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Por
que maltratamos as pessoas que gostamos? |
Marcos Bueno
Psicólogo de orientação gestáltica
e ericksoniana, fundador do NUP-GT de Uberlândia/MG,
professor universitário, Mestre em Engenharia de
Produção: Gestão da Inovação
Tecnológica e Ambiental pelo PPGEP/UFSC, Especialista
em Administração pela FGV e UFU/Université
du Quebèc a Trois Rivières e formação
em Psicologia pela UnG e ex-gerente de RH e Qualidade.
E-mail:
mlbueno@brturbo.com
Esse
artigo é uma homenagem aos Psicólogos
e pioneiros na introdução da psicoterapia
e hipnose ericksoniana no Brasil Dr. José Augusto
Mendonça e Dra. Ângela Cota Mendonça.
Resumo: A proposta do artigo é o de provocar
uma reflexão critica sobre as formas inadequadas
de relacionamento familiar, tendo como hipóteses
a cultura e aprendizagem de padrões familiares
que demarcaram um tipo de relacionamento que, de forma
inconsciente, repetimos geração-após-geração.
Palavras Chaves: Auto-estima, relacionamento, aprendizado,
auto-educação.
Por que maltratamos as pessoas que gostamos, que amamos,
que fazem grandes sacrifícios na convivência
no nosso dia-a-dia? Tanto como pai, esposo, filho
e nos meus vinte anos como terapeuta, professor e
gerente de RH já conheci muitos casos que sempre
me deixaram indignado.
Será que não sabemos ou não queremos
gostar das pessoas ou não deixamos as pessoas
gostarem de nós? Será que não
gostamos de nós mesmos? Será que no
fundo sofremos de uma baixa auto-estima que compensamos
nas relações familiares, amorosas, na
amizade e no trabalho? Parece que uma boa resposta
é que não aprendemos a gostar de nós
mesmos, por mais absurdo que possa parecer. Milton
Erickson eminente psicoterapeuta americano dizia que
o segredo de uma vida com qualidade está no
que e como aprendemos.
Tudo em nossa vida é aprendizado e ensino.
Só podemos ensinar aquilo que aprendemos.Seja
em conteúdos, seja principalmente em valores.
Então a questão central é como
aprender melhor para conviver melhor, para viver melhor.
E o processo todo começa na família,
depois na escola, depois no trabalho e finalmente
na comunidade ou na sociedade. Começamos a
encontrar uma lógica nos comportamentos neuróticos
e normóticos de pais e filhos, de chefes e
empregados e entre governantes e cidadãos.
Como dizem os holistas tudo se relaciona com tudo,
não existe nada neutro em nossas vidas, portanto
somos responsáveis pelo que pensamos, sentimos
e fazemos. Nossa grande poeta Cora Coralina dizia
"Feliz aquele que ensina, pois transfere o que
aprendeu".
Surge a questão como ensinar melhor? Como viver
e conviver melhor? Sem medos, sem traumas neuróticos
e normóticos. Jean-Yves Leloup psicólogo,
sacerdote isecaste e teólogo nos ensina que
precisamos valorizar a essência humana, valorizar
o positivo e trabalhar e integrar o negativo, ou as
cobras venenosas, os cachorros selvagens e os tigres
ansiosos que criamos. Precisamos aprender a domar
a criatura que nos tornamos.Ver, perceber, ouvir e
escutar com todos os sentidos o que a vida nos dá
de positivo, mesmo nas coisas difíceis de compreender
há um significado positivo.Precisamos ver com
os olhos dos cegos, ouvir com os ouvidos dos surdos
e a falar com a fala dos mudos. Será difícil
dependendo do nosso esforço na adaptação
ao mundo.
Através das obras de Milton Erickson, descobri
muitas coisas novas e interessantes como: os recursos
e soluções para nossos problemas estão
dentro de nós e não fora de nós
como aprendemos em nossa educação tradicional
e ocidental. Milton Erickson apesar de sua limitação
física devido a duas pólios gravíssimas,
dislexia, daltonismo e outros problemas de saúde
mostrou e ensinou milhares de pacientes e alunos que
não existe o negativo na vida, tudo depende
de como olhamos. Se tivermos uma predisposição
para aprender com as situações difíceis,
iremos conseguir transformar problemas em soluções
e dificuldades em recursos. Erickson falava que precisamos
conhecer nossa primeira morada que é nossa
casa interna. Se ela estiver bem, confortável
e acolhedora, teremos uma visão de mundo positiva,
forte e saudável.Tem gente que mora em favela
e sente-se como morasse numa mansão e tem quem
vive numa mansão e sente-se como se fosse um
mendigo dormindo na rua.
Sempre temos escolhas, possibilidades, alternativas,
detalhes, partes, conjunto, cores, tudo tem sua importância
em cada momento mágico em nossas vidas. Precisamos
conhecer, observar e perceber as coisas para tomarmos
boas decisões. Nossas escolhas são conseqüência
do nível de conhecimento, do que observamos
e do que percebemos.Tem pessoas analfabetas que conhecem
muito, observam e percebem com uma nitidez e precisão
invejável e tomam decisões adequadas.
Enquanto outras pessoas com curso superior não
conhecem quase nada, observam e percebem muito pouco
e tomam decisões inadequadas. O que está
errado? A resposta é como está sua casa
interna, como você está desperto consigo
próprio, como você gosta e se sente bem
na sua própria companhia. Você é
seu melhor amigo.Você não se sabota.Você
quer ser feliz e você percebe que você
pode ser feliz, agora e acredita, aí o milagre
acontece.
Tudo na vida tem um significado, um para que como
dizia Viktor Frankl o Terapeuta da esperança
após passar por três campos de concentração
e criar a Logoterapia, ou a terapia do sentido existencial
e se tornar um modelo, uma referência mundial
de humanismo.Frankl transformou o ódio nazista
em amor, a fome, a lama, o crematório, a câmara
de gás, os experimentos macabros, o suicídio
em massa numa Escola Terapêutica que foca a
alma humana em sua grandeza.
As pessoas muitas vezes sofrem por longos períodos
porque aprenderam a sofrer, foi à única
opção oferecida.
Toda essa reflexão nos mostra como fomos educados
para aprender a nos relacionar com o outro.O grande
fenomenólogo alemão Martin Buber em
seu livro Eu e TU nos fala que na vida tudo é
relação. E relação significa
construir pontes, Eu de um lado e o Tu do outro lado,
se a ponte ruir é por que houve falhas na construção
ou manutenção dos pilares, um impacta
no outro, o um deixa de existir quando entramos na
relação, há uma fusão
e uma transformação na percepção
do que somos e do que o outro é.
Nos relacionamentos familiares é onde a qualidade
da relação mais se mostra, se apresenta.
Apesar dos esforços de ambas as partes inúmeros
conflitos aparecem e muitas vezes de difícil
solução, onde as vezes a solução
é deixar que o futuro do tempo resolva por
si, ou melhor os conflitos vão se acomodando
e a tormenta do furacão passa e vem a calmaria.Às
vezes é preciso saber esperar, administrar
a ansiedade e aprender a confiar na capacidade auto-reguladora
dos seres humanos, eles são capazes por incrível
que pareça de permitir ser felizes.
Vou narrar uma pequena história descrita pelo
Dr. José Augusto e pela Dra. Ângela Mendonça
no livro Abrindo Portas com Amor, onde poderemos analisar
o nosso cotidiano.
J.Augusto conta que um dia sua filha de doze anos
solicitou autorização para trazer algumas
colegas à noite para comer uma pizza na sua
casa.Tudo acertado, como ele e a esposa trabalhavam
na clinica o dia todo chegando sempre à noite
já providenciaram o que a filha pediu e assim
o dia transcorreu normal. No final do dia ele saiu
um pouco mais cedo, foi para casa e lá encontrou
a filha com as colegas preparando a pizza. Ele conversou
com as colegas da filha e ficou na sala de TV, passado
algum tempo ouviu um barulho forte na cozinha. Saiu
correndo e quando chegou lá viu que uma colega
de sua filha havia deixado cair uma garrafa de refrigerante
e esparramou cacos de vidros e coca-cola para todo
lado. A sua reação no momento foi socorrer
a menina que estava paralisada e chorando pelo estrago
que cometera.Ele disse para ela ficar tranqüila,
colocou a menina com as outras colegas na sala, levou
os refrigerantes e a pizza e acalmou todas.
Passado alguns minutos, limpando a sujeira na cozinha
começou a pensar, e se fosse com a minha filha
qual teria sido minha reação? Provavelmente
teria danado e repreendido fortemente com ela. Pensou
Por que maltratamos as pessoas que gostamos?Talvez
seja porque achamos que são nossas propriedades
e estão no mundo para servir de amortecedor
de nossas coisas mal resolvidas e deixamos de criar
laços amorosos e de ternura que mantemos com
estranhos ao lar. No caso de J.Augusto ele diz que
passou a tratar seus filhos e sua mulher como se fossem
"seus colegas ou a mulher de um vizinho qualquer"
e percebeu que esta forma estranha melhorou nos cuidados
amorosos com a família.
Tenho visto na minha vida pessoal e no consultório
também muitos casos assim. Pais que solicitam
terapia para a filha que está no segundo casamento,
com dois filhos pequenos e segundo eles não
têm estabilidade emocional para manter um relacionamento
como eles aparentemente mantêm. À medida
que vamos ouvindo essa jovem paciente vamos percebendo
que ela tornou-se apenas o "saco de pancadas"
dos pais que descarregam nela suas coisas e "separações"
mal resolvidas e não tem a coragem de auto-observarem
e aprenderem a viver de forma diferente e mais saudável
para toda a família.
Precisamos dirigir nosso viver para a competência
e não para as falhas do individuo: para seus
recursos, não para as suas fraquezas; para
suas possibilidades, não para suas limitações
conforme cita William O'Hanlon ex-aluno de Erickson.
É como dizia o saudoso Dr. Erickson "arvores
boas dão frutos bons". Precisamos aprender
a resgatar aquela árvore boa que éramos
quando crianças.
Bibliografia
consultada:
MENDONÇA, J.A. e MENDONÇA, Ângela.
Abrindo portas com amor. Editorial Diamante, Belo Horizonte,
2003.
ROBLES, Teresa. A magia de nossos disfarces. Editorial
Diamante. Belo Horizonte, 2001.
ZEIG, Jeffrei K. Vivenciando Erickson.Livro Pleno, Campinas,2003.
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