| ::.
Educação:
Razão e emoção |
Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves
Pedagoga, Mestre em Psicologia da Educação
pela UNICAMP,
Doutora em Educação pela USP, Psicopedagoga
pela E.Psi.B.A.
Professora e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação
em Educação-
Mestrado, do Centro Universitário Moura Lacerda.
RESUMO
Este artigo trata sobre a relação entre
razão e emoção, entre inteligência
e afetividade, no desenvolvimento da pessoa e no contexto
da educação. Traz a contribuição
de Henri Wallon e de Alicia Fernández sobre como
tais fatores estão presentes nos processos de
aprendizagem e de constituição do sujeito.
Palavras-chave: afetividade, inteligência, aprendizagem,
constituição do sujeito.
ABSTRACT
This article handles the relationship betweenreasoning
and emotion, intelligence and affectivity in a person's
development as well as in the education process. It
refers to Alícia Fernández and Henry Wallon's
contributions to how such factors participate in the
processes of learning and subject constitution.
Key words: affectivity, intelligence, learning process,
subject constitution.
A questão da afetividade, de uns tempos para
cá, tem sido bastante discutida por educadores.
Intuitivamente, professores, pais e educadores percebem,
no dia a dia, a importância da afetividade no
processo de educação.
Mas, efetivamente, qual é esse lugar?
Se o aluno não aprende é porque tem problemas
emocionais? Pode-se dizer que as 40% das crianças
que não se alfabetizam na 1ª série
têm, todas, problemas emocionais, e por isso não
aprendem?
E as crianças que aprendem, não têm
problemas emocionais?
É o caso de se pensar, com mais cuidado, sobre
qual a relação entre afetividade e educação,
e com a aprendizagem, propriamente dita.
Primeiro tomemos a definição de afetividade,
no Dicionário Aurélio: Conjunto de fenômenos
psíquicos que se manifestam sob a forma de emoções,
sentimentos e paixões, acompanhados sempre da
impressão de dor ou prazer, de satisfação
ou insatisfação, de agrado ou desagrado,
de alegria ou tristeza.
Wallon (1998) atribui à emoção
- que, como os sentimentos e desejos, são manifestações
da vida afetiva - um papel fundamental no processo de
desenvolvimento humano. Entende-se por emoção
formas corporais de expressar o estado de espírito
da pessoa, são manifestações físicas,
alterações orgânicas, como frio
na barriga, secura na boca, choro, dificuldades na digestão,
mudança no ritmo da respiração,
mudança no batimento cardíaco, etc., enfim,
reações intensas do organismo, resultantes
de um estado afetivo penoso ou agradável.
A palavra emoção significa, originariamente,
"E" (do latim ex) = para fora, "moção"
= movimento. "A emoção é o
movimento da vida em cada um de nós. Trata-se
do movimento que brota no interior e se expressa no
exterior; é o movimento de minha vida que me
diz - e que diz às pessoas à minha volta
- quem eu sou." (FILLIOZAT, 2000, p.61)
Quando nasce uma criança, todo contato estabelecido
com as pessoas que cuidam dela, são feitos via
emoção. A criança manifesta corporalmente
o que está sentindo; por exemplo, quando está
com o desconforto da fome ou frio, ela chora. Wallon
(1975) destaca o caráter social da criança
neste sentido, pois que se não houvesse a atenção
do adulto nessa fase inicial de sua vida, atendendo-a
naquilo que ela precisa, que é manifestado em
forma de emoção, a criança simplesmente
morreria.
Além disso, "chorar, gritar, estremecer
são remédios para as inevitáveis
tensões da vida. A existência de um bebê
é repleta de frustrações, de questionamentos
de medos, de manifestações de raiva...
Por mais bem cuidados que sejam, todos os bebês
têm necessidade de chorar. A emoção
permite que eles recuperem as energias, consigam reconstruir-se,
depois de terem sofrido um desgosto. Um acontecimento
ofensivo, um acidente, uma perda, uma injustiça,
tornam-se traumáticos apenas se não for
dado livre curso à expressão dos sentimentos
suscitados por tais situações. A fluidez
emocional é a garantia da saúde psíquica.
Apesar de terem má reputação, nossas
emoções são úteis: elas
é que nos dão a consciência de Ser."
(FILLIOZAT, 2000, p.62)
O recém-nascido não tem ainda outras formas
de se comunicar com o Outro, que não a emoção,
esta sim, forma eficiente de comunicação;
e que funciona em mão dupla, pois nossa comunicação
com o bebê também é emocional, corporal.
É comum se dizer que não é fácil
enganar uma criança. Isto porque ela "lê"
no corpo, mais que nas palavras. Podemos dizer coisas
bonitas a uma pessoa, mas nosso corpo pode estar mandando
uma mensagem de repulsa. É esta mensagem que
a criança percebe, pois ainda não desenvolveu,
a contento, a comunicação racional, verbal,
que nós, adultos, usamos primordialmente, quase
nos esquecendo destas outras formas de comunicação.
Segundo Wallon (1989), quando, em alguma situação
da nossa vida, há o predomínio da função
cognitiva, estamos voltados para a construção
do real, como quando classificamos objetos, fazemos
operações matemáticas, definimos
conceitos, etc. Quando há o predomínio
da função afetiva, neste momento estamos
voltados para nós mesmos, fazendo uma elaboração
do EU. Como exemplo, as experiências carregadas
de emoção: o nascimento de um filho, a
perda de um ente querido, ou algo assim. No impacto
da emoção, nossa preocupação
é a construção que fazemos de um
novo eu, a mulher que se transforma mãe, o esposo
que se torna viúvo... São as "Alternâncias
Funcionais" (Wallon, 1998) que persistem durante
toda nossa vida, não sendo possível um
equilíbrio harmônico entre estas funções
(cognitiva e afetiva), mas um conflito constante, e
o domínio de uma sobre a outra. Daí a
colocação de Dantas (1990): "a razão
nasce da emoção e vive de sua morte".
Tudo começa com o choro inicial da criança,
o desconforto das cólicas, do frio ou calor demasiado,
a exploração do próprio corpo,
que representam o predomínio da emoção,
da função afetiva, a construção
do eu, que nesse primeiro momento, é o eu corporal.
Mais para frente, graças à sua independência
alcançada pela capacidade de locomover-se sozinha,
passa à exploração mais intensa
dos objetos, desenvolvendo sua tarefa de construir,
de forma sensório-motora, o real. Temos aqui
então o predomínio da função
cognitiva. Com o surgimento da linguagem, a criança
amplia sua área de conhecimento dos objetos do
mundo real, e acaba por compreender mais de si, pois
já pode, graças à linguagem, se
desprender do aqui e agora, indo ao seu passado ou a
programar seu futuro. Nesse momento, precisa diferenciar-se
do Outro, daqueles a quem até então estava
como que absorvida no seu meio social. Querendo ser
diferente daqueles, não aceitando mais as imposições
que são feitas pelos adultos (fase do negativismo),
imitando-os e assim percebendo as diferenças
entre si mesma e o modelo imitado, a criança
vai construindo seu eu psíquico. Aqui volta o
predomínio da função afetiva. Conforme
a criança vai crescendo, as crises emotivas vão
se reduzindo - ataques de choro, birras, surtos de alegria,
cenas tão comuns na infância - vão
sendo melhores controladas pela razão, num trabalho
de desenvolvimento da pessoa. As emoções
vão sendo subordinadas ao controle das funções
psíquicas superiores, da razão. A criança
volta-se naturalmente ao mundo real, numa tentativa
de organizar seus conhecimentos adquiridos até
então, é novamente o predomínio
da função cognitiva. Na adolescência,
cai na malha da emoção novamente, cumprindo
uma nova tarefa de reconstrução de si,
desde o eu corporal até o eu psíquico,
percebendo-se num mundo por ele mesmo organizado diferentemente.
E por toda a vida, razão e emoção
vão se alternando, numa relação
de filiação, e ao mesmo tempo de oposição.
Portanto, todo processo de educação significa
também a constituição de um sujeito.
A criança, seja em casa, na escola, em todo lugar;
está se constituindo como ser humano, através
de suas experiências com o outro, naquele lugar,
naquele momento. A construção do real
vai acontecendo, através de informações
e desafios sobre as coisas do mundo, mas o aspecto afetivo
nesta construção continua, sempre, muito
presente.
Daí a necessidade de se perceber a pessoa com
um ser integral.
Ao estudarmos o processo de aprendizagem sob esta ótica,
encontramos em Alicia Fernández, (1990) uma enorme
contribuição, destacando que o processo
de aprender supõe a presença de quatro
fatores: ORGANISMO (individual herdado); CORPO (construído
através das suas experiências); INTELIGÊNCIA
(autoconstruída interacionalmente); e o DESEJO
(energia, pulsão, inconsciente).
O organismo está para um efeito orgânico,
assim como o corpo está para aquilo que foi aprendido,
através das experiências, das sensações.
É a história do indivíduo, que
ele vai construindo em toda sua vida. "Não
há aprendizagem que não esteja registrada
no corpo" (Fernández, 1990, p.60)
Estes fatores não são independentes entre
si. Pode-se trabalhar a questão da inteligência
e o fator do desejo ou do corpo estar intensamente presente.
É o que se pode observar no texto transcrito
abaixo, extraído de um caso Psicopedagógico:
"Alicia levava dois anos no tratamento quando um
dia realizou uma descoberta maravilhosa: o aparente
pode resultar enganoso.
Alicia aparecia como tonta: significada como tal por
sua mãe e pela escola, ficava entravada nesta
convicção: - "não vou conseguir
porque eu sou tonta", repetia com freqüência.
Aos dez anos, ela não podia sustentar a permanência
da quantidade, mantendo-se assim num pensamento pré-lógico
que lhe impedia qualquer aprendizagem operatória,
circunstância que lhe obstruía fundamentalmente
seu desempenho em matemáticas.
Minhas intervenções apontavam no sentido
de tirar a Alicia de sua certeza ("sou tonta")
oferecendo-lhe espaços onde a reflexão
fosse factível. Numa sessão, ela correlacionou
pontualmente as fichas brancas com as pretas. Para cada
branca uma preta (correlação termo a termo
para Piaget).
Depois, eu agrupei as brancas e lhe perguntei: onde
tem mais? Desta vez Alicia não ficou aderida
à correspondência perceptível e
depois de um tempo disse: - "parece que têm
mais pretas que brancas porém há a mesma
quantidade de brancas que de pretas.... parece alguma
coisa mas não é... talvez eu pareça
tonta mas não seja".
Alicia acabava de afirmar a permanência da quantidade,
porta de entrada à lógica matemática
e a outras questões, mas o efeito deste saber
não só ficou limitado a determinados conhecimentos
como também sacudiu uma convicção
"sou tonta", tornando possível então
o sucesso em outras aprendizagens (não só
porque agora havia uma estrutura de conhecimento capaz
de processá-las como também agora Alicia
era alguém capaz de querer saber).
Ou talvez vice-versa "só foi possível
conhecer quando alguma coisa deste saber do inconsciente
se viu sacudido". (Baraldi, citado por LAJONQUIÈRE,
1992, p.23-24)
Parece claro aqui como seu corpo foi sendo construído,
desde a infância, como uma pessoa "tonta",
e isso foi crescendo de tal forma, a interferir no próprio
desejo de aprender, e relacionado diretamente à
capacidade de fazer a conservação, segundo
esquema piagetiano.
O bonito disso tudo é que da mesma forma que
essas situações são criadas, podem
também ser revertidas, desde que as pessoas que
trabalhem com a criança tenham a sensibilidade
de perceber como todos estes fatores estão intrincados
neste processo.
Enquanto não for dada a atenção
necessária ao fator afetivo, corre-se o risco
de estar só trabalhando com a construção
do real, do conhecimento, (como se fosse possível
isolar isso) deixando de lado o trabalho da constituição
do próprio sujeito - que envolve valores e o
próprio caráter - necessário para
o seu desenvolvimento integral.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DANTAS, H. A Infância da Razão, São
Paulo: Manole, 1990.
FERNÁNDEZ, A. A inteligência aprisionada.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
FILLIOZAT, I. Entendendo o coração das
crianças. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
LAJONQUIÈRE, L. De Piaget a Freud: para repensar
as aprendizagens. A (psico) pedagogia entre o conhecimento
e o saber. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.
WALLON, H. Psicologia e Educação da Infância.
Lisboa: Estampa, 1975.
___________. As origens do pensamento na criança.
São Paulo: Manole, 1989.
___________. A evolução psicológica
da criança. Lisboa: Edições 70,
199
|