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O
Esmagamento da subjetividade e a Crise de Referências |
Yan
Pinheiro
Psicólogo clínico e organizacional formado
pela Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo - PUC/ SP, pós graduando em psicanálise
e psicopatologia pela Coordenadoria Geral de Especialização,
Aperfeiçoamento e extensão - COGEAE PUC/SP
e aprimorando do EPCL, (Escola de Psicanálise do
Campo Lacaniano).
E-mail: yanpinheiro@yahoo.com.br
O
discurso de ordem hoje é globalização.
Os modelos econômicos, o desenvolvimento das tecnociências
somadas ao amadurecimento da democracia ditada pelo
discurso capitalista, empurram o sujeito desse início
de século a uma nova forma de pensar agir e se
relacionar. Nunca na história da humanidade encontrou-se
na sociedade uma liberdade tão extraordinária.
É soberba a facilidade com que o indivíduo
de hoje tem para escolher seus parceiros sexuais, seu
estilo de vida, seus modos de trabalho, suas paixões
e principalmente aquilo que pode vir a satisfazer seus
desejos. Estamos diante de uma sociedade pronta para
costurar e legitimizar todas as insatisfações
que esse sujeito possa demandar. Encontramos essas evidências
no crescimento assombroso da indústria farmacêutica,
da indústria de cosméticos, da indústria
da moda, das clínicas de cirurgias plásticas,
das propagandas de sexo, das academias de ginásticas,
da industria de entretenimento, nas legalizações
de todos os tipos como a união de casais homossexuais,
mudança de sexo, adoção, eutanásia,
entre outras.
O resultado disso é um sujeito numa constante
"crise de referências, seja qual for a pertinência
dessa expressão, a tarefa de pensar o mundo em
que vivemos se impõe, então, mais do que
nunca" (Melman, 2003). Um sujeito inseguro e carente
de parâmetros não consegue mais pensar
sua própria existência e nem analisar situações
às quais a vida lhe impõe. Suas relações
pessoais se tornaram supérfluas e descartáveis.
O número de casais que se divorciam batem recordes
a cada ano por não suportarem a primeira crise
conjugal. O outro não lhe confere mais uma subjetividade
e muito menos um valor austero, e nem o cobra, pois
o outro vem como um tampão presentificado e não
mais representado. Isto é, o outro ganha o mesmo
valor de um objeto, de um objeto presente, não
mais um valor de memória, simbólico, sagrado
do qual deveria ser seu referente. Suas relações,
portanto, são diretas, cruas, sem significados
e significações.
"A relação do sujeito com o mundo,
como também com ele mesmo, não é
organizada pelo que seria uma ligação
direta e simples com um objeto, como seria no mundo
animal, no qual basta se deixar guiar pelos instintos.
Se há pois descoberta de Freud é a seguinte:
nossa relação com o mundo e com nós
mesmo não é instalada por um objeto, mas
pela falta dele. É preciso, para esse infeliz
sujeito humano, passar por essa perda a fim de ter acesso
a um mundo de representações sustentável
para ele." (Melman, 2003).
Esse funcionamento, que Freud chamou de disfunção,
se faz necessário para que o sujeito possa constituir
sua identidade e, a partir daí, suas relações
com o mundo. Mas isso tem um preço, um limite
necessário para garantir ao sujeito uma condição
de faltante diante do mundo; motor civilizatório
que garante a supressão da barbárie.
Os profissionais da área da saúde estão
constatando e assistindo um crescimento inédito
de adcções de todos os tipos álcool,
drogas ilícitas, novas drogas, novos sintomas
como crianças hiperativas, fibromialgia, síndrome
do pânico, hermafroditismo não congênito,
uma abrupta crença em tratamentos ditos milagrosos
e se sentindo pateticamente um telespectador diante
de uma medicina que trata o sujeito como se ele fosse
apenas um corpo desprovido de qualquer tipo de subjetividade
e o classifica como se ele fosse um genérico
- drogadictos, aidéticos, adolescentes hiperativos,
crianças hiperativas, hemodiálicos, bipolares
etc... - dando ênfase apenas a um traço
de sua subjetividade.
Aos profissionais da saúde e educação,
o presente artigo é um convite a uma reflexão
à luz da psicanálise sobre o sujeito e
a constituição de subjetividade no social
e no entendimento de uma outra psicopatologia característica
e presente nesse início desse século.
Que mudanças ocorreram em menos de meio século
a esses sujeitos que antes, ao demandarem tratamento
psicológico, médico ou pedagógico,
apresentavam queixas de natureza existenciais relacionadas
com suas histórias e hoje buscam um tratamento
relâmpago ou uma pílula milagrosa que faça
suprimir seus sintomas sem passar por uma reflexão
sobre suas vidas? O que resta então para esses
sujeitos que autorizam sua própria existência
numa relação fetichizada, como alertava
Karl Marx, com os inúmeros objetos ofertados
e disponíveis por aí?
O declínio da função social paterna
marca a modernidade com a passagem da comunidade para
sociedade. Essa mudança promove conseqüências
importantes nas relações entre a vida
púbica e a privada/familiar. "Uma disjunção
entre conjugalidade e parentalidade, o social, que invade
o domínio público, avança de agora
em diante o domínio familiar" (Julien, 2000).
Isto é, a sociedade passa a ser um terceiro elemento
nas relações familiares dividindo a tarefa
de educar os filhos junto aos pais. O saber sobre como
educar e preparar esse filho para assumir um papel social,
fica a cargo do estado com as escolas na educação,
com a pediatria sobre o desenvolvimento da criança,
com a psicologia no desenvolvimento psíquico,
em suma, todas as disciplinas do conhecimento cujo conhecimento
diga respeito à formação do sujeito
naquilo que a sociedade espera dele.
O poder patriarcal absoluto fica restrito não
mais "ao arbitro da mãe e do pai" (Julien,
2000), mais em comum acordo com o social. O pai, antes
detentor do saber sobre o social, representante da comunidade,
se vê representado por um estado regulador das
relações familiares. Esse golpe no poder
patriarcal "permitiu a modificação
das razões da escolha conjugal" (Julien,
2000), os casamentos de comum acordo decididos pelos
pais, tanto festejados nas comunidades passaram a ser
também de responsabilidade civil, cabendo ao
sujeito decidir ou não assumir a união
no social antes obrigatória.
Nas famílias patriarcais, o sujeito estava imerso
num discurso de sua linhagem que garantia sua identidade
diante da comunidade. As relações de comum
acordo visavam garantir justamente a "semelhança
de identidade dos esposos: educação, mesma
crença religiosa, proximidades geográfica,
tradição culturais" (Julien, 2000),
com o fim de perpetuar os valores para a geração
seguinte do qual ativamente o pai representava. A lei,
portanto, era esse discurso que ainda por muito tempo
prosperou. No entanto abriu-se uma brecha, a modernidade
proporcionou essa brecha, essa fenda na subjetividade
humana permitindo o sujeito questionar seus valores,
suas crenças, sua fé, sua identidade e
por fim trilhar seu destino a partir de um novo referente.
Surge, portanto, o sujeito cartesiano, dividido, imerso
nos valores familiares, mas desobrigado a perpetuar
esse discurso e diante de uma aposta nova em si mesmo.
"Dar o direito a seus próprios pensamentos,
sejam eles nobres ou baixo, nascidos na paixão
ou na serenidade, e acolher a contradição
entre eles tornou-se uma boa chance a ser agarrada.
O indivíduo não é mais chamado
a dominar seus destino, mas bem antes a ser desapossado
de uma identidade fixa: aquela, justamente, de que seus
ancestrais podiam estar seguros". (Julien, 2000).
O estado, portanto, passa a funcionar como um suporte
familiar, ora amparando os pais na educação
de seus filhos, ora servindo como um novo referente
daquilo que o sujeito deve absorver para ser reconhecido
numa sociedade. Contudo, esse referente apenas estabelece
os contornos de uma problemática maior: A relação
privada passa a se distanciar do social, pois a imersão
desse novo sujeito como entidade subverte o compromisso
social. Essa distância Freud conheceu bem com
suas pacientes histéricas. Os sintomas histéricos
eram sempre um conflito desejante entre público
e privado, entre o desejo e o objeto de satisfação
impossível numa sociedade moderna pelo rigor
e comprometimento social que os cidadãos primavam
com a nova possibilidade da qual estavam diante. "A
frustração quanto ao objeto acarreta a
irrupção da neurose e que envolve uma
renúncia ao objeto real" (Freud, 1908).
O Pai social, esse Outro (aqui com maiúscula
por se tratar de um pai simbólico, um pai como
função de lei nas relações
sociais, representante dos diretos dos valores familiares)
entra aqui como um imperativo que divide a subjetividade
do sujeito, o priva; vem dizer que sua liberdade tem
um limite, o próprio social.
Paralisias, cegueiras, fobias e epilepsias eram os sintomas
emergentes desse sujeito moderno. Sempre no corpo, sem
nenhuma aparente causa orgânica e dito a partir
de uma singularidade através de um discurso imaginário
social. Seus conteúdos revelavam sempre uma insatisfação
aos preceitos sociais impossíveis; traição,
desejar o cônjuge alheio, amores impossíveis,
insatisfação com sua vida amorosa e inveja
do parente eram as queixas recorrentes. A tal liberdade
de escolha, portanto, tinha um preço, o de ser
responsável por sua própria história
transitada e constituída entre essa disjunção
do publico e o privado.
Eis que surge um novo discurso, o saber social, o discurso
capitalista que vem capturar esse indivíduo cada
vez mais sozinho e diluído pela decadência
da moral que modernidade proporcionou, numa promessa
do bem estar promovido pela ciência e pelo consumismo.
"As conseqüências disso são múltiplas":
nos momentos de desemprego, incerteza, estremecimento
das identificações culturais, a multidão
tende a reclamar um mestre que comande com firmeza,
um chefe que forneça referenciais estáveis
e diga claramente quem é o amigo e quem é
o inimigo do povo, um líder que saiba trazer
convicções e dar sentido aos acontecimentos."
(Julien, 2000).
Começam, portanto, os grandes movimentos por
oposição, o socialismo, quase que em paralelo
o Nazismo, as reivindicações pelos direitos
trabalhistas e pelos direitos humanos, a nostalgia da
comunidade, os movimentos Hippies, nas artes o dadaísmo,
guerras, a crise das religiões, enfim, tudo aquilo
que vinha como promessa de representatividade referente
ao acolhimento desse sujeito nas suas dúvidas
e incertezas sobre sua identidade livre.
Se o que deveria ser representativo para esse sujeito
na sociedade não representa, se essa confiança
de delegar ao Outro a responsabilidade, a educação,
a formação e a preparação
para esse indivíduo falha, não mais o
representa, o que resta para esse sujeito?
A saída disso gerou uma mutação
psíquica que estraçalhou a subjetividade
do sujeito. A mudança do que era representativo
para o que é presentificado. Pela ausência
de referências que dê suporte à esse
sujeito, o que lhe resta é exibir e gozar com
essa exibição, e o faz de todas as formas,
legalizadas ou não.
"Hoje a questão é exibir. O que se
chama de gosto pela proximidade vai tão longe
que é preciso exibir as tripas, e o interior
das tripas, até o interior do interior"
(Melman, 2003).
Constatamos isso com os "reality shows", com
programas televisivos que constrange o sujeito a revelar
seus segredos mais íntimos, programas que mostram
pessoas sendo assassinadas, invasão de privacidade,
as propagandas de sexo, os filmes catástrofe
cada vez mais realistas, as exposições
de corpos dissecados e inúmeros outros que revelam
um sujeito que goza sem precedentes. Não há
mais limites, as leis não têm mais a função
de barrar o sujeito, o crescimento da violência
é assustadoramente negligenciado pelas autoridades.
Os pais, por sua vez, não sabem que referenciais
passar para geração seguinte, acabando
por se abster da educação de seus filhos,
renunciando as suas obrigações parentais,
ou simplesmente delegando ao outro ou se tornando amigo
do filho compreendendo suas angústias, mas impotente
na sua função paterna. Com isso os adolescentes
estão cada vez mais cedo usando drogas e experienciando
uma vida sexual, sem limite ou leis que o façam
parar, pois tudo é legitimado no prazer a na
felicidade do sujeito.
O aumento avassalador de novas religiões e a
multiplicação de templos que lotam com
fiéis desesperançados indicam que esse
sujeito clama por uma saída dessa condição
sufocante que produz o discurso capitalista. Como profissionais
da saúde essa é a nossa tarefa, barrar
o gozo desse sujeito na tentativa de implicá-lo
no seu sintoma, para se fazer reconhecer em seu valor
de evento, isto é, dar a chance desse sujeito
entrar nas leis do simbólico e assim ordenar
seu próprio destino.
Bibliografia
FREUD, S. (1915). O inconsciente. Edição
Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud, vol XI. Rio de Janeiro: Imago
Editora,1987.
JULIEN, P (1995). O estranho Gozo do Próximo. Rio
de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1995.
JULIEN, P (2000). Abandonarás teu pai e tua mãe.
Rio de Janeiro, Ed.Companhia de Freud, 2004.
MELMAN, C (2003). O homem sem gravidade. Rio de Janeiro,
Ed.Companhia de Freud, 2003.
MELMAN, C (2002). Novas forma clínicas no início
do terceiro milênio, Porto Alegre Ed. CMC, 2003. |
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