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::. Ensinar a reconhecer os sentimentos e a conviver com eles também é seu papel
  Roberta Bencini, de Campinas

Tereza percebeu que Viviane não estava bem. Andava cabisbaixa e suas notas começaram a cair. A professora rodeava a aluna, sem abordá-la. Tereza procurou então as amigas da menina, que contaram: os pais dela estavam se separando. O que fazer? Conversar com Viviane? Esperar um pedido de ajuda? Falar com a família? Ou deixar para lá?

A situação enfrentada por Tereza Gambus Faria em um colégio particular de Curitiba é comum na rotina de qualquer educador. Enfrentar sentimentos não é fácil para ninguém, mas trabalhar as emoções é importante no amadurecimento do ser humano. Portanto, esse conteúdo deve fazer parte do compromisso pedagógico de uma instituição que se preocupa com o desenvolvimento integral dos alunos. "Está na hora de acabar com a cisão entre escola e família. O jovem não tem como deixar os problemas em casa na hora de estudar", afirma Valéria Amorim Arantes, psicóloga e professora da Faculdade de Educação da USP.

Os PCN favorecem esse enfoque ao propor para discussão em classe temas como sexualidade, ética e cidadania. São oportunidades para escutar as dúvidas e as experiências de vida de todos e observar atitudes. Mas, para isso, esses assuntos não podem ser abordados apenas sob o ponto de vista científico.

Celso Antunes, mestre em Ciências Humanas e especialista em Inteligências e Cognição, é um dos defensores da alfabetização emocional no currículo. "Todas as relações — familiares, profissionais ou pessoais — devem ser permeadas pela afetividade, em qualquer idade ou nível sócio-cultural", defende.

Na teoria parece simples. Na prática, Tereza confessa que a coisa muda de figura. "Sei que é meu papel ajudar o aluno a enfrentar problemas, mas nem sempre sei como agir. Tenho medo de piorar tudo."

Uma solução coletiva
Se cabe aos professores identificar mudanças de comportamento nas crianças, é função do coordenador ou do orientador educacional orientá-la sobre as diversas possibilidades de ação. Às vezes é possível resolver uma angústia apenas com bate-papo. Em casos mais sérios — como envolvimento com drogas, gravidez na adolescência, morte na família e doença grave —, é preciso pensar na hipótese de pedir ajuda a um psicopedagogo ou a um conselheiro tutelar.

O bom senso conta muito nessas horas, sem esquecer que atos de heroísmo ou descaso podem ter desfechos negativos. "O entrosamento da equipe pedagógica e um pouco de conhecimento psicológico ajudam a agir com segurança e sem cometer equívocos", afirma Denise Pantoja, coordenadora pedagógica do Colégio Anchieta, de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Mesmo se o caso for levado a outro profissional, a escola deve observar todo o processo. "A questão é ética e estrutural: se o educador encara o aluno como um problema, ele encaminha e dá sua tarefa por concluída; se respeita a criança como um ser complexo e integral, vai acompanhar o caso", explica Valéria.

Sentimentos no currículo
Quem considera a educação emocional importante diz que o aproveitamento escolar, a motivação e a sociabilização melhoram quando os estudantes são acolhidos. Portanto, não deixe o trabalho com as emoções apenas para os momentos críticos. Inclua o tema na proposta pedagógica. Atividades bem elaboradas podem permear as disciplinas ou ser aplicadas em momentos específicos.

A Escola Comunitária, em Campinas, a 90 quilômetros de São Paulo, adota a segunda opção. Um cartaz em todas as salas de 1ª a 4ª série permite que as crianças anotem o que as agrada e as desagrada no ambiente. Uma vez por semana, em assembléia, as manifestações são discutidas, assim como os desejos, as ojerizas e os impasses. Com isso, elas aprendem a resolver pequenas encrencas, como briga com colegas, e sentem-se à vontade para expor conflitos internos. "Além de ser um exercício de cidadania e de democracia, é uma reflexão sobre os sentimentos próprios e os dos colegas", explica a coordenadora pedagógica Eliane Palermo Romano.

E como acabou a história da aluna de Tereza? A menina expôs seu medo de ficar sozinha. A professora ouviu, explicou que separações são parte da vida e aconselhou-a a dividir as aflições com os pais. Tereza não disse se a atitude da família era certa ou errada. Ela e a orientadora acompanharam o caso. A família foi chamada para conversar, pois alguém precisava mostrar que a filha estava sofrendo. Em pouco tempo, Viviane voltou a ser comunicativa e aplicada.

Para lidar com a afetividade

Enxergue as crianças como seres humanos complexos e únicos.
Fique atento nas características físicas e psicológicas e identifique os sentimentos observando expressões faciais.
Aplique técnicas de sensibilização de grupo e mediação de discussões.
Identifique, com a coordenação pedagógica, quando é possível resolver um problema ou quando é hora de recorrer a um especialista.
Preserve a intimidade dos alunos e jamais exponha um problema sem autorização.
Fuja de discursos moralistas e não caia em valores absolutos ou reducionistas. Por exemplo, gravidez e envolvimento com drogas não são questões morais a serem resolvidas, mas a falta de um projeto de vida, sim.
Situações mais graves, que envolvam uso de drogas, violência sexual e maus-tratos, não devem ser tratados apenas pela escola. Casos como esses exigem o acompanhamento de profissionais especializados, como médicos e psicólogos, e devem ser comunicados ao Conselho Tutelar.


Enxergue as crianças como seres humanos complexos e únicos.
Fique atento nas características físicas e psicológicas e identifique os sentimentos observando expressões faciais.
Aplique técnicas de sensibilização de grupo e mediação de discussões.
Identifique, com a coordenação pedagógica, quando é possível resolver um problema ou quando é hora de recorrer a um especialista.
Preserve a intimidade dos alunos e jamais exponha um problema sem autorização.
Fuja de discursos moralistas e não caia em valores absolutos ou reducionistas. Por exemplo, gravidez e envolvimento com drogas não são questões morais a serem resolvidas, mas a falta de um projeto de vida, sim.
Situações mais graves, que envolvam uso de drogas, violência sexual e maus-tratos, não devem ser tratados apenas pela escola. Casos como esses exigem o acompanhamento de profissionais especializados, como médicos e psicólogos, e devem ser comunicados ao Conselho Tutelar.
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