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::. Possibilidade no limite e limite na possibilidade
PROFA. MS. ELEN MARA GOMES DE LÉO
Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos

Falar de possibilidades e limites em Psicologia Escolar é também vislumbrar o que se faz vivendo os limites (possibilidade no limite) e as limitações vividas na possibilidade de atuação nessa área (limite na possibilidade). É falar de sucessos e insucessos. Geralmente só compartilhamos os sucessos, mas os “insucessos” também levam ao crescimento. Vim trazer notícias mais da insipiência da Psicologia Escolar em Campo Grande do que propriamente de uma realidade consistente da Psicologia na Educação em Campo Grande. Campo Grande é um bairro da zona oeste do município do Rio de Janeiro com dezenas de escolas da rede particular, mas, concretamente com apenas duas escolas que contam com o trabalho de um psicólogo. Digo concretamente, porque grande parte delas afirma não ter o psicólogo, mas que “encaminham a criança... (e o resto a gente sabe) que tem problema” A impressão que eu tenho é a de que a Psicologia até hoje não conseguiu mostrar à escola a que veio, não consegue afirmar a extensão de sua competência... e que isso provoca a importação do modelo estereotipado clínico, da Psicologia à escola e reitera uma prática clínica da Psicologia a serviço da escola. Acho uma pena. Sou uma psicóloga absolutamente comprometida com a educação, mas hoje fora de escola. Trabalho com formação de profissionais de educação (pedagogos e licenciandos de Educação Física e História) com grande empenho de apresentar a eles uma Psicologia Escolar que pode ser comprometida com todos os fatores que intervem o processo de ensino-aprendizagem, não apenas estando preocupada em destacar alguém – o aluno – como protagonista de seus insucessos. Não abro mão de atuar na formação desses professores, pois entendo aí um grande compromisso que assumo com a Psicologia Escolar. Aprendi isto através de uma desgastante experiência como psicóloga em uma escola na Zona Oeste que – além da escola não saber ao certo a extensão e o limite da atuação da Psicologia – a presença da Psicologia na escola tem de ser reflexo do desejo dessa escola. A Psicologia na escola representa tal qual em qualquer outro espaço de relações que ela se coloque a serviço, sobretudo um olhar atento, uma preocupação com a promoção de saúde: saúde das relações, saúde do aluno, dos professores, da direção coordenação... e, neste caso, de uma saúde a serviço da produção de conhecimento. Assim que entrei nessa escola para substituir a coordenadora e, então para atuar como coordenadora e não como psicóloga propriamente, percebi que ocupava um lugar de um não desejo... relações comprometidas por rivalidades, concorrências, insegurança, um mal-estar difuso que se refletia em gritos com os alunos, falta de compromisso com planejamento, etc. A escola parecia agonizar... Mexer com isso foi como mexer em casa de marimbondo... porque não fui convidada a fazer tal coisa... A escola preferia viver das lembranças de um passado glorioso a acordar para ver “quanta poeira a espanar...” e quanta coisa ainda poderia construir de modo belo. Por mais que eu tivesse todo cuidado em colocar-me aos poucos, valorizar o saber da escola, respeitar as pessoas... que lá trabalhavam a tantos anos acumulando perspectivas de futuro na escola, era notável o quanto de coisas seria preciso reorganizar... Lá fui eu! Fui cautelosa sob alguns aspectos, mas não percebi de imediato que não era possível mexer com tudo de uma só vez... relações, motivação, agressividade, cultura organizacional, clima organizacional... Muita coisa para mexer sem ter sido contratada para tal... A escola gostava quando eu atendia aos pais, talvez isso parecesse trabalho de psicólogo. As maiorias das minhas propostas eram freadas ou se fazia de conta que eram atendidas. Foi um aprendizado desgastante, mas intenso... Pude levar algumas contribuições para a escola, mas vivi muito mais frustrações. Por exemplo: o desafio que as escolas sempre tomam por bandeira, que é a interdisciplinaridade só se faz através de relações amistosas... são os professores que veiculam as ciências na escola... a interdisciplinaridade depende de interações... se as relações vão mal... a interdisciplinaridade não pode “ir bem, obrigada...” A escola não tinha o desejo de rever as relações... e a minha presença era um incômodo. É impossível trabalhar em Psicologia Escolar sem parceria e a parceria se faz através do desejo, da cumplicidade, de boas relações. Sob muito custo levei meu trabalho até o final do ano e deixei a escola... Eu teria caminhado junto a ela, vencendo os obstáculos um a um, mas entendi que seria preciso que a escola também desejasse se incluir na história e entender que seu momento administrativo interferia em sala de aula... precisaria se incluir na discussão, rever seus processos. Um ano depois da minha saída a escola acabou. As escolas parecem ter adotado, para se protegerem do desconforto difuso da presença do psicólogo, a opção apenas pelo orientador educacional e pelo fonoaudiólogo no espaço escolar... e o psicólogo fica fora dos muros. A escola sai perdendo e o psicólogo também... Situações pedagógicas diversas como Olimpíadas na escola, evento cheio de aspectos psicológicos que poderiam ser observados e atendidos, passam desapercebidos com o psicólogo que, estando apenas no consultório aguardando as crianças indicadas pela escola, não está dentro dos muros escolares para ajudar na reflexão. Assim, a escola – que pode ser um espaço de promoção de saúde – deixa de traçar muitos outros objetivos para tal evento que se limita (apesar de não ser pouco...) aos conteúdos mais observáveis, poupáveis, ligados ao evento. A socialização da agressividade, dos limites, o viver a frustração... quanta coisa a ser otimizada como fazendo parte do processo de ensino-aprendizagem passa desapercebida ou é pouco trabalhada. Lamento... gostaria de estar em escola... mas elas têm de algum modo me dito que não precisam de mim... a menos que eu deixe a referência de meu consultório para que as crianças sejam encaminhadas. Na minha possibilidade de atuação em escola, assisti o limite que o desejo representa... mas no limite do desejo tornei algumas poucas possibilidades realizadas. Foi menos do que eu queria ter feito, mas o que foi possível aquela altura. Hoje já faria algumas coisas de modo diferente, especialmente entenderia melhor o desejo da escola e me apresentaria melhor a ela, eu teria informado a escola (mesmo que não me fosse perguntado) que Psicologia Escolar eu sustento. Uma coisa eu não mudaria: estando na escola fui sobretudo educadora, como acredito tenha de ser todo aquele que na escola atuar.
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