de uma certa elaboração, de um
certo horizonte. Através de seu corpo vivo, que
tem a mesma estrutura do meu, sei que e como o outro
se serve de objetos familiares de um mesmo mundo físico
e cultural. Um objeto cultural que tem papel importante
na relação com o outro é a linguagem.
Na experiência do diálogo, quando se parte
da experiência perceptiva, onde se fala da imersão
do sujeito no mundo, de tal sorte que a ação
surge sempre como um movimento significativo e intencional
num campo de articulação de sentido, cada
um libera os pensamentos do outro, trazendo nova dimensão
a esse pensamento.
Merleau - Ponty mostra que é necessário
sentir de alguma forma para poder pensar e que todo
pensamento advém de uma carne e, dessa forma,
o mundo percebido vai se delineando nas trajetórias
do corpo.
Para acompanhar o ser humano no seu Ato de Aprender,
ou seja, em situações em que amplia o
seu "saber" ou conhecimento o caminho inspirado
nas idéias de Merleau - Ponty é de estar
atento às suas manifestações corporais
e partir das suas percepções para compreender
o seu universo do saber.
O
ATO DE APRENDER - ALGUMAS SITUAÇÕES ILUSTRATIVAS
Área de Comunicação e Expressão
- 3a série - Ensino fundamental de Escola Estadual(4)
Várias atividades foram realizadas com o objetivo
de facilitar o processo de expressão e de comunicação
oral e escrita: a) Atividades de comunicação
oral e passagem para a comunicação escrita;
b) Troca de correspondência entre classes; c)
Interpretação de
textos; d) Produção de texto individual.
Exemplo - Troca de correspondência do aluno da
classe B para os alunos da classe A
Meu nome é F. B.
Era uma Sexta feira que eu fui para o sítio o
primo da minha avó
o sítio
se chamava Jaú.
Lá eu fui no galinheiro e quebrei o ovo da galinha.
A galinha me bicou e eu chorei minha avó me bateu
e eu nem
chorei
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(4) pesquisa realizada na Faculdade de Educação
da USP, financiada pela FAPESP "Aprendizagem
significativa em alunos de 3o série do 1o grau,
nas áreas de matemática e de comunicação
e expressão" -
1990 /1991". MASINI , E.F.S. (pesquisadora) SANTOS,
E. M. & SHIRAHIGE, E.E. (auxiliares de
pesquisa. - publicada em MASINI (2002)
Fui tomar café e depois fui brincar.
pasou o dia e chegou a noite.
Fui dormir e acordei o galo não parava de cantar.
Depois fui para casa de minha tia.
Fui para a pisina e depois fui embora para minha casa.
Segundo as professoras que participaram dessa atividade
os alunos "não queriam mais parar de escrever".
Algumas condições oferecidas que contribuíram
para isso:
a) o tema sugerido era relacionado a vivências,
propiciando relatos pessoais e porisso significativo
para os alunos, ultrapassando os muros da escola;
b) como o narrador era um aluno que se dirigia aos colegas,
mobilizava muito as crianças e clareava e ampliava
o significado da escrita como meio de comunicação
e expressão;
c) o interesse tanto pelo que era lido como para enviar
bilhetes era enorme pois os alunos manifestavam desejo
de conhecer os colegas, curiosidade em saber mais, além
de lembrar dos conteúdos relatados por diversos
colegas
Área de Matemática - 3asérie -
Ensino fundamental de Escola Estadual(4)
Ë muito comum alunos lidarem no cotidiano com situações
problema, efetuando operações mentalmente
e transações com dinheiro, mas apresentando
dificuldades em explicitar seu raciocínio e resolver
problemas de matemática em aula.
As professoras decidiram partir dessa vivência
do aluno e daquilo que já sabiam como condição
para que os alunos fizessem a relação
entre o conteúdo formal ensinado e aquelas atividades
de matemática de seu cotidiano, para que compreendessem
que a escola oferecia recursos para que fizessem por
escrito o que faziam mentalmente ao comprarem
chocolates, dividirem bolas de gude, trocarem e dividirem
figurinhas de seu álbum. Entre as atividades
desenvolvidas foi realizada a montagem de um super mercado,
envolvendo o processo de compra e venda e a elaboração
individual de um problema.
A
professora A sugeria à classe que aproveitasse
situações ocorridas em sala de aula ou
em casa para a elaboração de problemas,
tornando assim viva a proposta para os alunos.
Exemplo - Problema elaborado por um dos alunos da professora
A
Um dia, eu L., quebrei o tubinho de F. Dei pra ele 50,00
cruzeiros. Ele comprou o tubinho e sobrou 5,00. Qual
o preço do tubinho?
SM Operação
50,00 - 5,00 = 50,00
-5,00
______
45,00
L. aproveitou um fato ocorrido na sala de aula. A linguagem
utilizada mostrou que a elaboração do
enunciado foi do próprio aluno que queria saber
quanto gastou na reposição do material
danificado.
Tendo a classe vivido a situação e as
discussões entre os envolvidos e o encaminhamento
dado pela professora, isso facilitou a resolução
do problema. Todos os alunos acertaram.
Atendimento de aluno deficiente visual - LIDE/ USP(5)
Exemplo Dificuldade na área da matemática
R., aluno cego, trocava unidades por dezenas respondendo
: " Não sei.", quando indagado sobre
a troca entre as unidades e a barrinha de dez no material
dourado. Não conseguia fazer a conta para saber
o valor total de quatro objetos adquiridos cada um valendo
5 reais.
A professora da classe comum comentou com V. (professora
especializada que o atendia) que R. tinha dificuldade
em solucionar as situações problema nas
aulas de matemática por não conseguir
lê-las, mas realizava as operações
de adição com tranqüilidade
Vera procurou atividades novas, para re introduzir operações
com números.
Inicialmente esteve atenta à deficiência
visual de R. oferecendo materiais/recursos necessários
para facilitar o seu aprendizado, através do
tato.
Buscou coisas que R. gostasse e introduziu assuntos
do cotidiano de R., montando situações-
problemas para ele resolver com o nome de seus amigos
e familiares.
Ensinou 'multiplicação' com o material
dourado, propondo um jogo de trocas com o aluno, que
evidenciou melhora na compreensão do material
dourado de uma semana para a outra.
Exemplo Dificuldade em lidar com as próprias
condições para aprender. LIDE/ USP(5)
K., aluna com baixa visão, apresentou-se sempre
bem humorada, parecendo gostar das atividades e sorrindo
fosse qual fosse a situação: para responder
a questões da escola, de sua vida cotidiana,
sobre si mesma., ou sobre o uso de recursos ópticos.
Apresentava baixa discriminação visual
abaixando a cabeça, com os olhos bem próximos
do papel para escrever; e fazia uso de caderno de pauta
ampliada. A professora mostrou estar atenta à
deficiência visual de K., percebendo que ela não
utilizava recursos ópticos para auxiliar a sua
aprendizagem. Voltou-se para a aluna com interesse buscando
o que K. gostava para introduzir nas atividades, bem
como procurando verificar
___________________________________________________________
(5) Pesquisa Integrada do Laboratório Interunidades
de Estudos sobre as Deficiências (LIDE/USP) com
apoio do CNPq - de 1998 a 2000 - Um modelo de atendimento
integral à Criança Deficiente Visual com
Problemas de Aprendizagem .ASPECTO AFETIVO: AMIRALIAN,
M.L. (coordenadora); VILLELA, E .
OKA, C. M. ; SANCHEZ, T M. AZEVEDO, S., R. ASPECTO PEDAGÓGICO:
MASINI E.F.S. (coordenadora);
CARVALHO, T.; GUIMARÃES, V.; GIACOMINI, L.; ROSA,
D.
quais eram suas dificuldades e incentivando-a a fazer
uso de recursos para deficientes visuais.
K. evidenciou de diferentes formas resistência
em fazer uso de recursos para deficiência visual
e quando interrogada sobre os óculos, respondia
que viria com eles no próximo atendimento. Devido
a essa atitude de não aceitar os recursos necessários
para ver melhor e talvez porque tudo fosse ditado e
ela não visse o modelo apresentou várias
dificuldades para ler e escrever, tais como: uso de
letra inicial maiúscula; dificuldade de pontuação
e acentuação; erros de ortografia; falta
de letras as palavras/; letra maiúscula no meio
da frase). Seu maior ganho no atendimento foi ter aprendido
a usar o dicionário. Revelou beneficiar-se com
o uso da lupa para ler, no dicionário, o significado
de palavras. Continuou apresentando dificuldade para
ler o mini dicionário Melhoramentos, mesmo usando
lupa, mas conseguia ler o dicionário do MEC sem
muita dificuldade, com auxílio da lupa.
Faltou muito nos atendimentos, embora, K. e a família
fossem constantemente advertidas da necessidade de que
ela fosse mais freqüente, contudo não se
obteve qualquer mudança nessa atitude e porisso
nenhum progresso no Ato de Aprender de K.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O EXPOSTO
A ação da professora junto ao aprendiz,
nas situações ilustradas evidenciou que
quando ela buscou a totalidade do que se passava na
vivência (nas relações, na gestualidade,
na entonação, atenta à individualidade
de seu aluno) houve participação, elaboração,
transformações, naquilo que a criança
manifestava. Nessa ação a professora pode
compreender o aprendiz ao retomar o conjunto de suas
ações, buscando o sentido gestual ou verbal
do que manifestava na situação, na maneira
que usava seu corpo e na relação que estabelecia
com os objetos e com as pessoas..
Os casos relatados evidenciaram que quando os alunos
encontraram condições para se expressarem
numa linguagem própria, tornaram-se criativos
e encontraram muitos recursos para lidar com os desafios
das atividades dadas pela professora.
A análise desses exemplos citados permite afirmar
que as condições oferecidas pelas professoras
que propiciaram expressividade, espontaneidade e aprendizagem
do aluno foram de situações em que os
alunos puderam trazer suas experiências vividas
(fatos de suas vidas e objetos nelas incorporados, brincadeiras
com amigos, hábitos da casa e daqueles com quem
conviviam) e a professora pode aproveitá-las.
Nesses momentos o conhecimento do dia a dia constituiu
base para o conhecimento adquirido na escola - houve
interação, transformação
e surgiu uma nova unidade que ampliou os conhecimentos
anteriores, enriquecendo- o.
Ao retomar situações nas quais a criança
se sentia familiarizada e nas quais se sentia segura,
a professora mostrou-se atenta ouvindo-a, afinada com
aquilo que ela expressava corporalmente e verbalmente
podendo assim auxilia-la a compreender e organizar as
novas informações na sua forma própria
de pensar.
BIBLIOGRAFIA
MASINI, E.F.S. O perceber e o relacionar-se do deficiente
visual - orientando professores especializados. Brasília::
CORDE, 1994
(org.) Psicopedagogia na Escola - buscando condições
para a aprendizagem Significativa. São Paulo:
Loyola/EdiMarco, 2002- 3a edição
Aprendizagem Totalizante São Paulo Memnon Edições
Científicas, 1999
A experiência perceptiva, o corpo e a pessoa deficiente
visual Cadernos de Psicologia n0 1 ( 1996)/ Sociedade
Brasileira de Psicologia. Ribeirão Preto: A Sociedade,
1995
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção.
São Paulo: Martins Fontes, 1999 (obra original
em Francês, 1945)
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