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::. Orientação vocacional na Clínica Escola de Psicologia: Um estudo exploratório
MARA ARAÚJO AGUIAR
Psicóloga organizacional. Universidade Federal do Ceará.
Email: aguiarmara@hotmail.com


ANTONIO CAUBI RIBEIRO TUPINAMBÁ

Professor Universitário (UFC). Pesquisador com apoio CAPES-MEC. Instituto de Psicologia - Universidad Complutense de Madrid (Espanha).
Email: tupinamb@ufc.br
Endereço: Calle Narciso Serra 34, 1.D, 28007 Madrid - España.


RESUMO - O presente trabalho sistematiza e analisa relatórios de atendimento em orientação vocacional realizados na Clínica Escola de uma universidade pública federal no primeiro e segundo semestres letivos de 2002. Trata-se de um estudo exploratório inicial que busca preparar o material e contribuir com análise teórica sobre o tema. Por meio de 20 relatórios utilizados no estudo, buscou-se estabelecer relações entre a prática realizada pelos alunos estagiários e diferentes abordagens teóricas sobre o tema. Os métodos e técnicas em orientação vocacional e atuais demandas do mercado de trabalho foram também abordadas no presente estudo. Os resultados obtidos pela análise dos relatórios apontam para práticas de orientação vocacional de natureza clínica, norteada principalmente pela abordagem de Rodolfo Bohoslavsky, acrescidas de outros recursos e técnicas.

PALAVRAS CHAVES: Orientação Vocacional; Métodos e Técnicas em Orientação Vocacional; Mercado de Trabalho.


1 - INTRODUÇÃO

O trabalho com orientação vocacional requer o conhecimento de teorias psicológicas acerca do tema e do universo em que se inserem as vocações e as profissões para que tal prática contemple as descobertas atuais da ciência e as demandas da realidade social, inclusive aquelas do mercado de trabalho.
É nessa perspectiva que realizamos um estudo exploratório inicial sobre as práticas de atendimento realizadas pelos alunos estagiários na Clínica Escola de Psicologia de uma universidade pública federal no período de um ano.
Além de apresentar um breve panorama sobre a evolução das técnicas, métodos e perspectivas da orientação vocacional, o estudo visou contribuir, principalmente, para maior organização e conhecimento dos atendimentos realizados, a fim de suscitar atenção investigativa e proporcionar informações para futuros atendimentos e práticas nesta área, realizadas na Clínica Escola.

2 - METODOLOGIA
O objeto investigado foram relatórios de atendimento elaborados pelos alunos no final de disciplina prática de orientação vocacional. Esse material, apesar de significar um registro rico em dados sobre a prática da orientação vocacional (O. V.), geralmente permanece arquivado, sem nenhum tratamento investigativo posterior, o que em si justifica estudos desta natureza. Tais relatórios representam os resultados dos atendimentos concluídos viabilizando uma estruturação das investigações, sendo, portanto as fontes de informações para o estudo de natureza exploratória como proposto. A definição do caráter quantitativo (aqui eminentemente para criar um quadro demográfico a partir dos dados numéricos dos relatórios) ou qualitativo do estudo exploratório, determina os procedimentos utilizados neste trabalho. Deve-se levar em conta que a construção dos relatórios aconteceu anteriormente à proposta atual de estudo, tendo sua existência prévia norteado os procedimentos a serem utilizados na coleta e na interpretação dos dados: dados existentes que se referem a um certo número de pessoas atendidas na Clínica escola, dados quantitativos e outros que podem ser apreendidos pelo pesquisador a partir de observações feitas nos relatórios, oriundas de entrevistas não-estruturadas realizadas com a amostra estudada, de observação participante, etc. (Goulart, 2002, p. 179).
O trabalho objetivou, portanto, a obtenção de dados sobre as práticas de orientação vocacional realizadas pelos alunos-estagiários, a fim de traçar um perfil dos atendimentos e analisá-los no que tange aos seus embasamentos teóricos e técnicos. Além disso foi possível organizar o material de forma a facilitar futuras investigações, bem como avaliá-los nas suas relações com a realidade social local, mais especificamente com o mercado de trabalho no qual os orientandos gostariam de se inserir no futuro. Vimos, portanto, viabilizada a preparação de material sua análise crítica a partir das teorias vigentes e a obtenção de dados sobre a realidade dos atendimentos em orientação vocacional, que poderão ser melhor investigados em pesquisas futuras.
A pesquisa exploratória foi realizada por meio da análise de uma amostra de 20 relatórios de orientação vocacional elaborados pelos alunos que realizaram na disciplina de O.V. nos primeiro e segundo semestres de 2002. Os relatórios constam de 18 atendimentos de natureza individual e dois de grupo.
Os relatórios foram numerados e submetidos a uma leitura detalhada, o que possibilitou a obtenção de categorias de análise, dispostas em quadros de atendimento individual e de grupo. O conteúdo dos relatórios foi disponibilizado nos quadros, conforme essas categorias.
Os dados viabilizados a partir do agrupamento de categorias foram submetidos a análise quantitativa e qualitativa, sendo que a qualitativa, baseou-se em análise de conteúdo, levando-se em conta diversas abordagens teóricas sobre orientação vocacional.
Na pesquisa optou-se pelo uso do termo orientação vocacional, devido a sua popularização e valor histórico, o qual vai de encontro à perspectiva de vocação concebida na pesquisa, ou seja, concebe-se que a vocação não nasce com o sujeito, mas é construída a partir da interação entre oportunidades do meio e disponibilidades pessoais.

3- ORIENTAÇÃO VOCACIONAL: UMA BREVE RETROSPECTIVA

A prática em orientação vocacional no mundo ocidental pode ser concebida a partir do período da Revolução Francesa, em 1789. Antes desse período, vigorava a influência do regime da Idade Média, que atrelava a ocupação profissional dos sujeitos a condições de nascimento.
Os princípios difundidos pela Revolução Francesa estabelecem a liberdade de escolha e legitimaram igualdade de direitos aos homens, o que lhes possibilitava fazer opção por ocupações diferenciadas daquelas determinadas por sua condição familiar.
Posteriormente, a Revolução Industrial ocasiona uma série de alterações na economia, que deflagra a mudança do modo de produção agrário para o modo de produção industrial. Esse novo modo de produção, cuja operacionalização é feita pelo uso de máquinas, vai exigir qualificação humana para sua utilização.
Os primeiros registros de trabalhos sobre orientação vocacional surgem dentro desse contexto de desenvolvimento econômico. Em 1908, Frank Parsons inaugura nos Estados Unidos o serviço de orientação vocacional e começa a por em prática os princípios da sua teoria, denominada de Traço e Fator. Parsons defende a idéia de que a adaptação às ocupações depende do equilíbrio entre as características dos indivíduos e as exigências das funções. As idéias desse autor dominaram por muito tempo os trabalhos existentes sobre o tema. O desenvolvimento da psicometria e uma série de preocupações pedagógicas fazem com que as idéias de Parsons estendam-se para a área escolar.
O desenvolvimento da Psicometria e o aumento da oferta de trabalho ocasionada pela Primeira Grande Guerra oportunizam a maciça difusão de trabalhos sobre orientação vocacional. O movimento da saúde mental, consolidado após a Primeira Guerra, também favorece a preocupação e exploração do tema.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Carl Rogers, psicólogo estadunidense, sinaliza uma abordagem não diretiva e centrada no cliente para acolher os indivíduos problemáticos, inclusive aqueles com conflitos em relação à escolha profissional, em uma atmosfera de aceitação incondicional do cliente por parte do terapeuta.
A década de 50 foi marcada pelo número marcante de pesquisas sobre o tema. Ginzberg (1951) (citado por Levenfus & Nunes, 2002) apresenta sua teoria e define a orientação vocacional como um processo de desenvolvimento que se inicia desde a infância até a fase adulta e que é irreversível. Super elabora em 1957 uma teoria com enfoque desenvolvimentista e dimensiona a orientação vocacional enquanto processo. Na concepção do autor, o desenvolvimento da vocação é um processo que acompanha o ciclo evolutivo do indivíduo. Trata-se de um processo dinâmico que resulta da interação entre as características do indivíduo e as demandas do meio. O papel do orientador dentro da teoria de Super é o de indicar uma profissão que seja adequada à imagem que o indivíduo tem de si mesmo. Holland (1959) defende que a escolha profissional deva relacionar-se com as características do sujeito. O sujeito é fruto da interação entre a hereditariedade e as demandas do ambiente, desse modo, a atividade é escolhida pelo sujeito a partir de sua percepção da ligação entre suas aptidões inatas e suas aprendizagens. A escolha, segundo Holland, deve levar em conta uma "orientação pessoal". As idéias defendidas pelos teóricos supracitados influenciaram as duas principais modalidades de atendimento em orientação vocacional atualmente realizadas. O método estatístico/psicométrico está sedimentado na teoria do traço e fator de Frank Parsons. O método clínico apresenta, em sua fundamentação, influências de Carl Rogers, Donald Super, entre outros.

4. A ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL

Quanto ao desenvolvimento da orientação vocacional no Brasil, Prado Filho (1993, p.110) assinala :
Verifica-se historicamente que a orientação profissional no Brasil se introduz através de serviços de orientação, como centros de pesquisa, desenvolvimento de técnicas e instrumentos, ainda, como centro de divulgação e distribuição do material utilizado na avaliação psicológica do orientando. Posteriormente, se multiplica nas escolas públicas e privadas de nível médio, nas universidades, nos consultórios, nas clínicas (...)

No Brasil, Roberto Mangi, engenheiro suiço, introduziu em 1924 a orientação vocacional para os alunos do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, visando obter informações sobre para qual curso orientar os alunos. Esse trabalho o motivou a começar a desenvolver atividades voltadas para orientação vocacional. Em 1931, Lourenço Filho cria o primeiro serviço público de orientação vocacional no Serviço de Educação do Estado de São Paulo. O Instituto de Seleção e Orientação Profissional do Rio de Janeiro (ISOP) é inaugurado em 1947 sob a coordenação de Mira y Lopez, data que, para muitos autores, significa o estabelecimento de fato da orientação vocacional no Brasil. Em 1962, é regulamentada a profissão de psicólogo no Brasil. Os cursos que deverão formar esses profissionais incluem em seu currículo a disciplina de Orientação Vocacional. A lei federal 4.119 legitima a Orientação Profissional como área de atuação do Psicólogo. A Lei de Diretrizes e Bases (LDB) estabelece como obrigatória a prática do serviço de orientação vocacional em todas as escolas no ano de 1971. A partir de 1980, começara a surgir publicações e teses escritas em âmbito nacional nessa área:
Passa-se a conhecer a O.V. realizada nas escolas, através dos serviços de orientação educacional, coordenados, na grande maioria, por orientadores educacionais. E também os trabalhos realizados nas universidades, em muitos centros de atendimento psicológico, ligados, em sua maioria, aos cursos de Psicologia (Soares, 1999, p.10).

Ao longo dos últimos dez anos, as idéias preconizadas por Rodolfo Bohoslawsky, a teoria de John Holland e a teoria evolutiva de Donald Super passam a se destacar cada vez mais nas práticas de orientação vocacional realizadas no Brasil: "a partir desses enfoques teóricos, muitas técnicas de trabalho em Orientação Vocacional vêm sendo desenvolvidas através de pesquisa sistemática, realizada em universidades" (Lassance,1999, p.71). Nesse contexto, tem-se a popularização de práticas de orientação vocacional em centros de atendimento ligados aos cursos de psicologia, buscando atender às crescentes demandas da população. Dentro desse perfil, podemos destacar o Serviço de Atendimento em Orientação Vocacional realizado na Clínica Escola de Psicologia da universidade pública federal, cuja prática, realizada por alunos estagiários, é objeto do atual estudo.

5-MÉTODOS DE INTERVENÇÃO EM ORIENTAÇÃO VOCACIONAL

O trabalho em orientação profissional realizado pelo psicólogo volta-se principalmente para o diagnóstico e solução de problemas que os indivíduos têm em relação ao seu futuro profissional .Diz respeito, segundo Bohoslawsky (1993, p.02) "às distintas atividades que correspondem a quadros de referência, orientações teóricas, concepções filosóficas e técnicas de trabalho (...) cujos clientes são pessoas que enfrentam, em determinado momento de sua vida a possibilidade e a necessidade de tomar decisões."
As concepções e orientações teóricas existentes em orientação vocacional assinalam práticas diversas, que se constituem em diferentes perspectivas de conceber os objetivos e o próprio objeto do trabalho, bem como as técnicas e instrumentos a serem utilizados.
Essas diferenças de referencial teórico dividem dois grandes métodos de atuação em orientação vocacional: o método Estatístico/Psicométrico e o método Clínico.

5.1-O MÉTODO ESTATÍSTICO/PSICOMÉTRICO EM ORIENTAÇÃO VOCACIONAL
Tal modalidade de intervenção recebe influência da psicotécnica norte-americana e da psicologia diferencial de princípios do século XX, que concebem a inteligência como inata, estável e passível de ser medida.
Impulsionada pela psicometria recém-surgida, esse método perdurou por muitos anos, com exclusividade, fundamentando todos os trabalhos de orientação vocacional realizados na época. Seus princípios teóricos refletem a concepção de que o sujeito que procura a orientação vocacional, dada a dimensão e o tipo de conflito que enfrenta, não tem condições de tomar decisão sozinho sobre a carreira a seguir, necessitando da assistência do psicólogo. Os psicólogos que a seguem desempenham papel ativo, realizando intervenções de aconselhamento e decisão, a fim de diminuir a ansiedade do cliente. Para isso, devem conhecer suas aptidões e interesses e encontrar, entre as diversas carreiras, aquelas que mais se adeqüem aos seus gostos e possibilidades.
A modalidade psicométrica concebe que as diversas carreiras requerem aptidões específicas, passíveis de mensuração e constantes ao longo do tempo. Desse modo, as aptidões do cliente podem ser investigadas e medidas através do instrumento fundamental que é o teste psicométrico. O teste psicométrico permite a investigação rigorosa das qualidades do sujeito. De posse dessas informações, cabe ao psicólogo buscar "encaixar" as habilidades do sujeito na carreira que tenha como exigências aquelas habilidades mensuradas no teste.
De acordo com a modalidade, os interesses do orientando são específicos e desconhecidos pelo mesmo e podem ser mensurados por meio de instrumentos desenvolvidos para estes fins. A satisfação na carreira dependerá do interesse que se tenha pela mesma, interesse este que caberá ao psicólogo "esclarecer."
O psicólogo orientador, dentro dessa perspectiva, tem como papel principal elucidar o cliente sobre os seus interesses e aptidões, para então formular-lhe um conselho, que se constitui numa indicação precisa do caminho que cabe ao jovem seguir para obter sucesso profissional.
Nessa modalidade de atendimento, o cliente desempenha um papel passivo no processo. Cabe a ele realizar os testes, a fim de fornecer informações sobre suas aptidões e interesses. Ao psicólogo cabe, por seu turno, interpretar os dados coletados e definir para o jovem qual o caminho a ser seguido. Desse modo, deve acontecer que o resultado apontado nos testes psicológicos vá de encontro aos interesses e possibilidades do orientando. O mesmo tentará encaixar suas necessidades aos resultados apontados pelos mesmos, o que em certos casos poderá gerar mais conflito e ansiedade.
A perspectiva psicométrica exerceu bastante influência nas práticas de orientação vocacional realizadas na primeira metade do século passado, em que a preocupação pelo aperfeiçoamento das técnicas de validação e fidedignidade dos instrumentos de testagem psicológica atingiu seu apogeu.
O atual estudo dos casos de atendimento em orientação vocacional realizados na Clínica Escola esclarece e ilustra a utilização do método Psicométrico nas práticas em orientação vocacional.

5.2 MÉTODO CLÍNICO EM ORIENTAÇÃO VOCACIONAL

O método clínico de atuação em orientação vocacional recebe, desde sua origem, influência significativa da psicanálise (Escola Inglesa e da Psicologia do Ego), da teoria de Donald Super e das técnicas de cunho não diretivo preconizadas por Carl Rogers.
Essa modalidade de atuação tem como premissa central a idéia de que o sujeito pode e deve chegar a uma decisão sobre a sua escolha, se conseguir resolver os conflitos e ansiedades relacionados com seu futuro profissional. O jovem deve conseguir assumir e compreender a situação de crise que enfrenta, para poder chegar a uma decisão autônoma e responsável sobre seu futuro profissional. Nesta modalidade, o psicólogo assume uma postura não-diretiva e se apóia na premissa de que a escolha é uma responsabilidade e direito do cliente, que não cabe a ninguém usurpar-lhe .
Dentro dessa perspectiva, o psicólogo atua no sentido de esclarecer e informar ao jovem, colaborando para que o mesmo possa elaborar os conflitos que enfrenta, a fim de estabelecer uma imagem não conflitiva de sua identidade profissional e chegar a uma decisão pessoal e responsável sobre seu futuro profissional. O objetivo do psicólogo no processo de orientação vocacional é, portanto, o de instrumentalizar a escolha e a construção da identidade profissional pela via do autoconhecimento e da articulação entre aspectos do mundo do trabalho e o universo subjetivo do orientando.
Trata-se de uma modalidade cujo principal instrumento é a entrevista. Ela permitirá ao psicólogo a compreensão da problemática do sujeito e facilitará o seu acesso a uma melhor compreensão de si. A entrevista busca descobrir alternativas para que o cliente enfrente conflitos subjacente à escolha profissional. O enfrentamento do conflito permitirá ao jovem elaborar perdas, lutos e outras dificuldades, além de ajudar na compreensão da situação que enfrenta, resolvendo as ansiedades subjacentes a fim de estabelecer de maneira autônoma sua identidade profissional.
Essa modalidade de atuação preconiza que mais importante do que realizar a escolha por uma carreira específica, seria obter subsídios que permitam ao jovem realizar as diversas escolhas ao longo de seu trajeto profissional.
O trabalho clínico volta-se para compreender quem é o sujeito da escolha e como ele escolhe. Desse modo, o objetivo maior da orientação vocacional de natureza Clínica seria a aprendizagem do como escolher, mesmo que essa aprendizagem implique em rever antigas escolhas ou certezas. Tal procedimento significa um posicionamento específico quanto aos resultados a serem obtidos ao final do trabalho de orientação profissional. Concebe-se um cliente que pode ou não sair do processo com uma escolha realizada, consoante sua percepção de haver construído e desenvolvido em determinado momento as opções profissionais. Acredita-se, nesse sentido, que nem todos os clientes encontram-se no mesmo momento em relação a sua escolha profissional ainda que se considere um processo de orientação profissional como concluído. Desse modo, podem, a despeito de terem participado de todo um processo de orientação vocacional clínico, não conseguir fazer todo o percurso, fato esse muitas vezes visto como uma das limitações da modalidade clínica.
Esses limites, quanto à elaboração e definição da escolha, estão atrelados aos pressupostos da modalidade clínica em si, que enfatiza que o cliente deve perfazer seu processo numa velocidade e caminho singulares e condizentes com sua realidade. A orientação vocacional, muitas vezes, somente tem início com os atendimentos, prolongando-se por um período indefinido que pode ser posterior e autodirigido.
6- AS TÉCNICAS EM ORIENTAÇÃO VOCACIONAL

A realização do processo de orientação vocacional torna necessário o desenvolvimento e aplicação de técnicas, quer sejam considerados atendimentos de cunho individual ou de grupo. A utilização dessas técnicas deve estar apoiada em referencial teórico que fundamente a seleção, aplicação e o seu manejo durante o processo.
De acordo com Levenfus e Soares, (2002, p. 295) "o papel das técnicas consiste, dentre outros, levantar dados, permitir elaborações, conduzir a uma tomada de consciência do orientando, tudo isso no intuito de facilitar o processo da escolha profissional do jovem."
Segundo as mesmas autoras, não existem técnicas específicas para atendimento em grupo ou individual. As técnicas de aplicação coletiva podem ser adaptadas para o contexto individual, ainda que se perca os fatores resultantes da importante interação proporcionada pelo grupo.
A seleção das técnicas a serem utilizadas no processo de orientação vocacional varia conforme as características da clientela, os objetivos dos encontros ou a escolha teórica do orientador. De acordo com esses critérios, pode-se optar pelo uso de técnicas como entrevistas, dinâmicas de grupo, técnicas projetivas (que visam facilitar o acesso à problemática do cliente), técnicas expressivas (que objetivam a expressão e elaboração de sentimentos relacionados com a escolha), técnicas plásticas, além de técnicas informativas de exploração profissional (operacionalizadas pelo uso de questionários, entrevistas, etc.) e de testes psicológicos.
Nas práticas individuais de O. V., realizadas em consultórios, a entrevista é a principal técnica, pois proporciona a profundidade necessária para trabalhar a elaboração dos conflitos relacionados com a escolha. Os testes psicológicos e as técnicas expressivas também são recursos técnicos bastante utilizados nesse tipo de atendimento. A abordagem psicodramática fornece uma série de técnicas como o duplo, o espelho, a inversão de papéis, que são muito ricas para a obtenção de dados, confrontação de idéias e tomada de decisão nessa modalidade de atendimento.
A O. V. realizada em grupo exige do orientador determinadas habilidades especificas no que concerne à capacidade de compreensão do movimento do grupo em suas diferentes sessões, de modo a adequar as técnicas e recursos complementares aos seus diferentes momentos e necessidades. A utilização inoportuna de técnicas, levando-se em conta suas relações com esses momentos e necessidades grupais, pode levar à mobilização de conteúdos de natureza difícil, implicando no desrespeito dos limites dos clientes, levando-os a se sentirem invadidos, o que pode inclusive prejudicar sua evolução e adesão ao processo de orientação em grupo.
Dentre as inúmeras técnicas utilizadas em orientação vocacional (Giacaglia, 2000), destacam-se as Entrevistas individuais e grupais. Utilizadas com grande freqüência, são especialmente indicadas para a seleção dos participantes, para o aprofundamento de temáticas específicas durante todo o processo de orientação, inclusive no momento de realização do atendimento de fechamento, nomeadamente a entrevista devolutiva, característica do encerramento dos atendimentos.
Outro recurso bastante utilizado são as Técnicas dramáticas e lúdicas, que consistem na representação de situações vividas e relacionadas com a escolha a fim de possibilitar a exploração e elaboração de temáticas vocacionais. As Técnicas expressivas realizadas através de jogos e as Técnicas plásticas, através de colagens, desenhos, argila, produção de estórias são recursos que facilitam a mobilização e a comunicação de conteúdos relacionados com a problemática da escolha.
Mesmo nos procedimentos de natureza clínica pressupõe-se a possibilidade da utilização de técnicas e recursos psicométricos que facilitem o acesso ao conhecimento de habilidades e interesses dos orientandos. No que tange às habilidades, estas podem ser abordadas, por exemplo, com testes organizados nas denominadas baterias, cujos resultados são inseridos no processo de orientação em uma perspectiva complementar e crítica. Os interesses e identificações profissionais dos orientandos podem ser explorados através de inventários de interesse dentre outros na mesma perspectiva em que foram vistos os testes de exploração das habilidades.
Outras técnicas bastante utilizadas são as Técnicas de Informação profissional, que consistem no desenvolvimento de atividades de consulta a manuais sobre as profissões, entrevistas com profissionais das áreas de interesse, fóruns de discussão sobre as profissões, pesquisas junto a profissionais e instituições, etc. Essas técnicas visam exercitar o papel de protagonista e desenvolver a responsabilidade do cliente pelo processo.

7- ORIENTAÇÃO VOCACIONAL E O MERCADO DE TRABALHO

Atualmente, nossa sociedade se depara com um cenário social marcado por uma vertiginosa aceleração da esfera industrial/ tecnológica, caracterizada por um ritmo acelerado de produção, cujos impactos ultrapassam os limites dessa estrutura produtiva, trazendo consideráveis repercussões em termos sociais e pessoais.
A universalização da comunicação, possibilitada pela internet, a aceleração da capacidade de processamento de informações, a potencialização da produção e automação tecnológica provocam mudanças no âmbito social, no qual essa nova realidade se insere. O mercado de trabalho e de formação profissional são profundamente afetados pelas mudanças deflagradas.
As novas condições criadas pelo avanço tecnológico/produtivo trazem diversas alterações a esse mercado: tal como a redução dos postos de trabalho, a conseqüente ampliação do desemprego, a extinção de diversas funções, a criação de novos espaços ocupacionais, a modificação do escopo de profissões, alteração de atribuições e de responsabilidades, mudança de valor e prestígio conferidos às profissões, alteração do conceito de emprego e de carreira etc.
Sobre o tema discorre Mansano (2003) detalhadamente em seu livro intitulado Vida e profissão: cartografando trajetórias. A interface mercado/profissão/sujeito/orientação pode ser com a ajuda de nomeada obra mais amplamente compreendida:

Cotidianamente deparamo-nos com uma demanda apresentada pelo mercado de trabalho, que muitas vezes assume contornos ameaçadores devido, entre outros fatores, ao alto índice de desemprego. Assim preocupar-se com a profissionalização e com a carreira a ser construída, contextualizar as preferências pessoais ao mercado de trabalho, investir em currículo e na aquisição de experiência profissional no decorrer da formação acadêmica, são exigências concretas aos quais nem todos os adolescentes e adultos estão envolvidos. Entretanto, uma vez expostos ao mercado de trabalho, adolescentes e adultos estão sujeitos a esses poderes, que vêm sendo utilizados de maneira incisiva e direta na atualidade. E, em face dessa realidade, muitas vezes eles não sabem como agir (p. 22).

Essas alterações no mercado de profissões vão exigir a atualização da prática de orientação vocacional que pretenda atuar como instrumento que busca favorecer a inserção responsável das pessoas no mundo do trabalho, sem violentar o movimento e o ritmo de experimentação dos processos de escolha dos jovens.
A prática tradicional de orientação profissional baseou-se por muito tempo no exaustivo levantamento de aptidões, características de personalidade, levantamento de potencial intelectual, levantamento de interesses, além de um espaço de orientação profissional. Todas essas etapas são permeadas por entrevistas dispostas ao longo do processo. O conjunto de informações levantadas acabam por nortear o jovem quanto à carreira que quer e pode seguir. Essa prática se fundamenta na ideologia do profissional eficaz, bem sucedido, que dispõe de uma ampla gama de oportunidades no mercado, e cujo sucesso profissional dependerá de saber lidar com as informações obtidas.
Desse modo, a reflexão que se faz pertinente é a de se as teorias e práticas de orientação vocacional tradicionalmente utilizadas estariam em consonância com a nova configuração do mercado de ocupações. A prática de orientação vocacional realizada estaria contribuindo de maneira eficiente para a inserção responsável do jovem no mercado?
Dentro da realidade sócio-econômica atual, verifica-se uma transformação e reestruturação dos alicerces das profissões e de seus espaços ocupacionais. A realidade de mercado expande a gama de categorias profissionais, de modo que fica impossível trabalhar apenas com as categorias tradicionais de carreira, como por exemplo, a engenharia, administração, pedagogia, direito, medicina, etc. As atribuições exigidas pelo mercado não se encaixam diretamente no escopo das categorias profissionais que eram demandadas no passado. Surgem novas necessidades e exigências ocupacionais. Novas especialidades são desenvolvidas, levando ao aparecimento de carreiras constituídas a partir de confluências ocupacionais, tal como engenheiro mecatrônico (espécie híbrida entre a engenharia elétrica e a mecânica), engenheiro de produção, engenheiro de segurança, gerente de relacionamento, administrador de contratos etc. "Não podemos esquecer ainda que a constituição da profissão deve ser encarada como um projeto em aberto permanentemente interferindo nas trajetórias de vida, não podendo ser desvinculada de forma alguma das múltiplas dimensões aí presentes" (Mansano, 2003, p.24).
Nessa nova realidade social, campos de saber tidos como distantes e incomuns têm, cada vez mais, terreno de atuação. É o caso de, por exemplo, engenharia genética, engenharia nuclear, técnico em fotônica, além de muitas outras profissões e atividades resultantes da evolução da informática.
Essa multiplicidade de questões envolvidas na escolha profissional atual faz suscitar o questionamento de se a orientação vocacional estaria exercendo uma prática de atuação embasada numa reflexão sobre as mudanças que se deflagram, buscando formas de atuação que contemplem as novas necessidades dos orientandos resultantes das evoluções e mudanças no mercado.
O trabalho de orientação vocacional tradicionalmente realizado enfatiza a compreensão de aspectos de natureza psicológica do sujeito. Mas a informação profissional também é contemplada nos processos de orientação, mobilizada pelo discurso de autores como Bohoslawsky (1993), que afirmam ser a informação profissional uma condição essencial para a escolha responsável. Essa etapa de informação centra-se, de fato, apenas na busca de informação sobre profissões específicas, tendo como parâmetro a roupagem tradicional das ocupações, sem contemplar questões mais amplas sobre as mudanças mercadológicas e o movimento de expansão das profissões que vêm ampliando ainda mais as possibilidades de escolha.
O processo de informação profissional que esteja sincronizado com o fluxo do mercado deve possibilitar, conforme assinala Levenfus e Soares (2002), o conhecimento mais aprofundado e atualizado do que realmente vem ocorrendo no que se refere ao mercado de trabalho no passado, no presente e no futuro, buscando conhecer as possibilidades reais de inserção nesse mercado.
Desse modo, o serviço de orientação vocacional que busque manter-se socialmente relevante, deve pressupor um redimensionamento teórico-metodológico que permita contemplar em sua prática, aspectos sobre realidade do mercado atual, de modo a facilitar a inserção responsável do indivíduo nessa realidade específica à qual pretenda pertencer no futuro.

8- APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS:

A disciplina de Orientação Vocacional oferecida pelo curso de Psicologia da universidade pública federal que abrigou o presente trabalho nos primeiro e segundo semestres letivos de 2002 centrou-se no estudo teórico e na prática da orientação vocacional. Essa disciplina proporcionou aos alunos um aprofundamento no estudo teórico sobre os métodos e as técnicas em orientação vocacional já iniciado em disciplinas anteriores, a fim de permitir aos mesmos, estruturar e realizar, com a supervisão de um professor, práticas de atendimento em orientação vocacional. A conclusão da disciplina prevê a realização de um relatório dos atendimentos realizados, no qual são descritas as práticas realizadas e esclarecem sobre os métodos e técnicas utilizados, sobre as características da problemática do cliente, sobre a evolução do mesmo ao longo do processo, pressupostos teóricos do trabalho, etc.
Os alunos dessa disciplina tem autonomia na escolha do tipo de atendimento, do método de intervenção e das técnicas a serem utilizadas na estruturação das sessões. Ao longo da realização da prática de O. V., recebem supervisão semanal com o professor, que possibilita o esclarecimento de dúvidas e a troca de informações sobre a evolução dos atendimentos. Nomeados atendimentos são realizados na Clínica Escola de Psicologia, entidade acadêmica que fornece diversos serviços de psicologia à comunidade de baixa renda da capital e do interior do estado no qual se localiza. Na Clínica Escola, os alunos do curso de Psicologia realizam, com supervisão docente diversas práticas psicológicas complementares às disciplinas cursadas ou como parte de estágios curriculares e projetos de extensão.
A pesquisa compreendeu a análise de 20 relatórios de orientação vocacional, tendo assim abrangido todos os trabalhos realizados ao longo dos dois semestres letivos em questão. Tais relatórios, constituídos por 18 atendimentos de natureza individual e dois de grupo, foram catalogados e submetidos a uma leitura detalhada, o que possibilitou a obtenção de 15 categorias, dispostas em quadros de atendimento individual e de grupo.
As 15 categorias foram definidas da seguinte forma:
" Sexo
" Idade
" Instrução
" Nível socioeconômico
" Grau de satisfação atual com a escolha profissional
" Grau de conhecimento atual da escolha pretendida
" Características da problemática
" Número de atendimentos
" Método de atendimento
" Base teórica de atendimento
" Recursos utilizados
" Resultados almejados
" Resultados alcançados
" Grau de satisfação do orientador com o processo
" Grau de satisfação do cliente com o processo.
Os dados viabilizados a partir do agrupamento de categorias foram submetidos a análise quantitativa e qualitativa. A análise quantitativa baseou-se nos dados numéricos presentes nos relatórios em torno das categorias consideradas e a qualitativa, consistiu em uma análise de conteúdo, levando-se em conta diversas abordagens teóricas em orientação vocacional, como por exemplo aquelas preconizadas por Bohoslavsky e por Levenfus e Soares.
Na primeira categoria, denominada Sexo dos orientandos, verificou-se um predomínio do sexo feminino na procura por orientação vocacional. Essa procura maior das adolescentes pelo serviço é compatível com o esperado para a realidade da instituição. Observa-se a mesma tendência para outras naturezas de trabalho psicológico efetuado na Clínica-escola.
Na categoria Idade, verifica-se que os orientandos encontram-se em sua maioria na faixa etária entre 16 e 20 anos. A população atendida na clínica escola corresponde àquela que Bohoslavsky (1993) tem como prioritária nesses casos. O autor acredita que é na adolescência, especificamente entre os quinze e dezenove anos aproximadamente, que emergem as dificuldades e soluções de natureza vocacional, delineando-se com mais clareza, os conflitos ocupacionais. "Todas as dúvidas do jovem a respeito de quem quer ser obedecem a identificações que ainda não se integraram", (BOHOSLAVSKY, 1993, p.66).
Quanto à categoria Grau de instrução, verificam-se tanto alunos que têm o nível superior incompleto, tratando-se aqui de alunos que fizeram escolhas profissionais, ingressaram em uma universidade, mas resolveram reavaliar sua escolha, quanto orientandos que estão cursando o segundo grau e sentiram necessidade de recorrer ao serviço de OV.
Quanto à categoria Nível socioeconômico foram encontrados dados que apontam para diferentes níveis socioeconômico da população atendida não correspondendo ao padrão de outros atendimentos da clínica-escola nos quais a maioria absoluta é constituída de pessoas de níveis socioeconômicos desfavorecidos. No caso da Orientação Vocacional, talvez por ser uma prática muito atrelada à escolha de carreiras acadêmicas na forma em que é concebida na clínica-escola, se evidencia uma tendência de participação de uma maioria do que denomina-se comumente de membros da classe média. Verifica-se, portanto, que 60% da população são de nível socioeconômico médio enquanto 40% da população são de nível socioeconômico baixo. Deve-se, por outro lado, levar em conta que os dados para constatação de nível socioeconômico da população atendida se baseiam basicamente nas afirmações dos orientandos, tendo em vista não ser exigida comprovação de renda para sua adesão aos atendimentos.
Quanto à categoria Grau de satisfação atual com a escolha profissional, verifica-se uma insatisfação atual em relação à escolha profissional realizada. Apesar de não se excluir a priori a possibilidade da busca de OV por parte das pessoas que já realizaram alguma escolha ou se dizem conhecedoras do que querem fazer, é praxe uma predominância daquelas que têm queixas por conta de indecisão nesses processos.
O grupo analisado apresenta relativamente aos casos atendidos na clínica escola, um número maior de orientandos satisfeitos com a situação da escolha no início dos atendimentos.
Podemos perceber a relação entre as categorias Grau de instrução, que aponta nível superior incompleto e a categoria Grau de satisfação atual com a escolha profissional que aponta insatisfação atual com a escolha realizada. Este aspecto de insatisfação com a profissão escolhida e a busca pela profissional é tratada no âmbito da modalidade clínica. Segundo essa modalidade o objetivo da orientação é fazer com que o jovem consiga elaborar os conflitos que experimenta em relação a sua escolha profissional, o que lhe permite até mesmo repensar escolhas já realizadas.
Na categoria Grau de conhecimento atual sobre a escolha pretendida, verifica-se que os orientandos possuem conhecimentos vagos e insatisfatórios sobre as profissões de seu interesse: observa-se um percentual de orientandos com conhecimentos satisfatórios em torno de 24% em detrimento dos orientandos com conhecimentos insatisfatórios (76%) sobre a escolha pretendida. Segundo Levenfus e Soares (2002) um dos principais itens observados para que ocorra um consistente processo de escolha é a informação profissional: "não é raro jovens alegarem desconhecimento total da profissão pela qual estão interessados. Alguns apresentam idéias bastante distorcidas; outros demonstram inibições do pensamento ou medo de errar ao expor suas idéias" (p. 68).
Os resultados apresentados sobre o conhecimento atual da escolha corroboram com a idéia de Lassance (citado por Levenfus e Soares, 2002, p. 68) sobre a grande desinformação profissional entre jovens prestes a entrar no mercado de trabalho ou iniciar uma formação para tal:
É comum que os jovens estejam desinformados. Verifica-se que a exploração profissional desenvolvida pelos jovens é pouco sistemática e pouco planejada. É significativa a falta de informações que o adolescente demonstra tanto acerca de si mesmo, quanto acerca do mundo do trabalho e das profissões em geral.

A pesquisa realizada aponta que 76% dos orientandos não dispõem de conhecimentos sistemáticos sobre as áreas de interesse. As informações são gerais e insuficientes para facilitar a escolha vocacional. Desse modo, a utilização de técnicas de informação profissional deve ser bem reforçada pelos orientadores profissionais.
Na categoria Características da problemática, a questão da insatisfação com as escolha realizada aparece em 7 dos 20 relatórios pesquisados e é tida como foco da problemática. Enquanto isso, verifica-se em 4 relatórios que as problemáticas giram em torno de ansiedade quanto a escolha, conflitos sobre a escolha, medo de errar na escolha, insegurança para realizar a escolha profissional. Já noutros três relatórios a questão da influência dos pais na escolha é colocada como foco da problemática: temos um conflito gerado pela influência exercida pelos pais na escolha, noutra situação o orientando diz-se sentir inseguro por não corresponder aos seus padrões familiares e ainda noutro a cliente tem conflitos relacionados com a necessidade de suas escolhas estarem ligadas a uma aceitação e reconhecimento por parte de sua família: "as influências, sejam elas explícitas ou sutis, existem e devem ser consideradas. É importante que sejam conscientes, pois conhecendo-as, o indivíduo pode utilizá-la de forma positiva e construtiva, selecionando-as e adequando-as aos seus próprios desejos e valores" (Andrade, citado por Levenfus e Soares, 2002, p.70).
O jovem pode identificar-se com aquilo que é esperado para ele, pode recusar essa identificação e, ainda em alguns casos, toda escolha pode lhe parecer impossível (Levenfus e Soares, 2002, p.71).
Ainda em relação à categoria Características da problemática, em três relatórios os orientando apontam que sua problemática gira em torno da dificuldade de escolher devido à existência de dúvidas com relação às profissões de interesse. As dúvidas abrangem falta de informação sobre as possibilidades de atuação prática, sobre mercado e trabalho e áreas de atuação e ainda sobre a possibilidade de satisfação com a atividade realizada.
A categoria Número de atendimentos, aponta um número de sessões de atendimento em O. V. que varia de 5 a 11. Verifica-se uma concentração maior entre 6 e 8 sessões para atendimentos individuais. Já os dois atendimentos grupais, foram realizados em 11 atendimentos.
O número de sessões varia conforme as diferentes demandas expostas nos relatórios. Tais números estão coerentes com o que é exigido a partir de metodologias específicas e outros aspectos inerentes aos contratos estabelecidos.
Na categoria Método de atendimento, a modalidade clínica de atendimento em orientação vocacional é apontada em 10 relatórios enquanto em 8 outros o método-clínico operativo é mencionado. O método clínico-operativo constitui-se de uma adaptação do método clínico às demandas e necessidades encontradas por orientadores vocacionais em sua atuação. Esse método é fundamentado nos mesmos postulados teóricos do método clínico preconizado por Rodolfo Bohoslawsky.
Os dois outros relatórios apontam a utilização de uma metodologia mista, a saber: clínica e psicométrica. A metodologia mista visa atrelar os princípios e instrumentos do método clínico com aqueles do método psicométrico, que indicam a utilização de testes psicológicos de aptidões e interesses. Nenhum dos relatórios analisados faz referência à utilização exclusiva do método psicométrico.
Quanto à categoria Base Teórica de Atendimento, 18 relatórios apontam Rodolfo Bohoslawsky como fonte teórica para o trabalho realizado. Apesar da grande maioria dos orientadores (89%) apontar a prática do método clínico nos atendimentos, devem ser considerados determinados recursos adaptativos que o diferenciariam do método clínico original, ou seja "puro". Em dois relatórios a autora Marina Muller é citada como fornecedora da sua base teórica, cujo método de trabalho de orientação vocacional toma por referência os princípios clínicos preconizados por Bohoslawsky. Um dos relatórios cita como base de atendimento a teoria de Bohoslawsky mas acrescenta complementá-la com a teoria sociométrica de Moreno. Dois outros relatórios apontam a utilização dos preceitos teóricos de Maria Luiza Camargo Torres, postulados que se distanciam daqueles de Bohoslawsky. Sobre seu referencial metodológico, TORRES (2002, p.81) assinala :
No início de nossa prática fomos subsidiados pelas idéias de Rodolfo Bohoslavky, uma vez que ele foi o precursor desse modalidade de atuação, brindando-nos com caracterização e a sistematização da orientação associada à investigação clínica. No entanto, à medida que aumentamos nossas pesquisas na área de orientação clínica e também adentrando-nos no estudo da teoria psicanalítica, constatamos que essa passou verdadeiramente a servi-nos de material teórico (...).

O método de Torres diferencia-se do autor pela fonte teórica, pela metodologia e pelos recursos técnicos. Bohoslawsky emprega vários recursos técnicos nas orientações individuais e em grupo. A autora abstém-se da utilização de testes psicológicos e prioriza as entrevistas e o trabalho de cunho individual.
Três relatórios, incluindo dois baseados em atendimentos de grupo, apontam a referida autora como base teórica. Outros dois relatórios apontam a utilização de uma metodologia de natureza mista (clínica e psicométrica), mencionando, porém, como base teórica de atendimento somente o precursor da modalidade clínica de atendimento.
Verifica-se que 89% dos atendimentos realizados são de natureza clínica e que em 85% desses atendimentos têm em Bohoslaswky sua principal fonte teórica. Desse modo, podemos verificar a forte influência e predominância desse modalidade nas práticas de O. V. realizadas pelos alunos estagiários na Clínica Escola pesquisada. Deve-se ressaltar que tais orientadores vêm de experiências diversas ao longo do curso de Psicologia, inclusive experiências anteriores relacionadas ao atendimento em orientação vocacional. Resta constatar se isso acontece por uma escolha teórica amadurecida no desenvolvimento da profissão de orientador vocacional ou por outros motivos, como por exemplo, dificuldade de acesso a trabalhos de outros autores, direcionamento de supervisores, tempo de formação insuficiente para opções teóricas na área, etc.
Quanto à categoria Recursos Utilizados, 100% dos relatórios fazem referência a utilização de entrevistas. Desse modo, podemos apontar a importância desse recurso para a operacionalização do processo de orientação vocacional, coerente com o que é preconizado por diversos autores aqui considerados.
O alto percentual de utilização de entrevistas em OV corrobora também com a idéia de Levenfus e Soares (2002, p.302) sobre a grande importância desse recurso nos processos de orientação vocacional: "a entrevista é o principal instrumento do orientador profissional e pode-se afirmar que não é possível a realização do processo de OV sem utilizar-se deste recurso em algum momento do trabalho (...)".
Os dados obtidos sobre a utilização da entrevista pelos alunos estagiários evidenciam a importância e conhecimentos que os mesmos possuem sobre essa técnica.
18 dos relatórios pesquisados fazem referência à utilização de técnicas dinâmicas ou psicodramáticas. Essas técnicas abrangem a utilização de questionários, dramatizações, jogos técnicas plásticas (desenho, colagem) conforme exposto no sexto item do presente estudo.
A superioridade da freqüência de técnicas dinâmicas e psicodramáticas aponta que mesmo reconhecendo-se a entrevista como instrumento, por excelência, do processo de OV, as demais técnicas podem complementá-las a contento.
Apenas dois dos relatórios em questão não dizem ter utilizado técnicas dinâmicas, limitando o processo a entrevistas e inventários de interesses. A utilização de Inventários de interesses como recurso técnico na orientação vocacional é apontada em seis relatórios. Ainda temos em dois relatórios a menção ao uso de testes psicométricos de inteligência e/ou habilidades específicas. Um dos relatórios diz do uso do teste projetivo HTP, enquanto um outro afirma ter sido utilizado entre as técnicas de acesso ao mundo do orientando o teste projetivo Desiderativo. Segundo Cabrera (1999), este teste pode ser usado em diversas atividades práticas da psicologia, inclusive em orientação vocacional.
Em relação à categoria Resultados pretendidos, em um dos relatórios, o orientando tem como objetivo dar um novo rumo ao seu futuro profissional, ou seja realizar mudança de profissão. Noutro relatório o cliente afirma: "que fique ali claro para ele o que estará realizando nos próximos 30 a 40 anos". Do mesmo modo, em um determinado relatório o orientando tem como resultado almejado conseguir, ao final do processo, realizar uma nova escolha profissional, vendo-se ainda em um outro que a cliente busca ao final da O.V. conseguir escolher um curso universitário.
Conforme exposto no quinto item deste estudo, verifica-se que a modalidade clínica traz um posicionamento específico quanto aos resultados a serem obtidos ao final do trabalho de orientação vocacional. Concebe que o cliente pode ou não sair do processo com uma escolha realizada, o que dependerá da construção e desenvolvimento seguido pelo mesmo, que pode reconhecer-se num momento que seja inviável optar por uma profissão. Essa modalidade prevê que nem todos os clientes encontram-se no mesmo momento em relação a sua escolha profissional. Nem todos conseguem percorrer igualmente etapas como investigação de si mesmo, confrontação com medos e ansiedades, o pensar sobre as influências na sua escolha, tolerar a dor e o luto que podem advir das escolhas feitas ou lidar com as ambivalências. Desse modo, verifica-se que os orientandos chegam ao processo com pretensões fantasiosas em relação aos resultados alcançados nos atendimentos de O.V. Cabe ao psicólogo esclarecer essas expectativas para que o mesmo possa desenvolver seu protagonismo em relação ao processo e à escolha profissional.
Temos em oito diferentes relatórios orientandos que assinalam em seu discurso terem como objetivo maior resolver dúvidas, a fim de obter mais clareza em relação à escolha e às profissões de interesse. Em um outro relatório o orientando afirma o objetivo de confirmação sobre a área de interesse e a obtenção de mais informações sobre a mesma. Trata-se de uma demanda comumente apresentada pelos jovens que chegam ao processo buscando confirmar uma escolha já vislumbrada. Vê-se ainda noutros momentos a pretensão de reavalição do futuro profissional, resolver conflitos sobre a escolha profissional ou resolver "uma confusão em relação ao curso pretendido".
Quanto à categoria Resultados alcançados, cerca de doze orientandos assinalam em seu discurso que o processo possibilitou-lhes segurança e tranqüilidade sobre a escolha profissional, outros 4 assinalam que com os resultados obtidos no processo de orientação vocacional obtiveram um maior conhecimento de si e de seu protagonismo na escolha e maiores esclarecimentos das dúvidas sobre a escolha profissional. Um cliente assinala ainda: "cheguei aqui esperando que minhas questões fossem respondidas, mas agora consigo parar para refletir por mim mesmo e não mais questionar sobre o que está por vir". Uma outra orientanda também esclarece sobre o resultado alcançado: os encontros haviam ajudado muito e que por mais que as dúvidas ainda existissem, ela sabia, que conseguir esclarecê-las, dependeria dela.
"Um maior conhecimento de mim mesma, apesar de ainda ter dúvidas em relação à escolha" é o discurso da orientanda que corrobora com os princípios da orientação vocacional, pois segundo Müller, "não objetiva necessariamente a decisão, mas a preparação para esta, através da sensibilização do cliente para o autoconhecimento e para o conhecimento da realidade ocupacional (...)" (1988, p. 14). Vê-se ainda a sensação de alguns orientandos de terem conseguido ao longo do processo assumir e/ou resgatar antigos interesses profissionais.
Um cliente relata que ainda não tem total certeza de suas escolhas, mas já consegue lidar de forma mais tranqüila com seus conflitos. O discurso da orientanda é coerente com os princípios da orientação vocacional clínica de buscar esclarecer e informar ao jovem, colaborando para que o mesmo possa elaborar os conflitos que enfrenta, a fim de estabelecer uma imagem não conflitiva de sua identidade profissional, e poder por si só, obter subsídios para chegar a uma decisão pessoal e responsável sobre seu futuro profissional.
A partir das categorias Resultados alcançados e Resultados pretendidos, pode-se verificar que os clientes chegam ao processo de O.V. com expectativas fantasiosas, que não necessariamente poderão ser alcançadas. Ao final do processo, verifica-se que os mesmos atestam terem alcançado resultados relacionados com maior clareza sobre interesses, menos dúvidas em relação à escolha, resolução de conflitos, confirmação de interesses e exercício do protagonismo em relação à escolha profissional.
Quanto à categoria Satisfação do orientador com o processo, verificam-se avaliações positivas do processo de orientação vocacional. Podemos verificar avaliações norteadas pelos benefícios obtidos pelo orientador com o processo em seus relatos, como por exemplo: "pude amadurecer pessoal e profissionalmente", "utilizei um método e fiz jus a ele", "possibilitou-me conhecimento prático". Pode-se constatar ainda determinados resultados segundo o desempenho dos orientandos: "avalio como satisfatório pela grande evolução alcançada pelo grupo". A atividade é às vezes citada como importante para o crescimento profissional, a satisfação veio por "ter utilizado uma metodologia que alcançou bons resultados". Outros fazem uma análise do processo como "oportunidade de amadurecimento" nessa área de atuação ou apontam a importância do processo para a consolidação de conhecimentos práticos sobre orientação vocacional. Alguns expressam o desejo e interesse em continuar exercendo a prática de O.V. iniciada na universidade. O processo é citado por alguns como satisfatório em virtude da evolução que os orientandos apresentaram. Veja para ratificar essa posição o relato de um orientando que se diz sentir satisfeito por ter podido trabalhar os momentos de desmotivação e interesse relacionados ao processo de O V. Dois dos relatórios não apresentam referência ao processo vivenciado pelos orientadores.
Na categoria Satisfação do cliente com o processo, verifica-se que o processo é tido como satisfatório em todos os 20 relatórios de atendimento. Em alguns casos a satisfação com o processo não é explicitada diretamente no relatório pelo cliente, mas pode ser inferida a partir de sua evolução no mesmo. Uma determinada cliente avalia o processo como proveitoso por estar mais tranqüila quanto a sua escolha.
Dois casos de satisfação do cliente com a orientação estão expressas no nível de autoconhecimento atingido como resultado do processo. Um determinado relatório aponta que a cliente refere ter gostado do processo, por ter proporcionado maior conhecimento sobre si e sobre as profissões, enquanto noutro vê-se que a cliente relatou que gostou de participar do mesmo, pois foi um momento de conversas, informações e reflexões que proporcionaram um maior conhecimento sobre si própria e sobre o que deseja para o seu futuro.
O estado de satisfação com o processo relaciona-se em alguns casos com responsabilização pessoal para com a escolha, noutros, o que contou para essa satisfação, foi, segundo os relatos, terem passado a se responsabilizar por suas escolhas, ou terem visto o processo como produtivo e satisfatório, na medida em que conseguiu parar para refletir por si mesma e sobre seu futuro, conseguir esclarecimentos sobre as profissões de interesse: "o processo foi interessante, as dúvidas diminuíram e agora estou prestes a me decidir".
Ainda em outros relatos deduz-se que a satisfação com o processo está relacionada com a oportunidade de reelaboração da profissão já escolhida. Segundo uma cliente "o processo foi satisfatório, na medida em que pude reelaborar aspectos da profissão que havia escolhido, bem como estruturá-la para um maior engajamento no mercado de trabalho". O processo também pode, segundo outros relatos, facilitar as escolhas, uma cliente refere ter conseguido ajuda não só na escolha profissional como também nos seus relacionamentos fora do grupo. Alguns clientes falam claramente de realização da escolha, pois tiveram, por meio do atendimento, a chance de definir o curso a fazer no futuro.
Verifica-se que as assertivas utilizadas pelo cliente para referir satisfação relacionam-se, em sua maioria, com os próprios objetivos do trabalho de orientação vocacional de natureza clínica, cujo objetivo é o de instrumentalizar a escolha e a construção da identidade profissional pela via do autoconhecimento e da articulação entre conhecimentos do mundo do trabalho e o universo subjetivo do orientando:
Cabe ao psicólogo, realizar um trabalho que tem por finalidade levar o orientando a por em prática seu protagonismo quanto a se conhecer, conhecer a realidade e tomar decisões reflexivas e de maior autonomia, que leve em conta suas próprias determinações psíquicas assim como as circunstâncias sociais (Müller,1988, p.14).

CONCLUSÃO

A pesquisa constituiu-se de um estudo exploratório que possibilitou a obtenção de informações sobre a realidade dos atendimentos em O.V na Clínica Escola de Psicologia de uma universidade pública federal. Tais informações poderão face à atual sistematização, vir a ser investigadas sob outras perspectivas.
No que concerne às categorias de análise, foram tiradas determinadas conclusões baseadas na freqüência de ocorrência e no conteúdo dos relatórios analisados.
Vale a pena ressaltar alguns tópicos organizados a partir da investigação realizada no presente trabalho: o predomínio do sexo feminino nos atendimentos de orientação vocacional realizados, correspondendo ao que sucede na Clínica-escola no que tange aos demais atendimentos; uma predominância dos orientandos na faixa de 16 a 20 anos, que correspondente àquela tida por Bohoslavsky como prioritária nesses casos.
No que se refere ao nível de escolaridade dos orientandos, verifica-se, em maior percentual, sujeitos que estão cursando o segundo ou terceiro graus. Em menor freqüência, temos indivíduos com segundo grau completo e superior completo.
Em relação ao nível socioeconômico, foram encontrados elementos nos relatórios que indicam a possibilidade de enquadramento dos orientandos, entre o nível socioeconômico baixo e médio. Nos demais atendimentos da Clínica-escola a procura parte por pessoas oriundas de classes sociais mais desfavorecidas economicamente. Deve-se refletir se a prática de O.V. não tende a ser mais conhecida e difundida entre escolas particulares e meios socioeconômicos mais favorecidos criando uma barreira para sua aplicação em outras realidades.
No que tange a aspectos internos ao processo de O.V., verificou-se que o grau de conhecimento atual sobre a escolha profissional da população considerada é insatisfatório, mesmo em se considerando aquelas profissões para as quais demonstram interesse prévio. Os clientes chegam ao processo de orientação com conhecimentos gerais e superficiais sobre as diversas áreas, sem dispor de informações mais amplas sobre as possibilidades de atuação e realidade de mercado, condições que Bohoslawsky (1993) e Levenfus (2002) estabelecem como fundamentais para uma escolha responsável.
Considerando a importância do conhecimento do cenário socioeconômico e de sua realidade ocupacional para uma inserção responsável nesse contexto, faz-se pertinente que as práticas de O.V. realizadas elaborem estratégias para maximizar a investigação dos alunos, de modo a permitir aos mesmos se aproximar do universo de trabalho. Conforme Prado Filho (1993), dinâmicas de sondagem e atividades práticas informativas devem ser cada vez mais priorizadas.
No que concerne ao grau de satisfação atual com a escolha profissional, verifica-se que os sujeitos que procuram a orientação, em sua maioria, encontram-se insatisfeitos com a
escolha profissional já realizada. Essa insatisfação aparece vezes ao término dos estudos universitários ou ainda durante os mesmos. Muitas vezes essa insatisfação já aparece na época do ensino médio, quando ainda estão apenas vislumbrando possibilidades de formação profissional ou inserção no mercado.
Em relação ao número de atendimentos realizados no processo de O.V., verifica-se que este varia entre seis e onze sessões.
Nos métodos de atendimento, verifica-se o predomínio da prática de cunho clínico de atuação.
Não foram encontrados nos relatórios elementos que apontem a utilização da modalidade psicométrica propriamente dita, tal como exposta no item 5.1 deste estudo. Apesar da amostra considerada no presente trabalho se restringir a uma situação de prática acadêmica, deve-se questionar se na formação e prática dos novos orientadores uma maior utilização de outras estratégias que não a psicométrica tradicional não se caracteriza como tendência na área, conforme esperado no cenário atual.
Os testes psicométricos de habilidades específicas e de inteligência não foram utilizados nos processos, o que assinala a atual perspectiva de utilização de testes psicológicos como recursos complementares utilizados para ampliar as informações sobre o cliente, no sentido de auxiliar o mesmo na sua tomada de consciência. Desse modo, verifica-se nos atendimentos em questão que as práticas atuais redimensionam o lugar do teste psicológico no processo, no qual deixa de ser o instrumento central deste processo e passa a ser um recurso a mais em prol da compreensão do cliente.
No que concerne ao referencial teórico de atuação, verifica-se que os alunos estagiários têm na teoria preconizada por Rodolfo Bohoslavsky e seus seguidores, o principal embasamento para a prática de O.V. atualmente realizada. Autores como Maria Luiza Camargo Torres e Moreno foram também citados como modelos teóricos de base.
Em relação às técnicas utilizadas, atesta-se a utilização predominante de entrevistas. Dinâmicas com colagem, de autoconhecimento, de reflexão, questionários, dramatizações, jogos, técnicas plásticas (desenho, colagem) foram utilizadas com freqüência pelos estagiários. Os inventários de interesse e testes projetivos também foram contemplados nas práticas de O.V. realizadas. Os estagiários fizeram uso restrito de testes de habilidade específica e prescindiram de testes de inteligência nos atendimentos em questão.
Foi possível observar determinadas queixas mais freqüentes entre os jovens atendidos, a saber: aspectos relacionados à insatisfação com a escolha realizada, ansiedade quanto à escolha, conflitos sobre a escolha devido à influência dos pais, medo de errar, insegurança para realizar a escolha profissional, etc. Dúvidas em relação às profissões devido à ausência de conhecimento detalhado sobre as mesmas também foram citadas pelos clientes.
No que concerne aos resultados pretendidos em relação à orientação vocacional, verifica-se que os clientes chegavam, muitas vezes, ao processo com expectativas fantasiosas sobre o objetivo a ser alcançado em seu final. Desse modo, coube aos orientadores vocacionais esclarecê-los quanto aos objetivos do trabalho, quanto aos papéis a serem desempenhados, de forma a levar o jovem a se responsabilizar pela escolha, concebendo-a como conseqüência de um percurso singular que só o mesmo poderia realizar e que não necessariamente terminaria com o final do processo de O.V. em si. Muitas vezes, trata-se do início de um processo maior no qual a O.V. deu apenas o pontapé inicial.
Em relação aos resultados alcançados com o processo de O.V., verificou-se que os clientes referiram ter alcançado maior conhecimento de si e de seu protagonismo na escolha, maior segurança sobre a escolha profissional e terem feito esclarecimentos de dúvidas nessa área. Conclui-se que a prática realizada pelos estagiários está em grande parte de acordo com os pressupostos do método clínico de base.
Quanto ao grau de satisfação do orientador com o processo, verifica-se que os mesmos denotaram, em sua maioria, satisfação em relação ao processo. Percebe-se a partir das avaliações dos relatórios que a satisfação está ligada ao desenvolvimento prático do papel de orientador e também relaciona-se com a gratificação pela boa evolução dos clientes no processo de O.V.
Quanto aos orientandos, estes apontam, em sua maioria, satisfação com o processo, uma vez terem conseguido obter maior clareza e segurança no que tange à escolha, à resolução de conflitos, ao esclarecimento de dúvidas e de interesses.
Dos relatórios analisados, observam-se apenas dois atendimentos de grupo. Por questões circunstanciais de exigência de viabilização do procedimento prático pelos estagiários, compreende-se que os alunos optam pelo planejamento e operacionalização de uma prática individual de O.V, apesar de sabermos que tal estratégia de atendimento vai de encontro à perspectiva preconizada por autores como Soares (2002, p. 293) que priorizam a realização do trabalho em grupo:
Acredito na possibilidade dos grupos em fazerem uma mais profunda mudança individual e social. É a melhor forma de realizar esse procedimento por diversas razões, entre elas a possibilidade de identificações recíprocas entre os membros do grupo a partir de uma problemática; o enriquecimento pessoal a partir da troca de idéias; o relato das experiências pessoais compartilhadas; a possibilidade de feedback entre os próprios membros do grupo.
Desse modo, pode-se sugerir que haja uma maior sensibilização e preparação dos alunos para as processos de natureza grupal na área, a fim de contribuir para uma maior eficácia dos atendimentos, tornando-os instrumentos que favoreçam ao jovem uma compreensão ampla de si e do cenário profissional futuro.
Faz-se necessário registrar os limites que apresentam as conclusões obtidas com ajuda dos resultados do presente estudo. Uma delas relaciona-se com a coleta dos dados, baseada em relatórios incompletos e pouco estruturados, o que dificultou o estabelecimento de categorias de análise. Os dados coletados a partir das categorias estabelecidas não eram,