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Orientação
vocacional na Clínica Escola de Psicologia:
Um estudo exploratório |
MARA
ARAÚJO AGUIAR
Psicóloga organizacional. Universidade Federal
do Ceará.
Email: aguiarmara@hotmail.com
ANTONIO CAUBI RIBEIRO TUPINAMBÁ
Professor Universitário (UFC). Pesquisador com
apoio CAPES-MEC. Instituto de Psicologia - Universidad
Complutense de Madrid (Espanha).
Email: tupinamb@ufc.br
Endereço: Calle Narciso Serra 34, 1.D, 28007 Madrid
- España.
RESUMO
- O presente trabalho sistematiza e analisa relatórios
de atendimento em orientação vocacional
realizados na Clínica Escola de uma universidade
pública federal no primeiro e segundo semestres
letivos de 2002. Trata-se de um estudo exploratório
inicial que busca preparar o material e contribuir com
análise teórica sobre o tema. Por meio
de 20 relatórios utilizados no estudo, buscou-se
estabelecer relações entre a prática
realizada pelos alunos estagiários e diferentes
abordagens teóricas sobre o tema. Os métodos
e técnicas em orientação vocacional
e atuais demandas do mercado de trabalho foram também
abordadas no presente estudo. Os resultados obtidos
pela análise dos relatórios apontam para
práticas de orientação vocacional
de natureza clínica, norteada principalmente
pela abordagem de Rodolfo Bohoslavsky, acrescidas de
outros recursos e técnicas.
PALAVRAS
CHAVES: Orientação Vocacional; Métodos
e Técnicas em Orientação Vocacional;
Mercado de Trabalho.
1 - INTRODUÇÃO
O
trabalho com orientação vocacional requer
o conhecimento de teorias psicológicas acerca
do tema e do universo em que se inserem as vocações
e as profissões para que tal prática contemple
as descobertas atuais da ciência e as demandas
da realidade social, inclusive aquelas do mercado de
trabalho.
É nessa perspectiva que realizamos um estudo
exploratório inicial sobre as práticas
de atendimento realizadas pelos alunos estagiários
na Clínica Escola de Psicologia de uma universidade
pública federal no período de um ano.
Além de apresentar um breve panorama sobre a
evolução das técnicas, métodos
e perspectivas da orientação vocacional,
o estudo visou contribuir, principalmente, para maior
organização e conhecimento dos atendimentos
realizados, a fim de suscitar atenção
investigativa e proporcionar informações
para futuros atendimentos e práticas nesta área,
realizadas na Clínica Escola.
2
- METODOLOGIA
O objeto investigado foram relatórios de atendimento
elaborados pelos alunos no final de disciplina prática
de orientação vocacional. Esse material,
apesar de significar um registro rico em dados sobre
a prática da orientação vocacional
(O. V.), geralmente permanece arquivado, sem nenhum
tratamento investigativo posterior, o que em si justifica
estudos desta natureza. Tais relatórios representam
os resultados dos atendimentos concluídos viabilizando
uma estruturação das investigações,
sendo, portanto as fontes de informações
para o estudo de natureza exploratória como proposto.
A definição do caráter quantitativo
(aqui eminentemente para criar um quadro demográfico
a partir dos dados numéricos dos relatórios)
ou qualitativo do estudo exploratório, determina
os procedimentos utilizados neste trabalho. Deve-se
levar em conta que a construção dos relatórios
aconteceu anteriormente à proposta atual de estudo,
tendo sua existência prévia norteado os
procedimentos a serem utilizados na coleta e na interpretação
dos dados: dados existentes que se referem a um certo
número de pessoas atendidas na Clínica
escola, dados quantitativos e outros que podem ser apreendidos
pelo pesquisador a partir de observações
feitas nos relatórios, oriundas de entrevistas
não-estruturadas realizadas com a amostra estudada,
de observação participante, etc. (Goulart,
2002, p. 179).
O trabalho objetivou, portanto, a obtenção
de dados sobre as práticas de orientação
vocacional realizadas pelos alunos-estagiários,
a fim de traçar um perfil dos atendimentos e
analisá-los no que tange aos seus embasamentos
teóricos e técnicos. Além disso
foi possível organizar o material de forma a
facilitar futuras investigações, bem como
avaliá-los nas suas relações com
a realidade social local, mais especificamente com o
mercado de trabalho no qual os orientandos gostariam
de se inserir no futuro. Vimos, portanto, viabilizada
a preparação de material sua análise
crítica a partir das teorias vigentes e a obtenção
de dados sobre a realidade dos atendimentos em orientação
vocacional, que poderão ser melhor investigados
em pesquisas futuras.
A pesquisa exploratória foi realizada por meio
da análise de uma amostra de 20 relatórios
de orientação vocacional elaborados pelos
alunos que realizaram na disciplina de O.V. nos primeiro
e segundo semestres de 2002. Os relatórios constam
de 18 atendimentos de natureza individual e dois de
grupo.
Os relatórios foram numerados e submetidos a
uma leitura detalhada, o que possibilitou a obtenção
de categorias de análise, dispostas em quadros
de atendimento individual e de grupo. O conteúdo
dos relatórios foi disponibilizado nos quadros,
conforme essas categorias.
Os dados viabilizados a partir do agrupamento de categorias
foram submetidos a análise quantitativa e qualitativa,
sendo que a qualitativa, baseou-se em análise
de conteúdo, levando-se em conta diversas abordagens
teóricas sobre orientação vocacional.
Na pesquisa optou-se pelo uso do termo orientação
vocacional, devido a sua popularização
e valor histórico, o qual vai de encontro à
perspectiva de vocação concebida na pesquisa,
ou seja, concebe-se que a vocação não
nasce com o sujeito, mas é construída
a partir da interação entre oportunidades
do meio e disponibilidades pessoais.
3-
ORIENTAÇÃO VOCACIONAL: UMA BREVE RETROSPECTIVA
A
prática em orientação vocacional
no mundo ocidental pode ser concebida a partir do período
da Revolução Francesa, em 1789. Antes
desse período, vigorava a influência do
regime da Idade Média, que atrelava a ocupação
profissional dos sujeitos a condições
de nascimento.
Os princípios difundidos pela Revolução
Francesa estabelecem a liberdade de escolha e legitimaram
igualdade de direitos aos homens, o que lhes possibilitava
fazer opção por ocupações
diferenciadas daquelas determinadas por sua condição
familiar.
Posteriormente, a Revolução Industrial
ocasiona uma série de alterações
na economia, que deflagra a mudança do modo de
produção agrário para o modo de
produção industrial. Esse novo modo de
produção, cuja operacionalização
é feita pelo uso de máquinas, vai exigir
qualificação humana para sua utilização.
Os primeiros registros de trabalhos sobre orientação
vocacional surgem dentro desse contexto de desenvolvimento
econômico. Em 1908, Frank Parsons inaugura nos
Estados Unidos o serviço de orientação
vocacional e começa a por em prática os
princípios da sua teoria, denominada de Traço
e Fator. Parsons defende a idéia de que a adaptação
às ocupações depende do equilíbrio
entre as características dos indivíduos
e as exigências das funções. As
idéias desse autor dominaram por muito tempo
os trabalhos existentes sobre o tema. O desenvolvimento
da psicometria e uma série de preocupações
pedagógicas fazem com que as idéias de
Parsons estendam-se para a área escolar.
O desenvolvimento da Psicometria e o aumento da oferta
de trabalho ocasionada pela Primeira Grande Guerra oportunizam
a maciça difusão de trabalhos sobre orientação
vocacional. O movimento da saúde mental, consolidado
após a Primeira Guerra, também favorece
a preocupação e exploração
do tema.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Carl Rogers, psicólogo
estadunidense, sinaliza uma abordagem não diretiva
e centrada no cliente para acolher os indivíduos
problemáticos, inclusive aqueles com conflitos
em relação à escolha profissional,
em uma atmosfera de aceitação incondicional
do cliente por parte do terapeuta.
A década de 50 foi marcada pelo número
marcante de pesquisas sobre o tema. Ginzberg (1951)
(citado por Levenfus & Nunes, 2002) apresenta sua
teoria e define a orientação vocacional
como um processo de desenvolvimento que se inicia desde
a infância até a fase adulta e que é
irreversível. Super elabora em 1957 uma teoria
com enfoque desenvolvimentista e dimensiona a orientação
vocacional enquanto processo. Na concepção
do autor, o desenvolvimento da vocação
é um processo que acompanha o ciclo evolutivo
do indivíduo. Trata-se de um processo dinâmico
que resulta da interação entre as características
do indivíduo e as demandas do meio. O papel do
orientador dentro da teoria de Super é o de indicar
uma profissão que seja adequada à imagem
que o indivíduo tem de si mesmo. Holland (1959)
defende que a escolha profissional deva relacionar-se
com as características do sujeito. O sujeito
é fruto da interação entre a hereditariedade
e as demandas do ambiente, desse modo, a atividade é
escolhida pelo sujeito a partir de sua percepção
da ligação entre suas aptidões
inatas e suas aprendizagens. A escolha, segundo Holland,
deve levar em conta uma "orientação
pessoal". As idéias defendidas pelos teóricos
supracitados influenciaram as duas principais modalidades
de atendimento em orientação vocacional
atualmente realizadas. O método estatístico/psicométrico
está sedimentado na teoria do traço e
fator de Frank Parsons. O método clínico
apresenta, em sua fundamentação, influências
de Carl Rogers, Donald Super, entre outros.
4.
A ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL
Quanto
ao desenvolvimento da orientação vocacional
no Brasil, Prado Filho (1993, p.110) assinala :
Verifica-se historicamente que a orientação
profissional no Brasil se introduz através de
serviços de orientação, como centros
de pesquisa, desenvolvimento de técnicas e instrumentos,
ainda, como centro de divulgação e distribuição
do material utilizado na avaliação psicológica
do orientando. Posteriormente, se multiplica nas escolas
públicas e privadas de nível médio,
nas universidades, nos consultórios, nas clínicas
(...)
No
Brasil, Roberto Mangi, engenheiro suiço, introduziu
em 1924 a orientação vocacional para os
alunos do Liceu de Artes e Ofícios de São
Paulo, visando obter informações sobre
para qual curso orientar os alunos. Esse trabalho o
motivou a começar a desenvolver atividades voltadas
para orientação vocacional. Em 1931, Lourenço
Filho cria o primeiro serviço público
de orientação vocacional no Serviço
de Educação do Estado de São Paulo.
O Instituto de Seleção e Orientação
Profissional do Rio de Janeiro (ISOP) é inaugurado
em 1947 sob a coordenação de Mira y Lopez,
data que, para muitos autores, significa o estabelecimento
de fato da orientação vocacional no Brasil.
Em 1962, é regulamentada a profissão de
psicólogo no Brasil. Os cursos que deverão
formar esses profissionais incluem em seu currículo
a disciplina de Orientação Vocacional.
A lei federal 4.119 legitima a Orientação
Profissional como área de atuação
do Psicólogo. A Lei de Diretrizes e Bases (LDB)
estabelece como obrigatória a prática
do serviço de orientação vocacional
em todas as escolas no ano de 1971. A partir de 1980,
começara a surgir publicações e
teses escritas em âmbito nacional nessa área:
Passa-se a conhecer a O.V. realizada nas escolas, através
dos serviços de orientação educacional,
coordenados, na grande maioria, por orientadores educacionais.
E também os trabalhos realizados nas universidades,
em muitos centros de atendimento psicológico,
ligados, em sua maioria, aos cursos de Psicologia (Soares,
1999, p.10).
Ao longo dos últimos dez anos, as idéias
preconizadas por Rodolfo Bohoslawsky, a teoria de John
Holland e a teoria evolutiva de Donald Super passam
a se destacar cada vez mais nas práticas de orientação
vocacional realizadas no Brasil: "a partir desses
enfoques teóricos, muitas técnicas de
trabalho em Orientação Vocacional vêm
sendo desenvolvidas através de pesquisa sistemática,
realizada em universidades" (Lassance,1999, p.71).
Nesse contexto, tem-se a popularização
de práticas de orientação vocacional
em centros de atendimento ligados aos cursos de psicologia,
buscando atender às crescentes demandas da população.
Dentro desse perfil, podemos destacar o Serviço
de Atendimento em Orientação Vocacional
realizado na Clínica Escola de Psicologia da
universidade pública federal, cuja prática,
realizada por alunos estagiários, é objeto
do atual estudo.
5-MÉTODOS
DE INTERVENÇÃO EM ORIENTAÇÃO
VOCACIONAL
O
trabalho em orientação profissional realizado
pelo psicólogo volta-se principalmente para o
diagnóstico e solução de problemas
que os indivíduos têm em relação
ao seu futuro profissional .Diz respeito, segundo Bohoslawsky
(1993, p.02) "às distintas atividades que
correspondem a quadros de referência, orientações
teóricas, concepções filosóficas
e técnicas de trabalho (...) cujos clientes são
pessoas que enfrentam, em determinado momento de sua
vida a possibilidade e a necessidade de tomar decisões."
As concepções e orientações
teóricas existentes em orientação
vocacional assinalam práticas diversas, que se
constituem em diferentes perspectivas de conceber os
objetivos e o próprio objeto do trabalho, bem
como as técnicas e instrumentos a serem utilizados.
Essas diferenças de referencial teórico
dividem dois grandes métodos de atuação
em orientação vocacional: o método
Estatístico/Psicométrico e o método
Clínico.
5.1-O
MÉTODO ESTATÍSTICO/PSICOMÉTRICO
EM ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
Tal modalidade de intervenção recebe influência
da psicotécnica norte-americana e da psicologia
diferencial de princípios do século XX,
que concebem a inteligência como inata, estável
e passível de ser medida.
Impulsionada pela psicometria recém-surgida,
esse método perdurou por muitos anos, com exclusividade,
fundamentando todos os trabalhos de orientação
vocacional realizados na época. Seus princípios
teóricos refletem a concepção de
que o sujeito que procura a orientação
vocacional, dada a dimensão e o tipo de conflito
que enfrenta, não tem condições
de tomar decisão sozinho sobre a carreira a seguir,
necessitando da assistência do psicólogo.
Os psicólogos que a seguem desempenham papel
ativo, realizando intervenções de aconselhamento
e decisão, a fim de diminuir a ansiedade do cliente.
Para isso, devem conhecer suas aptidões e interesses
e encontrar, entre as diversas carreiras, aquelas que
mais se adeqüem aos seus gostos e possibilidades.
A modalidade psicométrica concebe que as diversas
carreiras requerem aptidões específicas,
passíveis de mensuração e constantes
ao longo do tempo. Desse modo, as aptidões do
cliente podem ser investigadas e medidas através
do instrumento fundamental que é o teste psicométrico.
O teste psicométrico permite a investigação
rigorosa das qualidades do sujeito. De posse dessas
informações, cabe ao psicólogo
buscar "encaixar" as habilidades do sujeito
na carreira que tenha como exigências aquelas
habilidades mensuradas no teste.
De acordo com a modalidade, os interesses do orientando
são específicos e desconhecidos pelo mesmo
e podem ser mensurados por meio de instrumentos desenvolvidos
para estes fins. A satisfação na carreira
dependerá do interesse que se tenha pela mesma,
interesse este que caberá ao psicólogo
"esclarecer."
O psicólogo orientador, dentro dessa perspectiva,
tem como papel principal elucidar o cliente sobre os
seus interesses e aptidões, para então
formular-lhe um conselho, que se constitui numa indicação
precisa do caminho que cabe ao jovem seguir para obter
sucesso profissional.
Nessa modalidade de atendimento, o cliente desempenha
um papel passivo no processo. Cabe a ele realizar os
testes, a fim de fornecer informações
sobre suas aptidões e interesses. Ao psicólogo
cabe, por seu turno, interpretar os dados coletados
e definir para o jovem qual o caminho a ser seguido.
Desse modo, deve acontecer que o resultado apontado
nos testes psicológicos vá de encontro
aos interesses e possibilidades do orientando. O mesmo
tentará encaixar suas necessidades aos resultados
apontados pelos mesmos, o que em certos casos poderá
gerar mais conflito e ansiedade.
A perspectiva psicométrica exerceu bastante influência
nas práticas de orientação vocacional
realizadas na primeira metade do século passado,
em que a preocupação pelo aperfeiçoamento
das técnicas de validação e fidedignidade
dos instrumentos de testagem psicológica atingiu
seu apogeu.
O atual estudo dos casos de atendimento em orientação
vocacional realizados na Clínica Escola esclarece
e ilustra a utilização do método
Psicométrico nas práticas em orientação
vocacional.
5.2
MÉTODO CLÍNICO EM ORIENTAÇÃO
VOCACIONAL
O
método clínico de atuação
em orientação vocacional recebe, desde
sua origem, influência significativa da psicanálise
(Escola Inglesa e da Psicologia do Ego), da teoria de
Donald Super e das técnicas de cunho não
diretivo preconizadas por Carl Rogers.
Essa modalidade de atuação tem como premissa
central a idéia de que o sujeito pode e deve
chegar a uma decisão sobre a sua escolha, se
conseguir resolver os conflitos e ansiedades relacionados
com seu futuro profissional. O jovem deve conseguir
assumir e compreender a situação de crise
que enfrenta, para poder chegar a uma decisão
autônoma e responsável sobre seu futuro
profissional. Nesta modalidade, o psicólogo assume
uma postura não-diretiva e se apóia na
premissa de que a escolha é uma responsabilidade
e direito do cliente, que não cabe a ninguém
usurpar-lhe .
Dentro dessa perspectiva, o psicólogo atua no
sentido de esclarecer e informar ao jovem, colaborando
para que o mesmo possa elaborar os conflitos que enfrenta,
a fim de estabelecer uma imagem não conflitiva
de sua identidade profissional e chegar a uma decisão
pessoal e responsável sobre seu futuro profissional.
O objetivo do psicólogo no processo de orientação
vocacional é, portanto, o de instrumentalizar
a escolha e a construção da identidade
profissional pela via do autoconhecimento e da articulação
entre aspectos do mundo do trabalho e o universo subjetivo
do orientando.
Trata-se de uma modalidade cujo principal instrumento
é a entrevista. Ela permitirá ao psicólogo
a compreensão da problemática do sujeito
e facilitará o seu acesso a uma melhor compreensão
de si. A entrevista busca descobrir alternativas para
que o cliente enfrente conflitos subjacente à
escolha profissional. O enfrentamento do conflito permitirá
ao jovem elaborar perdas, lutos e outras dificuldades,
além de ajudar na compreensão da situação
que enfrenta, resolvendo as ansiedades subjacentes a
fim de estabelecer de maneira autônoma sua identidade
profissional.
Essa modalidade de atuação preconiza que
mais importante do que realizar a escolha por uma carreira
específica, seria obter subsídios que
permitam ao jovem realizar as diversas escolhas ao longo
de seu trajeto profissional.
O trabalho clínico volta-se para compreender
quem é o sujeito da escolha e como ele escolhe.
Desse modo, o objetivo maior da orientação
vocacional de natureza Clínica seria a aprendizagem
do como escolher, mesmo que essa aprendizagem implique
em rever antigas escolhas ou certezas. Tal procedimento
significa um posicionamento específico quanto
aos resultados a serem obtidos ao final do trabalho
de orientação profissional. Concebe-se
um cliente que pode ou não sair do processo com
uma escolha realizada, consoante sua percepção
de haver construído e desenvolvido em determinado
momento as opções profissionais. Acredita-se,
nesse sentido, que nem todos os clientes encontram-se
no mesmo momento em relação a sua escolha
profissional ainda que se considere um processo de orientação
profissional como concluído. Desse modo, podem,
a despeito de terem participado de todo um processo
de orientação vocacional clínico,
não conseguir fazer todo o percurso, fato esse
muitas vezes visto como uma das limitações
da modalidade clínica.
Esses limites, quanto à elaboração
e definição da escolha, estão atrelados
aos pressupostos da modalidade clínica em si,
que enfatiza que o cliente deve perfazer seu processo
numa velocidade e caminho singulares e condizentes com
sua realidade. A orientação vocacional,
muitas vezes, somente tem início com os atendimentos,
prolongando-se por um período indefinido que
pode ser posterior e autodirigido.
6- AS TÉCNICAS EM ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
A realização do processo de orientação
vocacional torna necessário o desenvolvimento
e aplicação de técnicas, quer sejam
considerados atendimentos de cunho individual ou de
grupo. A utilização dessas técnicas
deve estar apoiada em referencial teórico que
fundamente a seleção, aplicação
e o seu manejo durante o processo.
De acordo com Levenfus e Soares, (2002, p. 295) "o
papel das técnicas consiste, dentre outros, levantar
dados, permitir elaborações, conduzir
a uma tomada de consciência do orientando, tudo
isso no intuito de facilitar o processo da escolha profissional
do jovem."
Segundo as mesmas autoras, não existem técnicas
específicas para atendimento em grupo ou individual.
As técnicas de aplicação coletiva
podem ser adaptadas para o contexto individual, ainda
que se perca os fatores resultantes da importante interação
proporcionada pelo grupo.
A seleção das técnicas a serem
utilizadas no processo de orientação vocacional
varia conforme as características da clientela,
os objetivos dos encontros ou a escolha teórica
do orientador. De acordo com esses critérios,
pode-se optar pelo uso de técnicas como entrevistas,
dinâmicas de grupo, técnicas projetivas
(que visam facilitar o acesso à problemática
do cliente), técnicas expressivas (que objetivam
a expressão e elaboração de sentimentos
relacionados com a escolha), técnicas plásticas,
além de técnicas informativas de exploração
profissional (operacionalizadas pelo uso de questionários,
entrevistas, etc.) e de testes psicológicos.
Nas práticas individuais de O. V., realizadas
em consultórios, a entrevista é a principal
técnica, pois proporciona a profundidade necessária
para trabalhar a elaboração dos conflitos
relacionados com a escolha. Os testes psicológicos
e as técnicas expressivas também são
recursos técnicos bastante utilizados nesse tipo
de atendimento. A abordagem psicodramática fornece
uma série de técnicas como o duplo, o
espelho, a inversão de papéis, que são
muito ricas para a obtenção de dados,
confrontação de idéias e tomada
de decisão nessa modalidade de atendimento.
A O. V. realizada em grupo exige do orientador determinadas
habilidades especificas no que concerne à capacidade
de compreensão do movimento do grupo em suas
diferentes sessões, de modo a adequar as técnicas
e recursos complementares aos seus diferentes momentos
e necessidades. A utilização inoportuna
de técnicas, levando-se em conta suas relações
com esses momentos e necessidades grupais, pode levar
à mobilização de conteúdos
de natureza difícil, implicando no desrespeito
dos limites dos clientes, levando-os a se sentirem invadidos,
o que pode inclusive prejudicar sua evolução
e adesão ao processo de orientação
em grupo.
Dentre as inúmeras técnicas utilizadas
em orientação vocacional (Giacaglia, 2000),
destacam-se as Entrevistas individuais e grupais. Utilizadas
com grande freqüência, são especialmente
indicadas para a seleção dos participantes,
para o aprofundamento de temáticas específicas
durante todo o processo de orientação,
inclusive no momento de realização do
atendimento de fechamento, nomeadamente a entrevista
devolutiva, característica do encerramento dos
atendimentos.
Outro recurso bastante utilizado são as Técnicas
dramáticas e lúdicas, que consistem na
representação de situações
vividas e relacionadas com a escolha a fim de possibilitar
a exploração e elaboração
de temáticas vocacionais. As Técnicas
expressivas realizadas através de jogos e as
Técnicas plásticas, através de
colagens, desenhos, argila, produção de
estórias são recursos que facilitam a
mobilização e a comunicação
de conteúdos relacionados com a problemática
da escolha.
Mesmo nos procedimentos de natureza clínica pressupõe-se
a possibilidade da utilização de técnicas
e recursos psicométricos que facilitem o acesso
ao conhecimento de habilidades e interesses dos orientandos.
No que tange às habilidades, estas podem ser
abordadas, por exemplo, com testes organizados nas denominadas
baterias, cujos resultados são inseridos no processo
de orientação em uma perspectiva complementar
e crítica. Os interesses e identificações
profissionais dos orientandos podem ser explorados através
de inventários de interesse dentre outros na
mesma perspectiva em que foram vistos os testes de exploração
das habilidades.
Outras técnicas bastante utilizadas são
as Técnicas de Informação profissional,
que consistem no desenvolvimento de atividades de consulta
a manuais sobre as profissões, entrevistas com
profissionais das áreas de interesse, fóruns
de discussão sobre as profissões, pesquisas
junto a profissionais e instituições,
etc. Essas técnicas visam exercitar o papel de
protagonista e desenvolver a responsabilidade do cliente
pelo processo.
7-
ORIENTAÇÃO VOCACIONAL E O MERCADO DE TRABALHO
Atualmente,
nossa sociedade se depara com um cenário social
marcado por uma vertiginosa aceleração
da esfera industrial/ tecnológica, caracterizada
por um ritmo acelerado de produção, cujos
impactos ultrapassam os limites dessa estrutura produtiva,
trazendo consideráveis repercussões em
termos sociais e pessoais.
A universalização da comunicação,
possibilitada pela internet, a aceleração
da capacidade de processamento de informações,
a potencialização da produção
e automação tecnológica provocam
mudanças no âmbito social, no qual essa
nova realidade se insere. O mercado de trabalho e de
formação profissional são profundamente
afetados pelas mudanças deflagradas.
As novas condições criadas pelo avanço
tecnológico/produtivo trazem diversas alterações
a esse mercado: tal como a redução dos
postos de trabalho, a conseqüente ampliação
do desemprego, a extinção de diversas
funções, a criação de novos
espaços ocupacionais, a modificação
do escopo de profissões, alteração
de atribuições e de responsabilidades,
mudança de valor e prestígio conferidos
às profissões, alteração
do conceito de emprego e de carreira etc.
Sobre o tema discorre Mansano (2003) detalhadamente
em seu livro intitulado Vida e profissão: cartografando
trajetórias. A interface mercado/profissão/sujeito/orientação
pode ser com a ajuda de nomeada obra mais amplamente
compreendida:
Cotidianamente
deparamo-nos com uma demanda apresentada pelo mercado
de trabalho, que muitas vezes assume contornos ameaçadores
devido, entre outros fatores, ao alto índice
de desemprego. Assim preocupar-se com a profissionalização
e com a carreira a ser construída, contextualizar
as preferências pessoais ao mercado de trabalho,
investir em currículo e na aquisição
de experiência profissional no decorrer da formação
acadêmica, são exigências concretas
aos quais nem todos os adolescentes e adultos estão
envolvidos. Entretanto, uma vez expostos ao mercado
de trabalho, adolescentes e adultos estão sujeitos
a esses poderes, que vêm sendo utilizados de maneira
incisiva e direta na atualidade. E, em face dessa realidade,
muitas vezes eles não sabem como agir (p. 22).
Essas
alterações no mercado de profissões
vão exigir a atualização da prática
de orientação vocacional que pretenda
atuar como instrumento que busca favorecer a inserção
responsável das pessoas no mundo do trabalho,
sem violentar o movimento e o ritmo de experimentação
dos processos de escolha dos jovens.
A prática tradicional de orientação
profissional baseou-se por muito tempo no exaustivo
levantamento de aptidões, características
de personalidade, levantamento de potencial intelectual,
levantamento de interesses, além de um espaço
de orientação profissional. Todas essas
etapas são permeadas por entrevistas dispostas
ao longo do processo. O conjunto de informações
levantadas acabam por nortear o jovem quanto à
carreira que quer e pode seguir. Essa prática
se fundamenta na ideologia do profissional eficaz, bem
sucedido, que dispõe de uma ampla gama de oportunidades
no mercado, e cujo sucesso profissional dependerá
de saber lidar com as informações obtidas.
Desse modo, a reflexão que se faz pertinente
é a de se as teorias e práticas de orientação
vocacional tradicionalmente utilizadas estariam em consonância
com a nova configuração do mercado de
ocupações. A prática de orientação
vocacional realizada estaria contribuindo de maneira
eficiente para a inserção responsável
do jovem no mercado?
Dentro da realidade sócio-econômica atual,
verifica-se uma transformação e reestruturação
dos alicerces das profissões e de seus espaços
ocupacionais. A realidade de mercado expande a gama
de categorias profissionais, de modo que fica impossível
trabalhar apenas com as categorias tradicionais de carreira,
como por exemplo, a engenharia, administração,
pedagogia, direito, medicina, etc. As atribuições
exigidas pelo mercado não se encaixam diretamente
no escopo das categorias profissionais que eram demandadas
no passado. Surgem novas necessidades e exigências
ocupacionais. Novas especialidades são desenvolvidas,
levando ao aparecimento de carreiras constituídas
a partir de confluências ocupacionais, tal como
engenheiro mecatrônico (espécie híbrida
entre a engenharia elétrica e a mecânica),
engenheiro de produção, engenheiro de
segurança, gerente de relacionamento, administrador
de contratos etc. "Não podemos esquecer
ainda que a constituição da profissão
deve ser encarada como um projeto em aberto permanentemente
interferindo nas trajetórias de vida, não
podendo ser desvinculada de forma alguma das múltiplas
dimensões aí presentes" (Mansano,
2003, p.24).
Nessa nova realidade social, campos de saber tidos como
distantes e incomuns têm, cada vez mais, terreno
de atuação. É o caso de, por exemplo,
engenharia genética, engenharia nuclear, técnico
em fotônica, além de muitas outras profissões
e atividades resultantes da evolução da
informática.
Essa multiplicidade de questões envolvidas na
escolha profissional atual faz suscitar o questionamento
de se a orientação vocacional estaria
exercendo uma prática de atuação
embasada numa reflexão sobre as mudanças
que se deflagram, buscando formas de atuação
que contemplem as novas necessidades dos orientandos
resultantes das evoluções e mudanças
no mercado.
O trabalho de orientação vocacional tradicionalmente
realizado enfatiza a compreensão de aspectos
de natureza psicológica do sujeito. Mas a informação
profissional também é contemplada nos
processos de orientação, mobilizada pelo
discurso de autores como Bohoslawsky (1993), que afirmam
ser a informação profissional uma condição
essencial para a escolha responsável. Essa etapa
de informação centra-se, de fato, apenas
na busca de informação sobre profissões
específicas, tendo como parâmetro a roupagem
tradicional das ocupações, sem contemplar
questões mais amplas sobre as mudanças
mercadológicas e o movimento de expansão
das profissões que vêm ampliando ainda
mais as possibilidades de escolha.
O processo de informação profissional
que esteja sincronizado com o fluxo do mercado deve
possibilitar, conforme assinala Levenfus e Soares (2002),
o conhecimento mais aprofundado e atualizado do que
realmente vem ocorrendo no que se refere ao mercado
de trabalho no passado, no presente e no futuro, buscando
conhecer as possibilidades reais de inserção
nesse mercado.
Desse modo, o serviço de orientação
vocacional que busque manter-se socialmente relevante,
deve pressupor um redimensionamento teórico-metodológico
que permita contemplar em sua prática, aspectos
sobre realidade do mercado atual, de modo a facilitar
a inserção responsável do indivíduo
nessa realidade específica à qual pretenda
pertencer no futuro.
8-
APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS:
A
disciplina de Orientação Vocacional oferecida
pelo curso de Psicologia da universidade pública
federal que abrigou o presente trabalho nos primeiro
e segundo semestres letivos de 2002 centrou-se no estudo
teórico e na prática da orientação
vocacional. Essa disciplina proporcionou aos alunos
um aprofundamento no estudo teórico sobre os
métodos e as técnicas em orientação
vocacional já iniciado em disciplinas anteriores,
a fim de permitir aos mesmos, estruturar e realizar,
com a supervisão de um professor, práticas
de atendimento em orientação vocacional.
A conclusão da disciplina prevê a realização
de um relatório dos atendimentos realizados,
no qual são descritas as práticas realizadas
e esclarecem sobre os métodos e técnicas
utilizados, sobre as características da problemática
do cliente, sobre a evolução do mesmo
ao longo do processo, pressupostos teóricos do
trabalho, etc.
Os alunos dessa disciplina tem autonomia na escolha
do tipo de atendimento, do método de intervenção
e das técnicas a serem utilizadas na estruturação
das sessões. Ao longo da realização
da prática de O. V., recebem supervisão
semanal com o professor, que possibilita o esclarecimento
de dúvidas e a troca de informações
sobre a evolução dos atendimentos. Nomeados
atendimentos são realizados na Clínica
Escola de Psicologia, entidade acadêmica que fornece
diversos serviços de psicologia à comunidade
de baixa renda da capital e do interior do estado no
qual se localiza. Na Clínica Escola, os alunos
do curso de Psicologia realizam, com supervisão
docente diversas práticas psicológicas
complementares às disciplinas cursadas ou como
parte de estágios curriculares e projetos de
extensão.
A pesquisa compreendeu a análise de 20 relatórios
de orientação vocacional, tendo assim
abrangido todos os trabalhos realizados ao longo dos
dois semestres letivos em questão. Tais relatórios,
constituídos por 18 atendimentos de natureza
individual e dois de grupo, foram catalogados e submetidos
a uma leitura detalhada, o que possibilitou a obtenção
de 15 categorias, dispostas em quadros de atendimento
individual e de grupo.
As 15 categorias foram definidas da seguinte forma:
" Sexo
" Idade
" Instrução
" Nível socioeconômico
" Grau de satisfação atual com a
escolha profissional
" Grau de conhecimento atual da escolha pretendida
" Características da problemática
" Número de atendimentos
" Método de atendimento
" Base teórica de atendimento
" Recursos utilizados
" Resultados almejados
" Resultados alcançados
" Grau de satisfação do orientador
com o processo
" Grau de satisfação do cliente com
o processo.
Os dados viabilizados a partir do agrupamento de categorias
foram submetidos a análise quantitativa e qualitativa.
A análise quantitativa baseou-se nos dados numéricos
presentes nos relatórios em torno das categorias
consideradas e a qualitativa, consistiu em uma análise
de conteúdo, levando-se em conta diversas abordagens
teóricas em orientação vocacional,
como por exemplo aquelas preconizadas por Bohoslavsky
e por Levenfus e Soares.
Na primeira categoria, denominada Sexo dos orientandos,
verificou-se um predomínio do sexo feminino na
procura por orientação vocacional. Essa
procura maior das adolescentes pelo serviço é
compatível com o esperado para a realidade da
instituição. Observa-se a mesma tendência
para outras naturezas de trabalho psicológico
efetuado na Clínica-escola.
Na categoria Idade, verifica-se que os orientandos encontram-se
em sua maioria na faixa etária entre 16 e 20
anos. A população atendida na clínica
escola corresponde àquela que Bohoslavsky (1993)
tem como prioritária nesses casos. O autor acredita
que é na adolescência, especificamente
entre os quinze e dezenove anos aproximadamente, que
emergem as dificuldades e soluções de
natureza vocacional, delineando-se com mais clareza,
os conflitos ocupacionais. "Todas as dúvidas
do jovem a respeito de quem quer ser obedecem a identificações
que ainda não se integraram", (BOHOSLAVSKY,
1993, p.66).
Quanto à categoria Grau de instrução,
verificam-se tanto alunos que têm o nível
superior incompleto, tratando-se aqui de alunos que
fizeram escolhas profissionais, ingressaram em uma universidade,
mas resolveram reavaliar sua escolha, quanto orientandos
que estão cursando o segundo grau e sentiram
necessidade de recorrer ao serviço de OV.
Quanto à categoria Nível socioeconômico
foram encontrados dados que apontam para diferentes
níveis socioeconômico da população
atendida não correspondendo ao padrão
de outros atendimentos da clínica-escola nos
quais a maioria absoluta é constituída
de pessoas de níveis socioeconômicos desfavorecidos.
No caso da Orientação Vocacional, talvez
por ser uma prática muito atrelada à escolha
de carreiras acadêmicas na forma em que é
concebida na clínica-escola, se evidencia uma
tendência de participação de uma
maioria do que denomina-se comumente de membros da classe
média. Verifica-se, portanto, que 60% da população
são de nível socioeconômico médio
enquanto 40% da população são de
nível socioeconômico baixo. Deve-se, por
outro lado, levar em conta que os dados para constatação
de nível socioeconômico da população
atendida se baseiam basicamente nas afirmações
dos orientandos, tendo em vista não ser exigida
comprovação de renda para sua adesão
aos atendimentos.
Quanto à categoria Grau de satisfação
atual com a escolha profissional, verifica-se uma insatisfação
atual em relação à escolha profissional
realizada. Apesar de não se excluir a priori
a possibilidade da busca de OV por parte das pessoas
que já realizaram alguma escolha ou se dizem
conhecedoras do que querem fazer, é praxe uma
predominância daquelas que têm queixas por
conta de indecisão nesses processos.
O grupo analisado apresenta relativamente aos casos
atendidos na clínica escola, um número
maior de orientandos satisfeitos com a situação
da escolha no início dos atendimentos.
Podemos perceber a relação entre as categorias
Grau de instrução, que aponta nível
superior incompleto e a categoria Grau de satisfação
atual com a escolha profissional que aponta insatisfação
atual com a escolha realizada. Este aspecto de insatisfação
com a profissão escolhida e a busca pela profissional
é tratada no âmbito da modalidade clínica.
Segundo essa modalidade o objetivo da orientação
é fazer com que o jovem consiga elaborar os conflitos
que experimenta em relação a sua escolha
profissional, o que lhe permite até mesmo repensar
escolhas já realizadas.
Na categoria Grau de conhecimento atual sobre a escolha
pretendida, verifica-se que os orientandos possuem conhecimentos
vagos e insatisfatórios sobre as profissões
de seu interesse: observa-se um percentual de orientandos
com conhecimentos satisfatórios em torno de 24%
em detrimento dos orientandos com conhecimentos insatisfatórios
(76%) sobre a escolha pretendida. Segundo Levenfus e
Soares (2002) um dos principais itens observados para
que ocorra um consistente processo de escolha é
a informação profissional: "não
é raro jovens alegarem desconhecimento total
da profissão pela qual estão interessados.
Alguns apresentam idéias bastante distorcidas;
outros demonstram inibições do pensamento
ou medo de errar ao expor suas idéias" (p.
68).
Os resultados apresentados sobre o conhecimento atual
da escolha corroboram com a idéia de Lassance
(citado por Levenfus e Soares, 2002, p. 68) sobre a
grande desinformação profissional entre
jovens prestes a entrar no mercado de trabalho ou iniciar
uma formação para tal:
É comum que os jovens estejam desinformados.
Verifica-se que a exploração profissional
desenvolvida pelos jovens é pouco sistemática
e pouco planejada. É significativa a falta de
informações que o adolescente demonstra
tanto acerca de si mesmo, quanto acerca do mundo do
trabalho e das profissões em geral.
A
pesquisa realizada aponta que 76% dos orientandos não
dispõem de conhecimentos sistemáticos
sobre as áreas de interesse. As informações
são gerais e insuficientes para facilitar a escolha
vocacional. Desse modo, a utilização de
técnicas de informação profissional
deve ser bem reforçada pelos orientadores profissionais.
Na categoria Características da problemática,
a questão da insatisfação com as
escolha realizada aparece em 7 dos 20 relatórios
pesquisados e é tida como foco da problemática.
Enquanto isso, verifica-se em 4 relatórios que
as problemáticas giram em torno de ansiedade
quanto a escolha, conflitos sobre a escolha, medo de
errar na escolha, insegurança para realizar a
escolha profissional. Já noutros três relatórios
a questão da influência dos pais na escolha
é colocada como foco da problemática:
temos um conflito gerado pela influência exercida
pelos pais na escolha, noutra situação
o orientando diz-se sentir inseguro por não corresponder
aos seus padrões familiares e ainda noutro a
cliente tem conflitos relacionados com a necessidade
de suas escolhas estarem ligadas a uma aceitação
e reconhecimento por parte de sua família: "as
influências, sejam elas explícitas ou sutis,
existem e devem ser consideradas. É importante
que sejam conscientes, pois conhecendo-as, o indivíduo
pode utilizá-la de forma positiva e construtiva,
selecionando-as e adequando-as aos seus próprios
desejos e valores" (Andrade, citado por Levenfus
e Soares, 2002, p.70).
O jovem pode identificar-se com aquilo que é
esperado para ele, pode recusar essa identificação
e, ainda em alguns casos, toda escolha pode lhe parecer
impossível (Levenfus e Soares, 2002, p.71).
Ainda em relação à categoria Características
da problemática, em três relatórios
os orientando apontam que sua problemática gira
em torno da dificuldade de escolher devido à
existência de dúvidas com relação
às profissões de interesse. As dúvidas
abrangem falta de informação sobre as
possibilidades de atuação prática,
sobre mercado e trabalho e áreas de atuação
e ainda sobre a possibilidade de satisfação
com a atividade realizada.
A categoria Número de atendimentos, aponta um
número de sessões de atendimento em O.
V. que varia de 5 a 11. Verifica-se uma concentração
maior entre 6 e 8 sessões para atendimentos individuais.
Já os dois atendimentos grupais, foram realizados
em 11 atendimentos.
O número de sessões varia conforme as
diferentes demandas expostas nos relatórios.
Tais números estão coerentes com o que
é exigido a partir de metodologias específicas
e outros aspectos inerentes aos contratos estabelecidos.
Na categoria Método de atendimento, a modalidade
clínica de atendimento em orientação
vocacional é apontada em 10 relatórios
enquanto em 8 outros o método-clínico
operativo é mencionado. O método clínico-operativo
constitui-se de uma adaptação do método
clínico às demandas e necessidades encontradas
por orientadores vocacionais em sua atuação.
Esse método é fundamentado nos mesmos
postulados teóricos do método clínico
preconizado por Rodolfo Bohoslawsky.
Os dois outros relatórios apontam a utilização
de uma metodologia mista, a saber: clínica e
psicométrica. A metodologia mista visa atrelar
os princípios e instrumentos do método
clínico com aqueles do método psicométrico,
que indicam a utilização de testes psicológicos
de aptidões e interesses. Nenhum dos relatórios
analisados faz referência à utilização
exclusiva do método psicométrico.
Quanto à categoria Base Teórica de Atendimento,
18 relatórios apontam Rodolfo Bohoslawsky como
fonte teórica para o trabalho realizado. Apesar
da grande maioria dos orientadores (89%) apontar a prática
do método clínico nos atendimentos, devem
ser considerados determinados recursos adaptativos que
o diferenciariam do método clínico original,
ou seja "puro". Em dois relatórios
a autora Marina Muller é citada como fornecedora
da sua base teórica, cujo método de trabalho
de orientação vocacional toma por referência
os princípios clínicos preconizados por
Bohoslawsky. Um dos relatórios cita como base
de atendimento a teoria de Bohoslawsky mas acrescenta
complementá-la com a teoria sociométrica
de Moreno. Dois outros relatórios apontam a utilização
dos preceitos teóricos de Maria Luiza Camargo
Torres, postulados que se distanciam daqueles de Bohoslawsky.
Sobre seu referencial metodológico, TORRES (2002,
p.81) assinala :
No início de nossa prática fomos subsidiados
pelas idéias de Rodolfo Bohoslavky, uma vez que
ele foi o precursor desse modalidade de atuação,
brindando-nos com caracterização e a sistematização
da orientação associada à investigação
clínica. No entanto, à medida que aumentamos
nossas pesquisas na área de orientação
clínica e também adentrando-nos no estudo
da teoria psicanalítica, constatamos que essa
passou verdadeiramente a servi-nos de material teórico
(...).
O
método de Torres diferencia-se do autor pela
fonte teórica, pela metodologia e pelos recursos
técnicos. Bohoslawsky emprega vários recursos
técnicos nas orientações individuais
e em grupo. A autora abstém-se da utilização
de testes psicológicos e prioriza as entrevistas
e o trabalho de cunho individual.
Três relatórios, incluindo dois baseados
em atendimentos de grupo, apontam a referida autora
como base teórica. Outros dois relatórios
apontam a utilização de uma metodologia
de natureza mista (clínica e psicométrica),
mencionando, porém, como base teórica
de atendimento somente o precursor da modalidade clínica
de atendimento.
Verifica-se que 89% dos atendimentos realizados são
de natureza clínica e que em 85% desses atendimentos
têm em Bohoslaswky sua principal fonte teórica.
Desse modo, podemos verificar a forte influência
e predominância desse modalidade nas práticas
de O. V. realizadas pelos alunos estagiários
na Clínica Escola pesquisada. Deve-se ressaltar
que tais orientadores vêm de experiências
diversas ao longo do curso de Psicologia, inclusive
experiências anteriores relacionadas ao atendimento
em orientação vocacional. Resta constatar
se isso acontece por uma escolha teórica amadurecida
no desenvolvimento da profissão de orientador
vocacional ou por outros motivos, como por exemplo,
dificuldade de acesso a trabalhos de outros autores,
direcionamento de supervisores, tempo de formação
insuficiente para opções teóricas
na área, etc.
Quanto à categoria Recursos Utilizados, 100%
dos relatórios fazem referência a utilização
de entrevistas. Desse modo, podemos apontar a importância
desse recurso para a operacionalização
do processo de orientação vocacional,
coerente com o que é preconizado por diversos
autores aqui considerados.
O alto percentual de utilização de entrevistas
em OV corrobora também com a idéia de
Levenfus e Soares (2002, p.302) sobre a grande importância
desse recurso nos processos de orientação
vocacional: "a entrevista é o principal
instrumento do orientador profissional e pode-se afirmar
que não é possível a realização
do processo de OV sem utilizar-se deste recurso em algum
momento do trabalho (...)".
Os dados obtidos sobre a utilização da
entrevista pelos alunos estagiários evidenciam
a importância e conhecimentos que os mesmos possuem
sobre essa técnica.
18 dos relatórios pesquisados fazem referência
à utilização de técnicas
dinâmicas ou psicodramáticas. Essas técnicas
abrangem a utilização de questionários,
dramatizações, jogos técnicas plásticas
(desenho, colagem) conforme exposto no sexto item do
presente estudo.
A superioridade da freqüência de técnicas
dinâmicas e psicodramáticas aponta que
mesmo reconhecendo-se a entrevista como instrumento,
por excelência, do processo de OV, as demais técnicas
podem complementá-las a contento.
Apenas dois dos relatórios em questão
não dizem ter utilizado técnicas dinâmicas,
limitando o processo a entrevistas e inventários
de interesses. A utilização de Inventários
de interesses como recurso técnico na orientação
vocacional é apontada em seis relatórios.
Ainda temos em dois relatórios a menção
ao uso de testes psicométricos de inteligência
e/ou habilidades específicas. Um dos relatórios
diz do uso do teste projetivo HTP, enquanto um outro
afirma ter sido utilizado entre as técnicas de
acesso ao mundo do orientando o teste projetivo Desiderativo.
Segundo Cabrera (1999), este teste pode ser usado em
diversas atividades práticas da psicologia, inclusive
em orientação vocacional.
Em relação à categoria Resultados
pretendidos, em um dos relatórios, o orientando
tem como objetivo dar um novo rumo ao seu futuro profissional,
ou seja realizar mudança de profissão.
Noutro relatório o cliente afirma: "que
fique ali claro para ele o que estará realizando
nos próximos 30 a 40 anos". Do mesmo modo,
em um determinado relatório o orientando tem
como resultado almejado conseguir, ao final do processo,
realizar uma nova escolha profissional, vendo-se ainda
em um outro que a cliente busca ao final da O.V. conseguir
escolher um curso universitário.
Conforme exposto no quinto item deste estudo, verifica-se
que a modalidade clínica traz um posicionamento
específico quanto aos resultados a serem obtidos
ao final do trabalho de orientação vocacional.
Concebe que o cliente pode ou não sair do processo
com uma escolha realizada, o que dependerá da
construção e desenvolvimento seguido pelo
mesmo, que pode reconhecer-se num momento que seja inviável
optar por uma profissão. Essa modalidade prevê
que nem todos os clientes encontram-se no mesmo momento
em relação a sua escolha profissional.
Nem todos conseguem percorrer igualmente etapas como
investigação de si mesmo, confrontação
com medos e ansiedades, o pensar sobre as influências
na sua escolha, tolerar a dor e o luto que podem advir
das escolhas feitas ou lidar com as ambivalências.
Desse modo, verifica-se que os orientandos chegam ao
processo com pretensões fantasiosas em relação
aos resultados alcançados nos atendimentos de
O.V. Cabe ao psicólogo esclarecer essas expectativas
para que o mesmo possa desenvolver seu protagonismo
em relação ao processo e à escolha
profissional.
Temos em oito diferentes relatórios orientandos
que assinalam em seu discurso terem como objetivo maior
resolver dúvidas, a fim de obter mais clareza
em relação à escolha e às
profissões de interesse. Em um outro relatório
o orientando afirma o objetivo de confirmação
sobre a área de interesse e a obtenção
de mais informações sobre a mesma. Trata-se
de uma demanda comumente apresentada pelos jovens que
chegam ao processo buscando confirmar uma escolha já
vislumbrada. Vê-se ainda noutros momentos a pretensão
de reavalição do futuro profissional,
resolver conflitos sobre a escolha profissional ou resolver
"uma confusão em relação ao
curso pretendido".
Quanto à categoria Resultados alcançados,
cerca de doze orientandos assinalam em seu discurso
que o processo possibilitou-lhes segurança e
tranqüilidade sobre a escolha profissional, outros
4 assinalam que com os resultados obtidos no processo
de orientação vocacional obtiveram um
maior conhecimento de si e de seu protagonismo na escolha
e maiores esclarecimentos das dúvidas sobre a
escolha profissional. Um cliente assinala ainda: "cheguei
aqui esperando que minhas questões fossem respondidas,
mas agora consigo parar para refletir por mim mesmo
e não mais questionar sobre o que está
por vir". Uma outra orientanda também esclarece
sobre o resultado alcançado: os encontros haviam
ajudado muito e que por mais que as dúvidas ainda
existissem, ela sabia, que conseguir esclarecê-las,
dependeria dela.
"Um maior conhecimento de mim mesma, apesar de
ainda ter dúvidas em relação à
escolha" é o discurso da orientanda que
corrobora com os princípios da orientação
vocacional, pois segundo Müller, "não
objetiva necessariamente a decisão, mas a preparação
para esta, através da sensibilização
do cliente para o autoconhecimento e para o conhecimento
da realidade ocupacional (...)" (1988, p. 14).
Vê-se ainda a sensação de alguns
orientandos de terem conseguido ao longo do processo
assumir e/ou resgatar antigos interesses profissionais.
Um cliente relata que ainda não tem total certeza
de suas escolhas, mas já consegue lidar de forma
mais tranqüila com seus conflitos. O discurso da
orientanda é coerente com os princípios
da orientação vocacional clínica
de buscar esclarecer e informar ao jovem, colaborando
para que o mesmo possa elaborar os conflitos que enfrenta,
a fim de estabelecer uma imagem não conflitiva
de sua identidade profissional, e poder por si só,
obter subsídios para chegar a uma decisão
pessoal e responsável sobre seu futuro profissional.
A partir das categorias Resultados alcançados
e Resultados pretendidos, pode-se verificar que os clientes
chegam ao processo de O.V. com expectativas fantasiosas,
que não necessariamente poderão ser alcançadas.
Ao final do processo, verifica-se que os mesmos atestam
terem alcançado resultados relacionados com maior
clareza sobre interesses, menos dúvidas em relação
à escolha, resolução de conflitos,
confirmação de interesses e exercício
do protagonismo em relação à escolha
profissional.
Quanto à categoria Satisfação do
orientador com o processo, verificam-se avaliações
positivas do processo de orientação vocacional.
Podemos verificar avaliações norteadas
pelos benefícios obtidos pelo orientador com
o processo em seus relatos, como por exemplo: "pude
amadurecer pessoal e profissionalmente", "utilizei
um método e fiz jus a ele", "possibilitou-me
conhecimento prático". Pode-se constatar
ainda determinados resultados segundo o desempenho dos
orientandos: "avalio como satisfatório pela
grande evolução alcançada pelo
grupo". A atividade é às vezes citada
como importante para o crescimento profissional, a satisfação
veio por "ter utilizado uma metodologia que alcançou
bons resultados". Outros fazem uma análise
do processo como "oportunidade de amadurecimento"
nessa área de atuação ou apontam
a importância do processo para a consolidação
de conhecimentos práticos sobre orientação
vocacional. Alguns expressam o desejo e interesse em
continuar exercendo a prática de O.V. iniciada
na universidade. O processo é citado por alguns
como satisfatório em virtude da evolução
que os orientandos apresentaram. Veja para ratificar
essa posição o relato de um orientando
que se diz sentir satisfeito por ter podido trabalhar
os momentos de desmotivação e interesse
relacionados ao processo de O V. Dois dos relatórios
não apresentam referência ao processo vivenciado
pelos orientadores.
Na categoria Satisfação do cliente com
o processo, verifica-se que o processo é tido
como satisfatório em todos os 20 relatórios
de atendimento. Em alguns casos a satisfação
com o processo não é explicitada diretamente
no relatório pelo cliente, mas pode ser inferida
a partir de sua evolução no mesmo. Uma
determinada cliente avalia o processo como proveitoso
por estar mais tranqüila quanto a sua escolha.
Dois casos de satisfação do cliente com
a orientação estão expressas no
nível de autoconhecimento atingido como resultado
do processo. Um determinado relatório aponta
que a cliente refere ter gostado do processo, por ter
proporcionado maior conhecimento sobre si e sobre as
profissões, enquanto noutro vê-se que a
cliente relatou que gostou de participar do mesmo, pois
foi um momento de conversas, informações
e reflexões que proporcionaram um maior conhecimento
sobre si própria e sobre o que deseja para o
seu futuro.
O estado de satisfação com o processo
relaciona-se em alguns casos com responsabilização
pessoal para com a escolha, noutros, o que contou para
essa satisfação, foi, segundo os relatos,
terem passado a se responsabilizar por suas escolhas,
ou terem visto o processo como produtivo e satisfatório,
na medida em que conseguiu parar para refletir por si
mesma e sobre seu futuro, conseguir esclarecimentos
sobre as profissões de interesse: "o processo
foi interessante, as dúvidas diminuíram
e agora estou prestes a me decidir".
Ainda em outros relatos deduz-se que a satisfação
com o processo está relacionada com a oportunidade
de reelaboração da profissão já
escolhida. Segundo uma cliente "o processo foi
satisfatório, na medida em que pude reelaborar
aspectos da profissão que havia escolhido, bem
como estruturá-la para um maior engajamento no
mercado de trabalho". O processo também
pode, segundo outros relatos, facilitar as escolhas,
uma cliente refere ter conseguido ajuda não só
na escolha profissional como também nos seus
relacionamentos fora do grupo. Alguns clientes falam
claramente de realização da escolha, pois
tiveram, por meio do atendimento, a chance de definir
o curso a fazer no futuro.
Verifica-se que as assertivas utilizadas pelo cliente
para referir satisfação relacionam-se,
em sua maioria, com os próprios objetivos do
trabalho de orientação vocacional de natureza
clínica, cujo objetivo é o de instrumentalizar
a escolha e a construção da identidade
profissional pela via do autoconhecimento e da articulação
entre conhecimentos do mundo do trabalho e o universo
subjetivo do orientando:
Cabe ao psicólogo, realizar um trabalho que tem
por finalidade levar o orientando a por em prática
seu protagonismo quanto a se conhecer, conhecer a realidade
e tomar decisões reflexivas e de maior autonomia,
que leve em conta suas próprias determinações
psíquicas assim como as circunstâncias
sociais (Müller,1988, p.14).
CONCLUSÃO
A
pesquisa constituiu-se de um estudo exploratório
que possibilitou a obtenção de informações
sobre a realidade dos atendimentos em O.V na Clínica
Escola de Psicologia de uma universidade pública
federal. Tais informações poderão
face à atual sistematização, vir
a ser investigadas sob outras perspectivas.
No que concerne às categorias de análise,
foram tiradas determinadas conclusões baseadas
na freqüência de ocorrência e no conteúdo
dos relatórios analisados.
Vale a pena ressaltar alguns tópicos organizados
a partir da investigação realizada no
presente trabalho: o predomínio do sexo feminino
nos atendimentos de orientação vocacional
realizados, correspondendo ao que sucede na Clínica-escola
no que tange aos demais atendimentos; uma predominância
dos orientandos na faixa de 16 a 20 anos, que correspondente
àquela tida por Bohoslavsky como prioritária
nesses casos.
No que se refere ao nível de escolaridade dos
orientandos, verifica-se, em maior percentual, sujeitos
que estão cursando o segundo ou terceiro graus.
Em menor freqüência, temos indivíduos
com segundo grau completo e superior completo.
Em relação ao nível socioeconômico,
foram encontrados elementos nos relatórios que
indicam a possibilidade de enquadramento dos orientandos,
entre o nível socioeconômico baixo e médio.
Nos demais atendimentos da Clínica-escola a procura
parte por pessoas oriundas de classes sociais mais desfavorecidas
economicamente. Deve-se refletir se a prática
de O.V. não tende a ser mais conhecida e difundida
entre escolas particulares e meios socioeconômicos
mais favorecidos criando uma barreira para sua aplicação
em outras realidades.
No que tange a aspectos internos ao processo de O.V.,
verificou-se que o grau de conhecimento atual sobre
a escolha profissional da população considerada
é insatisfatório, mesmo em se considerando
aquelas profissões para as quais demonstram interesse
prévio. Os clientes chegam ao processo de orientação
com conhecimentos gerais e superficiais sobre as diversas
áreas, sem dispor de informações
mais amplas sobre as possibilidades de atuação
e realidade de mercado, condições que
Bohoslawsky (1993) e Levenfus (2002) estabelecem como
fundamentais para uma escolha responsável.
Considerando a importância do conhecimento do
cenário socioeconômico e de sua realidade
ocupacional para uma inserção responsável
nesse contexto, faz-se pertinente que as práticas
de O.V. realizadas elaborem estratégias para
maximizar a investigação dos alunos, de
modo a permitir aos mesmos se aproximar do universo
de trabalho. Conforme Prado Filho (1993), dinâmicas
de sondagem e atividades práticas informativas
devem ser cada vez mais priorizadas.
No que concerne ao grau de satisfação
atual com a escolha profissional, verifica-se que os
sujeitos que procuram a orientação, em
sua maioria, encontram-se insatisfeitos com a
escolha profissional já realizada. Essa insatisfação
aparece vezes ao término dos estudos universitários
ou ainda durante os mesmos. Muitas vezes essa insatisfação
já aparece na época do ensino médio,
quando ainda estão apenas vislumbrando possibilidades
de formação profissional ou inserção
no mercado.
Em relação ao número de atendimentos
realizados no processo de O.V., verifica-se que este
varia entre seis e onze sessões.
Nos métodos de atendimento, verifica-se o predomínio
da prática de cunho clínico de atuação.
Não foram encontrados nos relatórios elementos
que apontem a utilização da modalidade
psicométrica propriamente dita, tal como exposta
no item 5.1 deste estudo. Apesar da amostra considerada
no presente trabalho se restringir a uma situação
de prática acadêmica, deve-se questionar
se na formação e prática dos novos
orientadores uma maior utilização de outras
estratégias que não a psicométrica
tradicional não se caracteriza como tendência
na área, conforme esperado no cenário
atual.
Os testes psicométricos de habilidades específicas
e de inteligência não foram utilizados
nos processos, o que assinala a atual perspectiva de
utilização de testes psicológicos
como recursos complementares utilizados para ampliar
as informações sobre o cliente, no sentido
de auxiliar o mesmo na sua tomada de consciência.
Desse modo, verifica-se nos atendimentos em questão
que as práticas atuais redimensionam o lugar
do teste psicológico no processo, no qual deixa
de ser o instrumento central deste processo e passa
a ser um recurso a mais em prol da compreensão
do cliente.
No que concerne ao referencial teórico de atuação,
verifica-se que os alunos estagiários têm
na teoria preconizada por Rodolfo Bohoslavsky e seus
seguidores, o principal embasamento para a prática
de O.V. atualmente realizada. Autores como Maria Luiza
Camargo Torres e Moreno foram também citados
como modelos teóricos de base.
Em relação às técnicas utilizadas,
atesta-se a utilização predominante de
entrevistas. Dinâmicas com colagem, de autoconhecimento,
de reflexão, questionários, dramatizações,
jogos, técnicas plásticas (desenho, colagem)
foram utilizadas com freqüência pelos estagiários.
Os inventários de interesse e testes projetivos
também foram contemplados nas práticas
de O.V. realizadas. Os estagiários fizeram uso
restrito de testes de habilidade específica e
prescindiram de testes de inteligência nos atendimentos
em questão.
Foi possível observar determinadas queixas mais
freqüentes entre os jovens atendidos, a saber:
aspectos relacionados à insatisfação
com a escolha realizada, ansiedade quanto à escolha,
conflitos sobre a escolha devido à influência
dos pais, medo de errar, insegurança para realizar
a escolha profissional, etc. Dúvidas em relação
às profissões devido à ausência
de conhecimento detalhado sobre as mesmas também
foram citadas pelos clientes.
No que concerne aos resultados pretendidos em relação
à orientação vocacional, verifica-se
que os clientes chegavam, muitas vezes, ao processo
com expectativas fantasiosas sobre o objetivo a ser
alcançado em seu final. Desse modo, coube aos
orientadores vocacionais esclarecê-los quanto
aos objetivos do trabalho, quanto aos papéis
a serem desempenhados, de forma a levar o jovem a se
responsabilizar pela escolha, concebendo-a como conseqüência
de um percurso singular que só o mesmo poderia
realizar e que não necessariamente terminaria
com o final do processo de O.V. em si. Muitas vezes,
trata-se do início de um processo maior no qual
a O.V. deu apenas o pontapé inicial.
Em relação aos resultados alcançados
com o processo de O.V., verificou-se que os clientes
referiram ter alcançado maior conhecimento de
si e de seu protagonismo na escolha, maior segurança
sobre a escolha profissional e terem feito esclarecimentos
de dúvidas nessa área. Conclui-se que
a prática realizada pelos estagiários
está em grande parte de acordo com os pressupostos
do método clínico de base.
Quanto ao grau de satisfação do orientador
com o processo, verifica-se que os mesmos denotaram,
em sua maioria, satisfação em relação
ao processo. Percebe-se a partir das avaliações
dos relatórios que a satisfação
está ligada ao desenvolvimento prático
do papel de orientador e também relaciona-se
com a gratificação pela boa evolução
dos clientes no processo de O.V.
Quanto aos orientandos, estes apontam, em sua maioria,
satisfação com o processo, uma vez terem
conseguido obter maior clareza e segurança no
que tange à escolha, à resolução
de conflitos, ao esclarecimento de dúvidas e
de interesses.
Dos relatórios analisados, observam-se apenas
dois atendimentos de grupo. Por questões circunstanciais
de exigência de viabilização do
procedimento prático pelos estagiários,
compreende-se que os alunos optam pelo planejamento
e operacionalização de uma prática
individual de O.V, apesar de sabermos que tal estratégia
de atendimento vai de encontro à perspectiva
preconizada por autores como Soares (2002, p. 293) que
priorizam a realização do trabalho em
grupo:
Acredito na possibilidade dos grupos em fazerem uma
mais profunda mudança individual e social. É
a melhor forma de realizar esse procedimento por diversas
razões, entre elas a possibilidade de identificações
recíprocas entre os membros do grupo a partir
de uma problemática; o enriquecimento pessoal
a partir da troca de idéias; o relato das experiências
pessoais compartilhadas; a possibilidade de feedback
entre os próprios membros do grupo.
Desse modo, pode-se sugerir que haja uma maior sensibilização
e preparação dos alunos para as processos
de natureza grupal na área, a fim de contribuir
para uma maior eficácia dos atendimentos, tornando-os
instrumentos que favoreçam ao jovem uma compreensão
ampla de si e do cenário profissional futuro.
Faz-se necessário registrar os limites que apresentam
as conclusões obtidas com ajuda dos resultados
do presente estudo. Uma delas relaciona-se com a coleta
dos dados, baseada em relatórios incompletos
e pouco estruturados, o que dificultou o estabelecimento
de categorias de análise. Os dados coletados
a partir das categorias estabelecidas não eram,
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