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Disciplina - uma questão de respeito |
Paula
Dely
Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade
Católica do Paraná, foi coordenadora do
Setor de Psicologia da Vara da Infância e da Juventude
de Curitiba. Atualmente,
realiza trabalho clínico com adolescentes e adultos
e presta assessoria para projetos sociais voltados a jovens
e suas famílias.
Uma das maiores dificuldades relatadas por pais e professores
refere-se a como manter a disciplina em casa e na sala
de aula. Antes de qualquer apontamento nesse sentido,
é interessante compreender o que significa essa
palavrinha que sempre está presente nos discursos
de conteúdo educativo.
Segundo
o Dicionário Aurélio, disciplina significa
ordem que convém ao funcionamento regular de uma
organização. Essa definição
nos traz de imediato algumas conclusões importantes
acerca do ser humano.
Primeiramente,
o homem necessita de um conjunto de regras para fazer
funcionar adequadamente um ambiente composto de outros
seres humanos. Se esse conjunto de regras precisa ser
desenvolvido, significa que não o aprendemos ao
nascer e que precisamos incorporá-lo no decorrer
de nosso amadurecimento. Mas como isso acontece na prática?
Como
pais e educadores, podemos observar facilmente que uma
criança pequena ainda não é capaz
de desenvolver sozinha as noções de espaço,
tempo, perigo e outras funções essenciais
para sua segurança e a dos outros. É por
isso que devemos estar sempre atentos aos comportamentos
de nossas crianças, sob o risco de esses pequenos
acabarem por colocar sua integridade em jogo.
Conforme
as crianças crescem, compreendem que determinados
comportamentos não são permitidos e, observando
os adultos, aprendem também os comportamentos considerados
adequados, que lhes garantem reconhecimento e afeto.
Como
sua estrutura cognitiva ainda não possui a habilidade
de transpor a dimensão do concreto, a criança
necessita comprovar na realidade o resultado de seus atos.
Esse processo de observação e repetição
é a base da aprendizagem. É assim que a
criança percebe que, para cada atitude, existe
uma conseqüência e que seus comportamentos
são capazes de gerar resultados positivos e negativos.
Dessa forma, ela internaliza não somente as regras
necessárias ao bom funcionamento do ambiente onde
vive como também favorece a organização
interna dela.
Na
adolescência, esse processo se torna mais complexo,
uma vez que o jovem carrega dentro de si o conjunto de
valores que incorporou durante seu amadurecimento e a
estes se juntam os conflitos típicos dessa fase
do desenvolvimento. Ao mesmo tempo em que o adolescente
quer testar na realidade os valores aprendidos, ele necessita
refutá-los e questioná-los para se tornar
diferente de seus pais, ou seja, para possuir uma identidade.
De um lado, reivindica liberdade ao questionar as regras
e as imposições de pais e professores e,
de outro, teme a total independência por saber que
ainda não tem maturidade suficiente para estar
sozinho no mundo.
É
nesse momento que o jovem demonstra, por meio de uma série
de comportamentos contraditórios, sua necessidade
de limites e de disciplina. Ao estabelecermos as regras
necessárias à convivência de forma
firme e coerente, estamos auxiliando o adolescente a confiar
nos valores aprendidos, contribuindo para sua organização
interna. Conhecendo os limites de seu corpo e de seus
comportamentos, ele se torna capaz de construir a noção
de sua identidade e de seu lugar no mundo.
Nesse
processo, nosso papel enquanto pais e educadores é
ajudá-lo a construir a imagem de si e do mundo
para poder ingressar na fase adulta com segurança
e confiança. Sem limites e disciplina, esse processo
pode acabar sendo comprometido, deixando os jovens confusos,
perdidos e desprovidos de referência.
Por
isso, acredito que a disciplina é uma questão
de respeito, isto é, consideração
por nossas crianças e adolescentes, que dependem
de que nós, adultos, indiquemos o rumo que devem
seguir, fazendo com que desenvolvam a consciência
de seus papéis, responsabilidades e encargos na
construção de nossa sociedade. |
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