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professor precisa estar atento para as transformações...
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O professor precisa estar atento para as transformações
que ocorrem no presente, mas entendemos que um dos pontos
essenciais do exercício do educador é
estar atento ao futuro, provocando essa geração
para o crescer, evoluir e superar-se.
Por
compreender esse desafio, a Escola Paulista, por intermédio
do Setor de Psicologia, aposta no trabalho de sensibilização
e reflexão realizado com seus professores.
Neste
ano o tema de trabalho junto à equipe de educadores
é Comunicação pela relevância
do tema no cotidiano das relações escolares.
Abrimos
o tema com o trabalho sobre "Julgamento",
onde pudemos abordar os ruídos de comunicação
provocados pela forma de julgarmos o outro e as situações.
Refletimos especialmente sobre a forma pela qual esses
julgamentos vão sendo construídos, levando
em conta a história de vida de cada educador.
Abordamos dentro dessa temática a questão
da aprendizagem, do relacionamento professor x aluno,
e avaliação. Evoluímos a reflexão
para pensar a questão da discriminação
e exclusão, focando meios de inclusão
efetiva na prática da educação.
O
Setor de Psicologia procura preparar atividades que
sejam dinâmicas e evoquem a sensibilização
e reflexão do grupo sempre em um clima de harmonia
e integração.
Rubens
Alves,
educador
e escritor, apresenta algumas idéias interessantes
sobre educação, nessa metáfora
sobre os moluscos.
Confira
nessas duas frases algumas dessas idéias e veja
se não vale a pena conferir o texto em sua íntegra:
Sobre
o Aluno,
"Uma
das tarefas mais alegres de um educador é provocar,
nos seus alunos, a experiência do espanto. Um
aluno espantado é um aluno pensante..."
Sobre
a Educação,
Primeiro,
que é necessário aprender as utilidades
e as competências.
Aprender
ferramentas úteis. Sem elas, não se sobrevive.
Segundo,
que é necessário aprender as desutilidades,
as coisas que, sem servir para nada, nos dão
alegria e razões para viver. Ler Manoel de Barros,
fazer o jogo do bocó, aprender a adivinhar as
nuvens, "olhar uma paineira florida" - diria
Mario Quintana -, ver figuras, ouvir Bach e Villa-Lobos,
montar quebra-cabeças, ouvir a viola de dez cordas
de Ivan Vilela...
As
Lições dos Moluscos
Os
moluscos (do latim "molluscus", mole) são
animais de corpo mole, entre os quais estão os
caramujos e as ostras. Seus corpos macios são
presas fáceis e apetitosas para predadores gulosos.
Na medida do que sabemos, os moluscos não têm
a capacidade para pensar. O que não significa
que não sejam inteligentes. Acontece que a inteligência
dos moluscos não se encontra na cabeça
- ela se encontra no seu corpo. Parafraseando Pascal:
"O corpo tem razões que a própria
razão desconhece", Freud concordaria. Os
moluscos são inteligentes sem precisar pensar.
E foi assim que eles, movidos pela necessidade de sobrevivência,
para se proteger dos predadores, construíram
carapaças protetoras que os protegessem: as conchas.
Confesso
que fico assombrado contemplando a concha espiral de
um simples caramujo de jardim. Essa experiência
de espanto perante um objeto, os gregos diziam que é
dela que surge o pensamento. Os caramujos me espantam.
Espantado, penso: "Como é que essa gelatina
estúpida é capaz de construir esse objeto
assombroso, a sua concha espiral de perfeição
matemática?".
Dentro
do corpo de cada molusco, mora um matemático
invisível. Jogando o jogo do bocó, que
aprendi no "Livro sobre Nada", do poeta mato-grossense
Manoel de Barros, eu digo: "Os caramujos me metafisicam...".
Eles me fazem pensar sobre o mistério do Universo.
Uma das tarefas mais alegres de um educador é
provocar, nos seus alunos, a experiência do espanto.
Um aluno espantado é um aluno pensante...
Pois
parece que Piaget sofreu de espantos parecidos com os
meus diante dos moluscos. Tanto assim que, nos anos
de sua juventude, se dedicou a pesquisá-los nos
lagos da Suíça. Mas, de repente, ele deu
um salto dos moluscos para a psicologia da aprendizagem
entre os humanos, Os desavisados concluem: Piaget mudou
de espanto. Não. Ele mudou de espanto. Apenas
mudou de molusco.
Pois
nós, seres humanos, somos semelhantes aos moluscos.
Aquilo que os moluscos fazem é uma metáfora
daquilo que nós fazemos. Observando os moluscos,
ele compreendeu melhor os seres humanos. Porque os nosso
corpos também são moles. Compare o seu
corpo com o corpo de um tatu, de um rato, de um coelho,
de um gambá, de um beija-flor. Eles sobrevivem
usando como ferramenta apenas o corpo que receberam
por nascimento. Mas nós - aí de nós!
Que seria de nós se só contássemos
com os nossos corpos para sobreviver? Morreríamos.
Se nós sobrevivemos é porque fizemos o
que os moluscos fizeram: construímos conchas.
Mas
há uma diferença. Os moluscos já
nascem sabendo. Não precisam aprender. Seus corpos
já nascem com um chip com todas as informações
necessárias para a construção das
conchas. O programa está pronto. Nós,
ao contrário, não nascemos sabendo. Nossos
corpos, por nascimento, nada sabem... E essa é
a razão por que temos de aprender.
Este
é o sentido da educação: o processo
pelo qual as gerações mais velhas ajudam
as gerações mais novas a aprender a arte
de construir conchas. Que são nossas conchas.
Nossas conchas são formadas com aquilo que inventamos
e construímos para sobreviver...
Parte
da educação, assim, é o aprendizado
das técnicas e artes necessárias à
produção dos objetos que vão completar
o nosso corpo mole, dando-lhe maior eficácia.
Uma faca é uma melhoria dos dentes e das unhas.
Uma escada é uma melhoria das pernas. Óculos
são melhorias dos olhos. Um computador é
uma melhoria do cérebro. Foi a nossa fraqueza,
o nosso corpo mole, que nos obrigou a pensar. Nossa
inteligência é filha da nossa fraqueza.
Há,
em Juiz de Fora, um velho professor que viveu espantado
pelos moluscos: Maury Pinto de Oliveira. Seu espanto
foi tão grande que dedicou sua vida a colecionar
conchas de moluscos. São milhares de conchas,
dos tipos mais variados, vindas de todas as partes do
mundo - uma delas pesa 120 quilos. Fiquei encantado
com a sua beleza e perfeição matemática.
Pensei que a vida não se contenta em produzir
objetos úteis. Uma concha é, de fato,
um objeto útil para o molusco que mora nela.
É uma casa. Mas não é simplesmente
uma casa. É uma casa espantosamente bela...
Talvez,
contemplando os estúpidos moluscos, possamos
aprender algo sobre a educação. Primeiro,
que é necessário aprender as utilidades
e as competências. Aprender ferramentas úteis.
Sem elas, não se sobrevive.
Segundo,
que é necessário aprender as desutilidades,
as coisas que, sem servir para nada, nos dão
alegria e razões para viver. Ler Manoel de Barros,
fazer o jogo do bocó, aprender a adivinhar as
nuvens, "olhar uma paineira florida" - diria
Mario Quintana -, ver figuras, ouvir Bach e Villa-Lobos,
montar quebra-cabeças, ouvir a viola de dez cordas
de Ivan Vilela...
A
ordem do poder e a ordem do amor. Sem o amor, o poder
é estúpido. Sem o poder, o amor é
fraco. Mas, quando os dois se encontram, vem a alegria.
Como disse Oswald de Andrade, "a alegria é
a prova dos nove...". Esse é o resumo da
educação.
Folha
de São Paulo – caderno sinapse
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