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Desenvolvendo
o "Espaço Potencial" nas dificuldades
de aprendizagem |
Elizabeth Polity
Doutora em Psicologia, Mestre em Educação,
Psicopedagoga, Terapeuta Familiar e de Casal, Diretora
da Associação Paulista de Terapia Familiar
(APTF), Coordenadora do Centro de Orientação
e Aconselhamento Familiar e Escolar (CEOAFE), Professora
dos Sistemas Humanos.
Diretora do Colégio Winnicott - Al. Campinas, 1111,
fone/fax: 884-3765 SP
Autora dos Livros:
" Ensinando a ensinar - Ed. Lemos, 1997. 2aEdição,
Ed. Vetor, 2003
" Psicopedagogia - um enfoque sistêmico: Terapia
Familiar nas dificuldades de aprendizagem - (org.)Empório
do Livro, 1998
" Dificuldade de Aprendizagem e Família: construindo
novas narrativas. Ed. Vetor, 2001
" Dificuldade de ensinagem. Que história é
essa...? Ed Vetor, 2002
" Co- autora: Psicopedagogia : um portal para a Inserção
Social, Vozes, 2003
" Co-autora: Psicopedagogia: diversas faces, múltiplos
olhares. Olho d'agua/ Psicopedagogia on line, 2003
1. Introdução
A este artigo interessa observar o espaço que se
cria nos encontros terapêuticos e que possibilitam
o desenvolvimento das capacidades de aprendizagem, tanto
do cliente como do terapeuta.
Sobre o espaço potencial Winnicott afirma: "O
brincar tem lugar no espaço potencial entre o bebê
e a figura materna. Brincar desenvolve-se no espaço
potencial de acordo com a oportunidade que o bebê
tem de experenciar separação sem separação,
e sua iniciação está associada com
a experiência do bebê em desenvolver confiança
na figura da mãe" (WINNICOTT, in ABRAM, p.226).
Segundo o autor, quando o bebê pode "criar
a figura da mãe", estabelece-se a experiência
de ilusão. Desta experiência inicial de onipotência,
surge o espaço potencial, que seria a "área
de subjetividade" entre o bebê e a mãe,
que emerge durante a fase de repúdio do objeto
"não-eu". "A característica
específica deste lugar em que se inscrevem o jogo
e a experiência cultural é a seguinte: a
existência deste lugar depende da experiência
da vida e não das tendência herdadas"
(WINNICOTT, 1967, p. 45).
Não é um espaço transcendental nem
instintivo a partir do qual compreendemos o mundo, mas
um espaço co-construído juntamente com a
nossa compreensão do mundo. Essa incorporação
não é automática, mas gradual e deliberada,
e provém de experiências vitais como a aprendizagem,
como os exemplos e as relações intersubjetivas,
que vão se configurando segundo a metodologia de
um jogo. É a área importante da experiência
"entre o indivíduo e o meio, esse espaço
que no começo une e separa o filho e mãe,
quando o amor da mãe que se revela e se manifesta
pela comunicação de um sentimento de segurança,
outorga de fato à criança um sentimento
de confiança no meio" (idem).
Entendo ser importante perceber que é a figura
mediadora (a mãe ou sua substituta), uma figura
metapessoal, quem simboliza e introduz seu assentamento,
não apenas biológico, mas humano no mundo.
Pode-se pensar, então, em união e separação.
Processos que serão a base para a confiança,
e para o desenvolvimento do amor-próprio, da autonomia.
Processos que, quando não estiveram presentes nas
primeiras fases da vida, serão muitas vezes, buscados
incessantemente em trabalhos terapêuticos: o resgate
do pertencimento, do movimento de aproximação,
da busca de sentido para a ação.
2. Construindo um Espaço Potencial
Tenho como objetivo deste artigo tecer algumas considerações
sobre a criação do espaço potencial,
enfocando primeiramente a relação mãe-bebê
e, posteriormente, estender este conceito no contexto
terapêutico, no trato com a queixa de dificuldade
de aprendizagem. Para tanto, pretendo trazer minha experiência
clínica em atendimento familiar para identificar
a construção de um espaço (que eu
nomeio potencial) que abrigou clientes e terapeuta.
Dentre tantos conceitos propostos por Winnicott, volto
minha atenção para o assunto que privilegia
a relação do sujeito com o contexto em que
ele vive. Penso que isto se deva à minha formação
em terapia familiar de abordagem sistêmica e também
ao fato de eu pensar o sujeito da aprendizagem sempre
em relação com o outro. Como afirma Safra:
"ocupar um lugar no mundo é ocupar um lugar
na vida do outro" (SAFRA, 2000, p. 80).
Segundo BOGOMOLETZ (1995):
"...para a existência de um espaço potencial
é preciso antes de tudo que exista a possibilidade
de se perceber esse outro como alguém distinto
e separado de nós. Conforme sabemos, na díade,
ou na relação simbiótica não
há um 'primeiro' e um 'segundo'. As duas partes
da relação não se percebem como indivíduos,
como entidades separadas, como pessoas inteiras. Neste
tipo de configuração humana percebe-se duas
pessoas (do ponto de vista do observador, como diria Winnicott)
que não se percebem duas pessoas, e sim uma espécie
de gêmeos siameses, entre as quais existe um istmo
invisível, como se fosse um cordão umbilical
fantasma, que as une e as impede de existirem independentes
(fisicamente) uma da outra. Esta condição
'física' torna-as psicologicamente inseparáveis,
fusionadas e portanto inexistentes enquanto unidades individuais.
'Individual', nesse caso, é a díade, indivisível
e indissolúvel".
Winnicott explica:
"A fase da fusão tem duas etapas. A primeira,
do narcisismo primário ou da dependência
absoluta. Não há 'outro' nessa fase, nem
mesmo esse semi-outro que é a própria mãe.
A mãe só se torna 'ela' na segunda fase,
que ele chama de 'ruthlessness', ou da dependência
relativa, na qual não há compaixão
nem há empatia, na qual há ainda fusão
e a qual se situa a meio caminho entre o narcisismo primário
(ou absoluto) e a fase do 'concern', em que há
compaixão, há empatia, e o 'outro' começa
a ser aceito de bom grado, se todo o processo anterior
transcorreu favoravelmente" (WINNICOTT, 1967, p.
65).
Essa fase intermediária é aquela em que
surge uma incipiente consciência do "eu",
e também de tudo aquilo que "não é
eu". Nessa fase, o "não-eu" não
é tolerado porque o bebê ainda vive a ilusão
de onipotência, ainda não passou pela desilusão
em relação à existência prévia
do mundo, e qualquer coisa que não pareça
fruto da sua criatividade é percebida como uma
coisa intrusa e intolerável.
Parafraseando BOGOMOLETZ, a maior parte das mães
inicia o seu processo de gestação na condição
de unidade: mãe-embrião e depois mãe-feto.
Para ela, a percepção de que a mãe
e o bebê constituem um ser único e indivisível,
somente pode ser empregado a partir de um certo momento
no processo de desenvolvimento da criança.
Para a mãe considerada "normal" há
um momento, cedo ou tarde, em que o filho não é
mais visto como uma parte dela mesma, mas não é
fácil dizer que essa percepção algum
dia possa se completar inteiramente. O fato é que
a mãe considerada "normal" é aquela
na qual percebemos uma consciência não muito
atormentada de que há um mínimo de "in-dependência"
entre ela e o filho.
Numa segunda fase, podemos falar de díade propriamente
dita, pois há duas pessoas que se percebem como
uma só. Isto a partir da situação
anterior, em que uma das pessoas (o bebê) nada podia
perceber. Mas agora o bebê percebe, e vai relutar
muito até aceitar, se tudo correr bem, como diz
Winnicott, que aqui há duas pessoas, e não
uma. E vai fazer o possível para que tudo continue
como antes, pois a mudança lhe parece forçosamente
assustadora. Crescer e aprender podem ser muito ameaçadores
para algumas crianças.
É a paciência da mãe, diz Winnicott,
que permite ao bebê ir aceitando o inevitável.
E o inevitável é a percepção
de que há duas pessoas, não duas metades
que formam um todo.
Neste momento, o que importa é dizer que a passagem
da fusão para a dependência mínima
é a passagem do estado de natureza para o estado
da cultura, é a aceitação (pelo bebê)
da mãe e, posteriormente, dos demais como pessoas
por direito próprio. É o surgimento de um
"eu" que se relaciona com o "não
eu", em vez de combatê-lo; é a derrota
da onipotência como instrumento de administração
do mundo, embora não como instrumento de aperfeiçoamento
desse mundo; é o início do ser propriamente
humano, com toda a dignidade e todo o risco que isto implica.
Cria-se então a possibilidade de um espaço
potencial.
Parafraseando Safra (opus cit.), é no espaço
potencial que o sujeito pode completar o processo de construção
de seu self. À medida que interage com o outro
- a mãe, primeiramente; mais tarde, o professor,
o amigo, o terapeuta - pode entrar em contato com diversas
subjetividades através de manifestações
culturais como a música, o texto, o diálogo,
enfim, a presença humana que o enriquece e complementa.
3. "...É uma alegria estar escondido, mas
um desastre não ser encontrado..." (WINNICOTT,
1967)
Todos nós sabemos como é gostoso brincar
de esconde-esconde. Quando crianças, tentávamos
encontrar o melhor lugar para que ninguém nos achasse
e, assim, nos sentíamos vitoriosos e espertos.
Mas, e se a brincadeira prosseguisse e ninguém
nos tivesse achado e, pior, nem tivessem sentido nossa
falta! Aí sim, seria um desastre. Parece que esperteza
e astúcia têm limites. É bom podermos
nos diferenciar - achar um lugar bem difícil para
se esconder - mas, se por causa dessa diferença,
formos excluídos, aí a tristeza e o desamparo
abatem-se sobre nós.
Nesta frase de Winnicott encontram-se os dois aspectos
fundamentais para a realização pessoal:
o registro do singular e do coletivo. Na ausência
de um dos pólos, há um sofrimento e uma
experiência de não realização
do self.
Com muito interesse pela psicanálise, foi a partir
dos textos de Winnicott que pude começar a articular
a teoria psicanalítica com conceitos relacionais.
Desta combinação nasceu a possibilidade
de perceber, na obra do autor, idéias que enfatizam
ao que é construído "na relação"
com o meio, com a cultura, com o mundo. E é dentro
desta perspectiva que se encaixa o conceito de espaço
potencial.
Uma das idéias centrais no esquema do desenvolvimento
proposto por Winnicott é a de que a mãe
precisa, com o tempo, ir diminuindo o grau de sua adaptação
às necessidades iniciais do bebê. De um certo
momento em diante, é preciso que ela permita ao
bebê vivenciar pequenas frustrações,
pois esta será a única maneira de ele desenvolver
um contato com o mundo, em que terá de viver, que
não se caracterize por hostilidade e receio.
Winnicott acentua a idéia de que esse processo
de tolerância crescente à frustração
só pode ocorrer quando houve anteriormente uma
quantidade suficiente de ilusão - a ilusão
de onipotência. Então nos vemos ante o paradoxo
segundo o qual a aceitação da realidade
depende essencialmente de uma prévia falta de percepção
dessa mesma realidade. Assim sendo, não há
porque espantar-se com a idéia de que, a partir
de Winnicott, os assuntos humanos talvez devam ser entendidos
segundo a lógica paradoxal, e não mais segundo
a lógica linear.
A saída da onipotência deve ser feita pela
via da empatia recíproca. No contexto terapêutico,
esta será a condição para que se
criar o espaço potencial.
Penso que com esta referência podemos descrever
o sofrimento que alguns pacientes apresentam: o desamparo
resultante de uma saída rápida demais do
universo da fusão, ou o desamparo resultante de
uma permanência demasiadamente longa dentro dele
o que, por simetria, causa o mesmo estrago. Tanto a mãe
que não percebe o desamparo do bebê e deixa
que o mundo o invada, quanto a mãe que não
percebe o crescimento do bebê e o afoga em seu amparo,
roubando-lhe o acesso ao mundo, ambas fazem a mesma coisa:
deixam de perceber o bebê.
No processo de terapia temos (pelo menos) duas pessoas
envolvidas que, no brincar, percebem-se mutuamente. Winnicott
fala: "A psicoterapia tem lugar no encontro de duas
áreas do brincar: uma do paciente, outra do terapeuta.
A psicoterapia acontece quando duas pessoas brincam juntas.
O corolário desta afirmação é
que aonde não pode acontecer o brincar, o trabalho
do terapeuta será o de trazer o paciente de um
estágio onde o brincar não é possível
para um estágio onde o brincar torne-se possível".
(WINNICOTT, in ABRAM, p.228)
Voltando ao início deste tópico e pensando
na frase de Winnicott, percebemos que na brincadeira podemos
re-significar o que é estar escondido - valorização
das competências individuais, autonomia, independência
- e o que é ser encontrado (ou não) - fazer
parte do coletivo, sentir-se pertencendo, compartilhar
experiências humanas - e perceber que é no
equilíbrio dessas duas posições que
se caminha rumo ao desenvolvimento e à aprendizagem.
Relatarei a seguir o atendimento de uma família,
visando demonstrar como através da criação
de um espaço potencial - onde o brincar teve lugar
- foi possível a seus membros resgatar a aprendizagem
por meio da criatividade e da capacidade de resolução
de conflitos. 4.
Tempo de brincar/ de criar/ de despertar...
A., um rapaz de 15 anos, vem à terapia trazido
pelos pais. A queixa central é de dificuldade de
aprendizagem e envolvimento com drogas. Bem vestido e
bem arrumado não lembra, nem pela aparência,
nem pelas atitudes, um drogadicto.
Seus pais dizem não entender o que se passou com
o filho, que sempre fora um ótimo estudante e muito
responsável em casa. Cursou até a 2º
série do Ensino Médio. Ao se aproximar do
fim do curso, ele parecia estar desmotivado e sem condições
de prosseguir. A escola os chamou para informar que A.
apresentava dificuldades de atenção, de
concentração, de organização
para tarefas sistematizadas, o que o deixava impossibilitado
de acompanhar o ritmo dos colegas. Decidiram então
que seria melhor tirá-lo do colégio. Neste
momento, o rapaz afirma querer ajuda e estar disposto
a retomar sua vida.
Provenientes de famílias humildes de origem judaica,
os pais tiveram de trabalhar muito para conquistar uma
estabilidade econômica e poder mandar A. para o
colégio. A história da família R.
é muito rica e repleta de situações
interessantes. Entretanto, para não fugir ao escopo
deste trabalho, focalizarei, apenas, o que eu entendo
pela construção de um espaço potencial
entre a família e a terapeuta.
De início, peço à família
que me conte um pouco de sua história. Os pais
falam dos avós, que vieram ao Brasil foragidos
durante a 2a Guerra, e das dificuldades que aqui enfrentaram.
Fico sabendo que apenas a avó materna ainda vive
e que mora no interior do Estado. Incentivo-os a falarem
de suas famílias de origem, de seus hábitos
e costumes. Percebo que existem muitas histórias
carregadas de emoção e tristeza que cercam
os primeiros anos da família no Brasil. Percebo,
ainda, que alguns assuntos parecem proibidos de serem
mencionados. Não é uma proibição
explícita, mas o assunto é desviado a cada
vez que falamos; por exemplo, tudo o que se relaciona
ao avô paterno.
Depois de alguns atendimentos centrados em construções
de narrativas, começo a perceber que estamos dando
voltas em torno dos mesmos pontos e vou me sentindo como
que paralisada pelo sistema. Aprendi, em decorrência
de minha experiência, que nestes momentos, o uso
de outros recursos, que não o puramente verbal,
podem ser de grande ajuda. Proponho, então, o início
do que eu mais tarde chamei de fase de jogos: atendimentos
onde começamos a jogar WAR.
Tanto os pais, como A., tinham um bom conhecimento de
geografia e eles sentiam-se animados em me dar aulas e
me contar os hábitos e os costumes de lugares que
eu desconhecia. Nestas ocasiões, eram trazidos
também assuntos pessoais e eu podia observar a
hierarquia, as coalizões e as lealdades entre os
três. Num desses encontros, fiquei sabendo que o
avô paterno morrera dois dias antes do nascimento
de A. Nesta mesma ocasião, ele falou, pela primeira
vez, que se sentia muito pouco à vontade com o
pai toda vez que falavam no avô. A mãe começa
a chorar e diz que já era hora de terem esta conversa.
O pai, visivelmente contrariado, inicia o relato contando
que o avô se suicidara pouco antes de A. nascer.
Com esta revelação, muitos assuntos são
trazidos à tona e tenho a oportunidade de perceber
o lugar que fora designado a A., cujo nome herdara do
avô morto.
É importante lembrar que neste contexto cultural,
dar o nome de um antepassado a uma criança é
a forma de homenageá-lo e expressar reconhecimento.
Mas, neste caso, a nomeação trazia igualmente
muita mágoa e ressentimento. Não vou me
estender aqui sobre o fantasma do suicídio que
assombra a família. Só não posso
deixar de mencionar a enorme carga que um filho carrega
quando deve ocupar concomitantemente o lugar do reparador
(pelo suicídio) e do morto.
O avô de A. era, segundo o pai, um homem muito inteligente
e bem sucedido, que havia sido arrancado de seu meio pela
eclosão da guerra. Valorizava muitos os estudos
e não se conformara em deixar suas propriedades
para fugir. Nunca aceitara a situação e,
tendo ficado cada vez mais isolado, acabou pondo fim à
própria vida.
Deste avô, A. sabia apenas que fora uma pessoa muito
esforçada, mas, conforme afirmou, sua fantasia
era de que ele morrera louco. Nunca teve coragem de perguntar
ao pai, mas disse sentir-se com medo de também
acabar assim pois pensava que essa loucura poderia ser
hereditária.
Apesar de todo caminho já percorrido, eu buscava
ainda entender, entre outras coisas, qual o sentido das
drogas na vida de A. e como foi o processo de abandono
dos estudos. Parecia-me que ele respondia a duas demandas
paradoxais da família: ser bem sucedido e correr
o risco de se matar X ser um fracassado e permanecer vivo.
A partir daí, fizemos um trabalho com fotos e foi
possível para a família resgatar muitas
histórias que estavam enterradas juntamente com
a memória deste avô. Aspectos culturais importantes
e suas repercussões para a vida da família
foram revistos. Pudemos, enfim, focar na vida atual de
A. e suas possibilidades de reintegração
social. O paradoxo pôde ser nomeado e finalmente
entendido.
Em muitos outros encontros voltamos a jogar. Certa vez,
o pai de A. mencionou que este espaço da terapia
era o único lugar onde ele se sentia à vontade
por não precisar representar nenhum papel: neste
lugar ele podia ser ele mesmo. Penso que neste momento
ele se referia ao espaço que fora criado entre
a família e a terapeuta, onde havia confiança,
tolerância, continência, possibilidade de
crescimento. Penso que ele se referia ao espaço
potencial.
Winnicott afirma que o tempo da terapia deve ser aquele
que permita ao paciente experimentar confiança
e que, posteriormente, o encoraje à separação
e à autonomia. "Como o bebê com sua
mãe, o paciente não pode tornar-se autônomo,
exceto em conjunto com seu terapeuta, que deve estar pronto
para deixá-lo partir..." (WINICOTT, in ABRAM,
p. 324).
O espaço potencial, criado entre o sistema familiar
e o terapêutico, propiciou um continente seguro
para o brincar, para a criação de símbolos
e significados que fizessem sentido para o cliente e seu
grupo familiar e, ainda, para que os legados de sua cultura
pudessem ser introduzidos como elementos enriquecedores
da compreensão da dinâmica familiar.
Junto com essas mudanças, puderam ser observadas
alterações no desempenho escolar de A.,
que voltou a estudar, encontrando prazer em se aproximar
do conhecimento. Ao se libertar dos segredos e mandatos
familiares pôde superar suas dificuldades de aprendizagem
e compreender o que nomeamos "função
protetora do sintoma" (POLITY, 2001).
Gostaria de finalizar este artigo, lembrando que entendo
a função terapêutica como facilitadora
para a resolução de conflitos, mobilizando
a família a encontrar seus próprios recursos
para fazê-lo. . E, como agente facilitador, o terapeuta
busca a criação de um espaço onde
as potencialidades possam ser realizadas. Segundo Winnicott,
espaço de brincar, de criar, de despertar para
a vida.
O enfoque psicanalítico de orientação
winnicottiana não nos impede de pensarmos a família
como um sistema de múltiplas interações.
Ao contrário, esse enfoque, no meu entender, dá
ênfase ao relacional e à importância
do meio no desenvolvimento do ser humano.
Se pensarmos que um membro da família apresenta
algum problema por viver em um determinado contexto familiar,
podemos considerar que este contexto, por sua vez, está
sendo constituído pela conduta deste indivíduo.
Perguntar onde termina uma ação e onde começa
outra é como tentar determinar onde termina a praia
e onde começa o mar.
O que pude observar, dentro dessa experiência terapêutica,
é que quando foi criado um espaço para as
questões serem recriadas e recontadas, a família
foi capaz de fazer uso de instrumentos internos e relacionais
que os permitiram lidar melhor com as dificuldades. Esse
espaço permitiu, ainda, trabalharmos com a queixa
inicial na área da aprendizagem e "re-significá-la"
para este sistema.
Talvez possamos nos inspirar nas palavras do poeta Carlos
Drummond de Andrade para tentar compreender algumas das
questões familiares:
"Vou dobrar-me
À regra nova de viver
Ser outro que não eu até agora
Musicalmente agasalhado
Na voz de minha mãe, que cura doenças,
Escorado
No bronze de meu pai, que afasta os raios
Ou vou ser - talvez isso apenas - apenas eu
Unicamente eu, a revelar-me
Na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha
O canivete desta descoberta:
Eu não quero ser eu, prefiro continuar
Objeto de família"
5. BIBLIOGRAFIA
ABRAM, J., The language of Winnicott, Jason Aronso Inc.,
New Jersey, London, 1997.
BOGOMOLETZ, D., Considerações sobre o espaço
potencial, artigo publicado no site www.dwwinnicott.com.br,
(1995 orig.), 1999.
POLITY, E., Dificuldades de Aprendizagem e Família:
construindo novas narrativas, São Paulo, Ed. Vetor,
2001.
SAFRA, G., A face estética do self, São
Paulo, Ed. São Marcos, 2000.
WINNICOTT, D., Da Pediatria à Psicanálise,
Rio de Janeiro, Ed. Imago,1965.
WINNICOTT, D, O Brincar e a Realidade, Rio de Janeiro,
Ed. Imago,1967. |
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