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::. Educação, psicanálise e cultura
Profª. Marilene Lima
Psicóloga - CRP n.º 06/68588
Mestre em Educação: História, Política, Sociedade (PUC-SP)
Assessora e Consultora Pedagógica em
instituições de ensino e do terceiro setor. São Paulo/SP.
E-mail: mali@estadao.com.br
home page: www.edukaleidos.pro.br

Psicanálise e Cultura

"Um bebê sem outros humanos é algo tão impensável como peixes sem água,
como uma planta sem terra nem sol."
Luca Rischbieter

A psicanálise, disciplina fundada por Freud (1856-1939) - que abrange um conjunto de técnicas de investigação, método psicoterapêutico e teorias psicológicas e psicopatológicas - dá ênfase ao sujeito. Para a psicanálise o que nos diferencia dos animais é o fato de sermos sujeito, não por conta da racionalidade pura e simplesmente, mas pelo exercício da razão e é a linguagem o principal produto da razão.
O que a psicanálise analisa é o sujeito psíquico: aquele que atribui significado a seu corpo e a seus órgãos, a depender de suas representações a respeito de si. Toda função depende do sujeito. Freud diferencia o nascimento orgânico do nascimento psíquico, o qual se inicia desde a fase intra-uterina. É na capacidade de antecipação - capacidade altamente abstrata - do papel daquele que nascerá, que a família - mais especificamente a mãe - inicia o processo de constituição do sujeito.
Um bebê humano não se torna humano longe de seus pares e longe da linguagem (principal produto do exercício da razão). Longe desse universo ele será potencialmente humano, mas, só será realmente humano quando estiver em contato com os seus e com a linguagem. Nomear, uma das primeiras habilidades do ser humano, é manter sobre aquilo que se nomeia um controle psíquico(1).
O homem, diferentemente do animal, tem não somente memória de reconhecimento, mas também de evocação. Evoca lembranças o tempo todo, o que explica, por exemplo, suas oscilações de humor, as quais estão muito mais relacionadas com a vida psíquica do que com as situações "reais" da experiência humana. As lembranças podem ser de vários tipos: de suas tradições, de seu povo, de sua gente, de suas "teorias-avós", enfim, de sua vida social, visto que somos a soma de muitos dos que passaram por nós. Somos seres culturalmente determinados e determinantes, posto que somos constituintes de uma civilização.
Freud (1997, p.10, 25-26) definiu definiu civilização como sendo conceito correlato à cultura: é a expressão pela qual se quer significar tudo aquilo em que a vida humana se elevou e difere de sua condição animal.
É verdade que a natureza não exigiria de nós quaisquer restrições dos instintos, deixar-nos-ia proceder como bem quiséssemos; contudo ela possui seu próprio método, particularmente eficiente de nos coibir. (...) Foi precisamente por causa dos perigos com que a natureza nos ameaça que nos reunimos e criamos a civilização, a qual também, entre outras coisas, se destina a tornar possível nossa vida comunal, pois a principal missão da civilização, sua raiosn d' être real, é nos defender contra a natureza.

A civilização tem de ser dirigida contra o indivíduo e seus regulamentos. Instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa, visando, assim, a distribuir a riqueza e a manter essa distribuição, tarefa esta que protege a civilização contra os impulsos hostis dos homens. As emoções são refreadas e a idéia reinante é a de que à medida que a civilidade do homem aumente, seu domínio das emoções também aumente.
Num alto grau de entendimento do processo civilizatório, o homem percebe-se capaz de dissimular suas emoções e acopla-se a seu meio civilizado, modificando a si mesmo. Cria um mundo interior, ao mesmo tempo em que é criatura e criador de um mundo exterior: a cultura.
Os processos ligados a essa criação - a linguagem, o pensamento e a consciência de si e do mundo - criam, por sua vez, a arte, a religião e a ciência, ou seja, suas consciências subjetiva e intersubjetiva, que atribuem significado e intencionalidade às suas práticas. É a rede de significações, de representações e apropriações construída pelo homem que constrói a cultura.

Construindo Cultura

"a lógica das crianças não poderia se desenvolver sem a interação social
porque é nas situações interpessoais que a criança se sente obrigada a ser coerente."
Constance Kamii

Sabe-se que o conceito de cultura pode vir a representar tanto desenvolvimento intelectual ou hábitos, atividades, interesses, costumes e valores de uma determinada povoação, etnia ou nação quanto o compósito de manifestações sociais, políticas, econômicas e culturais - aqui no sentido já citado - que é a força motriz de toda uma sociedade. Vê-se, portanto, que este último contém o primeiro.
Desde a divulgação da teoria de Darwin, o mundo conhece a possibilidade evolucionista a que estamos ligados. O Australupithecus transforma-se em Homo habilis, que transforma-se em Homo erectus que transformam-se em Homo sapiens que se desenvolve e passa a ocupar plenamente a África e a Ásia, surge o Homo Neandertalensis, que se extingue e o Homo sapiens (Cro-Magnon) que começa a evoluir e permanece a única espécie humana sobrevivente(2).
A mente do chamado Homo sapiens opera manipulando símbolos que representam certas características do mundo: sua representação mental. Sua atividade é composta por redes neurais que lhe atribui uma de suas maiores características, a plasticidade cerebral, visto que pode sofrer lesões sem que isso comprometa todo seu funcionamento.
O ser humano, em contínua atividade mental, vai construindo a cultura e sendo construído por ela. Cria uma rede de representações que se eternizará, fazendo aparecer as tradições, os modos de viver, as regras, a moral, a ética, enfim, a civilização. De uma maneira muito especial, o homem vai compondo a rede de sua história cultural, que é o compósito de suas histórias: social, biológica e psíquica que, por sua vez, podem se desdobrar em grupal, familial, neural, motora, psicológica, individual e coletiva. O ser cultural é multiplamente determinado e determinante, com intra e interconexões infinitesimais. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, cada homem cria e vai construindo seu caminho individual, único, uno.
A prática simbolizadora do homem é a exteriorização de sua subjetividade e consciência de si, do outro e do mundo. Na representação de todos os aspectos da realidade, criando cadeias de signos e símbolos, é que o homem constitui a cultura, materializando essas práticas subjetivas e coletivas em resultados, bens ou produtos culturais. Essa subjetivação teve origem num longo processo pelo qual a espécie teve de passar, intencionalizando sua prática, ou seja, projetando sua ação, traduzindo-a em: linguagem, arte, religião e ciência.
A linguagem permite ir além da realidade vivida, surgiu da necessidade de agilizar a comunicação e aperfeiçoar outros sistemas comunicativos, anteriormente pautados em objetos concretos. A arte permite que os homens expressem suas experiências, oriundas de seus sentimentos e imaginação. A religião representa a infantilização da humanidade na crença de um ente superior que a libertará, é o apelo ao sobrenatural, o que não raras vezes é importante para algumas pessoas. Já a ciência é a capacidade da humanidade para explicar a gênese e o funcionamento dos produtos culturais sem apelar para o sobrenatural, assim, a ciência liberta o homem para a reflexão e para a imaginação.

O papel da ciência educativa

"... com exemplo, ternura, paciência e, sobretudo, persistência,
podemos fazer de qualquer criança um ser completo.
Basta querer."
Celso Antunes

Deve-se instituir na criança o espírito científico, construindo em si a capacidade de ser auto-coercitivo, antes que a cultura o seja, pois a prática da reflexão, da imaginação, da simbolização e da consciência, assim como o gozo dos produtos e bens simbólicos que delas derivam, são precedentes fundamentais para a prática de uma existência genuinamente humana. Obliterar os caminhos que levam a essas condições é um mecanismo perverso de impedimento da constituição plena do sujeito. Significa privar o homem de vivenciar seu desenvolvimento e alcançar sua plena concretude.
Assim, a educação, direito inalienável de todo cidadão, ganha importância tendo como papel, ser o mecanismo pelo qual todos os esforços devem ser concatenados para o acesso ao acúmulo de conhecimento culturalmente acumulado, bem como para a produção de conhecimento, que com certeza, só derivará em bens culturais de melhor e maior qualidade.
Porém, ao mesmo tempo em que pode ser tudo isso, a educação pode também levar o homem à alienação, caso subtraia-lhe a consciência de si e do outro. Pode tornar-se esse "monstro" caso intervenha na formação da subjetividade do sujeito, caso altere a formação e significado de suas representações, suas apropriações, suas significações, enfim, sua humanização; ou seja, caso a educação manipule a produção e a distribuição do saber, visando somente a democratização do consumo dos bens culturais depositários da ciência e não o fomento do espírito científico, a compreensão das coisas do mundo - natural e material.
Todas as formas de tradução da subjetivação e humanização do homem - a arte, a linguagem, a religião, e ciência - podem converter-se em ópio de um povo, podem significar ao mesmo tempo nascimento e ocaso de sua subjetivação e cultura. Concatenar esforços para que isso não ocorra é papel da ciência educativa.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
FREUD, Sigmund. 1997 (1927). O futuro de uma ilusão. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago.
GINZBURG, Carlo. 1998 (1987). O queijo e os vermes: o quotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição.10ª reimpressão. Tradução de Betania Amoroso. São Paulo: Companhia das Letras.
_____________ . 1999 (1989). Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. 3ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras.


(1) Não há na linguagem nome para a perda de um filho. A angústia sentida é inominável. Talvez porque a perda sentida é muito mais aguda que a perda de um cônjuge, por exemplo, ao que se nomeia "viuvez", ou a perda da mãe ou do pai, ao que se nomeia "orfandade". Nomeia-se o sentimento para que sua experiência seja "controlável", do ponto de vista psíquico.
(2) A esse respeito, confira a obra de Fritjof Capra. 1996. A teia da vida - Uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, p. 204 ss.
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