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O
medo da intimidade, o medo do encontro |
Marcos Bueno
Psicólogo de orientação gestáltica
e ericksoniana, fundador do NUP-GT de Uberlândia/MG,
professor universitário, Mestre em Engenharia de
Produção: Gestão da Inovação
Tecnológica e Ambiental pelo PPGEP/UFSC, Especialista
em Administração pela FGV e UFU/Université
du Quebèc a Trois Rivières e formação
em Psicologia pela UnG e ex-gerente de RH e Qualidade.
E-mail:
mlbueno@brturbo.com
"Creio
que a melhor dádiva que concebo receber de alguém
é:
Ser vista, ser ouvida, ser compreendida, ser reconhecida.
A maior dádiva que posso oferecer é:
Ver, ouvir, compreender e reconhecer outro ser humano.
Quando isso acontece, sinto que houve contato entre
nós".
(Virgínia Satir - Estabelecendo Contato)
Resumo:
A proposta do artigo é a de nos levar a uma reflexão
critica a cerca do medo do encontro autêntico,
despir-se de modelos autoritários, castradores
e cuja única verdade ao longo de séculos
tem sido a do sujeito que usa e abusa do direito de
ensinar e de acolher no espaço familiar ou do
seio social.
Palavras-chave:
o medo, a intimidade, o encontro,educação
integral.
Artigo:
O genial psicólogo e educador Emílio Mira
y Lopes falava em suas conferências que o maior
inimigo do homem é o medo.O medo nos faz distanciarmos
de nós mesmos.Intimidade significa encontro consigo
e com o outro. O ser humano no dizer de Martin Buber o
grande filosofo da fenomenologia, explicou de forma mágica
a relação humana a luz do fenômeno,
do encontro autêntico, afirmava que as pessoas vivem
em relação, em contato, em encontro.
Para o terapeuta Osvaldo Shimoda intimidade é essa
liberdade de ser o que se é, sem "máscaras",
sem "disfarce", sem manipular as pessoas ou
ser manipulada por meio de jogos de sedução
ou poder. É a expressão livre e prazenteira
do que eu penso e sinto, sem reservas ou ressalvas.
Virginia Satir uma das grandes psicoterapeutas de família
e que contribuiu com a criação da Programação
Neurolinguistica na década de 70 cuja proposta
era conhecer os mistérios da comunicação
humana, cita as questões essenciais que todo ser
humano necessita para viver e deseja para ter dignidade
existencial: ser percebida, compreendida e reconhecida.
Uma boa parte das pessoas mal percebe a si próprias,
muito menos o outro, da mesma forma também não
nos preocupa em nos compreender as nossas necessidades
e desejos.Quando compreendemos as razões, as emoções
tornam-se inteligentes e é possível conversarmos
com nosso coração, com nossas paixões
indomáveis. Reconhecimento, esta é infelizmente
uma das misérias humanas, pois fazemos uma economia
brutal em reconhecermos até mesmo as pequenas virtudes,
uma pequena ação, um pequeno gesto amigo
de uma pessoa próxima ou mais difícil ainda
às pessoas aparentemente estranhas a nós.
Por que somos assim, tão econômicos com a
percepção, a compreensão, o reconhecimento
o amor. Tudo leva a crer segundo os estudiosos que são
frutos de uma cultura e educação antiga,
cristalizada que se mantém, que se acomoda, que
se transfere de geração para geração.Por
que iremos mudar aquilo que recebemos de graça
sem esforço, mesmos que seja para nos escravizar?
Izabel Telles em seu livro feche os olhos e veja cita
"Aprendi que a gente nasce livre, original, criativo,
amoroso. Mas não independente. E, devido à
nossa dependência dos adultos, somos manipulados
e moldados por eles de acordo com o sistema de crenças
e de padrões que eles também receberam dos
seus pais, da religião, da mídia, do mundo
enfim. E ai de quem tenta escapar desse sistema. Perde
o carinho dos pais, o respeito dos amigos, quando não
ganha um castigo. Desde criança aprendemos que
a liberdade tem um preço e que ser diferente dos
outros pode nos custar o isolamento. Felizmente, chega
o dia em que o ser humano sente saudades do seu eu verdadeiro.
O encontro solitário consegue mesmo, o seu próprio
deserto. Ninguém sai de um padrão pelo discurso.
É preciso mexer com a emoção, tocar
os limites do corpo, limpar de cada célula a memória
daquele comportamento".
A intimidade pode ocorrer numa amizade profunda entre
pais e filhos, marido e mulher, irmãos, companheiros
de trabalho ou até em encontros ocasionais onde
há reciprocidade de abertura e honestidade entre
as pessoas. John Powell cita que quando me desnudo para
você, não me faça sentir vergonha.Isso
é intimidade autêntica.Embora a experiência
da intimidade seja a forma mais rica de relacionamento
entre as pessoas, é, por outro lado, a mais temida
forma de relacionamento.
Homens e mulheres na sua maioria não sabem como
ser íntimos, não têm amizades intimas.
Vejo mulheres que na frente de suas amigas, agem de uma
forma e na frente dos maridos são outras. Não
se permitem serem verdadeiras.O encontro intimo, é
um encontro com o autêntico, é o que somos,
não o que desejamos.
Lembro-me de um grande amigo que quando eu ia a sua casa,
eu ficava surpreso com a qualidade afetiva do relacionamento
de sua família, a amorosidade entre eles e com
os amigos, os convidados que por lá apareciam,
era realmente uma cena bonita de se ver, perceber e sentir.
O carinho dos pais com os filhos e estes retribuíam
da mesma forma. Eu já me perguntava naquela ocasião,
então estudante de psicologia, por que todo mundo
não era daquele jeito de ser, inclusive a minha
própria família e por que os cursos de psicologia,pedagogia
e medicina não ensinavam a se relacionar daquela
forma tão humana.
Por que muitas pessoas agem de uma forma com os seus familiares
e com outros atuam bem diferentes. É comum nas
relações amorosas e familiares a pessoa
conversar assuntos triviais do cotidiano e não
expressarem sentimentos de calor, ternura e proximidade
ou mesmo discutirem seus conflitos, anseios e preocupações
pessoais. Eu costumo perguntar aos meus clientes e alunos:
"Você conhece verdadeiramente o seu filho (a),
a sua esposa, o seu marido, os seus pais, os seus irmãos?
E eles, o conhecem verdadeiramente?" Você se
permite ser conhecido autenticamente?
A maioria pensa, mas não diz, alguns poucos arriscam
que vivem na rotina e que se sente "presa",
"amarrada" "acostumada" nesses relacionamentos
e conversa só o essencial.Será que isso
é uma exceção ou é quase um
padrão universal?
Muitos vivem num verdadeiro "torpor" mental,
emocional e espiritual e não percebem que estão
"anestesiados" e condicionados emocionalmente
como acontece toda noite na frente da telinha das telenovelas
que vão aos condicionando em doses homeopáticas
todas as noites e o pior é que não percebemos
o que estão fazendo com a gente.
As pessoas atualmente são incapazes de sentarem
à beira de um rio e sentirem o vento no rosto.
Diante de um pôr de sol não se permitem se
extasiar. Não percebem "as mensagens"
do seu próprio corpo, não sabem quando estão
tensos, relaxados, abertos ou fechados. Corpo e alma estão
dissociados e fragmentados. Seus corpos agem de uma forma
enquanto suas palavras dizem o contrário. Dizem,
por exemplo, palavras cheias de raiva com um sorriso nos
lábios. Fazem amor com alguém pensando nas
contas a pagar, no carro que querem trocar, na roupa que
querem comprar, etc.
Como resultado da qualidade de vida: levam uma vida limitada,
sem paixão e nem compaixão, despida de encanto,
espontaneidade e alegria, sem sentido existencial como
dizia o terapeuta da esperança Viktor Frankl.
O Dr. Eric Berne, psiquiatra canadense, criador da Análise
Transacional que foi recusado pelos psicanalistas de sua
época, dizia: "O homem nasce livre, mas a
primeira coisa que aprende é agir conforme o que
ensinam e passa o resto da vida fazendo isso". Significa
ter a coragem de mudar o padrão, buscar algo melhor
para si. Quando fazemos algo de bom para nós, normalmente
fazemos para o mundo. Quando nós mudamos o mundo
muda.A referência do mundo externo está dentro
de nosso mundo interno.
Daí a primeira escravização ser feita
pelos pais. O psicoterapeuta Ângelo Gaiarsa adoraria
esse tema, pois tanta Gaiarsa quanto Ronald Laing abordaram
muito a influência familiar na saúde dos
indivíduos. Os pais muitas vezes de forma inconsciente
nos obrigam a seguir as suas instruções
para sempre, conservando somente em alguns casos o direito
de escolher seus próprios métodos e consola-se
com uma ilusão de autonomia.Os pais dão
o melhor que eles tem, cabe a cada um transformar o que
recebeu em algo melhor. É uma posição
muito cômoda e mesquinha só criticar os pais,
a família. O que fizemos para nos tornarmos livres,
mudar para melhor, esta é a questão essencial.
Libertar-se, portanto, do condicionamento familiar, educacional,
religioso, moral, cultural e político e se tornar
um livre pensador - assumindo e aceitando a responsabilidade
de suas próprias escolhas, livrando-se da compulsão
de viver de forma programada e rígida - seria o
desejável. É necessário perder o
medo do encontro com a maturidade.
Maturidade humana é percebermos o que somos e mudarmos
para melhor. Como diz o teólogo Leonardo Boff,somos
seres desejantes, insaciáveis e queremos muito
e tudo, por isso sofremos. Precisamos lapidar nossa alma.Mahatma
Gandhi (1869 - 1948) líder pacifista indiano e
principal personalidade da independência da Índia
foi chamado pelos hindus de Mahatma significa "grande
alma" nos deixou um grande legado sobre a compreensão
do comportamento humano. Formou-se em direito em Londres
e, em 1891, voltou para a Índia a fim de praticar
a advocacia e iniciar a libertação de seu
povo do jugo britânico. Churchill talvez não
percebendo a grandeza de Gandhi costumava chamá-lo
de "faquir despido". Einstein era um de seus
maiores admiradores. Martin Luther King inspirou-se nele.
Mahatma Gandhi é um dos grandes homens do século
XX que preconizava três palavras: A Moral - A Verdade
- A Vida.Gandhi citava "Uma coisa lançou profundas
raízes em mim: a convicção de que
a moral é o fundamento das coisas, e a verdade,
a substância de qualquer moral. A verdade tornou-se
meu único objetivo. Ganhou importância a
cada dia. E também a minha definição
dela se foi constantemente ampliando". A não-violência
(Ahimsa) é o meio. A Verdade (Satyagraha), o fim.
Afinal temos um prodigioso cérebro "Nosso
cérebro é o melhor brinquedo já criado:
nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade"
Charles Chaplin.
Precisamos ter intimidade com a nossa vida e fazê-la
um meio de chegarmos a autorealização como
defendia um dos maiores psicólogos do século
XX que foi Abraham Harold Maslow, quando no nos anos 60
disse que a psicologia estava caminhando em direção
errada. Praticamente desde o inicio, a maior parte do
questionamento psicológico explorou e tentou entender
a natureza patológica emocional, comportamental
e psicológica dos seres humanos. Maslow disse que,
em vez disso, deveríamos estar estudando os melhores
e mais saudáveis espécimes humanos, para
aprender o que de melhor desejamos saber sobre as pessoas,
cita William O'Hanlon em seu livro Em busca de soluções.
Finalizando com um mestre da intimidade humana Drummond
"A cada dia que vivo, mais me convenço de
que o desperdício da vida está no amor que
não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e
que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também
a felicidade".
A dor é inevitável. O sofrimento é
opcional".
Bibliografia consultada:
O'HANLON, William. Em busca de soluções.São
Paulo, Psy II, 2000,
GAIARSA, José Ângelo. Amores perfeitos. Ed.
Gente.São Paulo, 1994.
TELLES, Izabel. Feche os olhos e veja.Ed. Agora, 2003.
ROGERS, Carl R. Sobre o poder pessoal.Livraria Martins
Fontes editora, São Paulo, 1978.
Freire, Paulo.Educação como prática
da liberdade. Ed.Paz e terra, São Paulo,1978. |