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Quando
o adolescente
fracassa na escola |
Alfredo
Castro Neto
Psiquiatra infantil
Ex-presidente da Associação Brasileira de
Neurologia e Psiquiatria Infantil
Um excelente indicador do bem-estar geral do adolescente
é o sucesso escolar. Assim, os distúrbios
do comportamento são facilmente identificáveis
na sala de aula e afetam a tarefa dos professores, de
ensinar, e dos estudantes, de aprender. Os estados ansiosos
e depressivos, entretanto, não são facilmente
identificados por professores e companheiros, pois, freqüentemente,
não interferem com o funcionamento geral da sala
de aula.
Penso, que antes de analisar como fracassam os adolescentes
na escola, devemos pensar como fracassam os colégios
para os adolescentes. Bons colégios são
aqueles que privilegiam os temas acadêmicos, permitindo
a autonomia dos professores para que cumpram as necessidades
educativas individuais do estudante; com programa flexível,
os que têm sistemas de incentivos e prêmios
para os alunos e sistemas que permitam aos estudantes,
serem responsáveis pelo seu próprio comportamento.
Fator negativo
Acho, que elevar os níveis escolares sem elevar
a qualidade das escolas simplesmente alimenta o fracasso
e o desinteresse. Além disso, agrupar os alunos
em função de suas “capacidades” tem benefícios
duvidosos para aqueles de menor desempenho com um custo
psicológico potencialmente enorme. Ser rotulado
como “abaixo da média” pode ter uma conseqüência
terrivelmente negativa sobre a imagem que o estudante
tem de si mesmo.
Os professores, freqüentemente, têm poucas
expectativas com relação a estes alunos,
o que pode transformar-se numa verdade por si mesma. As
intervenções precoces ou os programas sobre
capacidades básicas sem seguimento freqüentemente
fracassam. Os programas nos quais os adolescentes são
“coagidos para que mudem de atitude” ou os que intentam
“moralizá-los”, quase sempre são mal sucedidos.
As dificuldades de aprendizagem, geralmente, são
definidas de acordo com um modelo de discrepância:
discrepâncias entre capacidades cognitivas – quociente
de inteligência e resultados –, entre resultados
em diferentes áreas – por ex., matemática
e leitura –, ou entre o rendimento de um indivíduo
e os de seus colegas de classe.
Os desafios e as demandas de aprendizagem se modificam,
significativamente, durante a adolescência. As exigências
sobre a atenção, neste período, requerem
energia mental mais consistente e sustentada, processar
mais eficazmente a informação e ter uma
habilidade marcadamente maior para produzir trabalho escolar.
Os adolescentes precisam mais técnica para lembrar,
recordar e reunir informação nova, como
regras mnemônicas e associações visuais.
Os novos desafios visuais/espaciais incluem maiores exigências
de raciocínio não verbal, estratégias
de visualização e familiaridade com a interpretação
e produção de representação
gráfica e informação.
Nesta etapa do desenvolvimento, assume-se que as aptidões
seqüenciais incluem a capacidade de classificar,
adequadamente, o trabalho, prever o que é necessário
para efetuá-lo, elaborar esquemas realistas para
concretizar tarefas a longo prazo e organizar o trabalho
escolar no contexto de uma vida ocupada com mais demandas
sociais e atividades externas. As exigências lingüísticas
requerem maior ênfase na linguagem abstrata, a aprendizagem
de um segundo idioma, um raciocínio verbal mais
complexo e uma demanda consideravelmente maior de fluidez
na linguagem escrita.
As aptidões neuromotoras exigem escrever rápido,
tomar notas e manejar um teclado de computador. Se a escrita
não for automática, ou for lenta demais,
a produção pode ficar seriamente afetada.
O aumento das exigências cognitivas inclui a capacidade
de resolver problemas avançados e maior habilidade
para manejar conceitos abstratos. O transtorno por déficit
de atenção e hiperatividade pode, também,
ocorrer em adolescentes e tem três subtipos: predominância
de desatenção, predominância de hiperatividade
e impulsividade e combinado. Nos dois últimos,
com freqüência, são os professores os
que alertam os pais, sendo o problema posteriormente encaminhado
ao psiquiatra de crianças e adolescentes. O tipo
predominantemente desatento, amiúde não
é detectado. Manifesta-se, fundamentalmente, através
de dificuldades no desempenho escolar, com uma produção
de trabalho lenta, apresentando-se, em geral, ao mesmo
tempo que sintomas de ansiedade ou depressão.
O transtorno por déficit de atenção
e hiperatividade – TDAH – apresenta-se de modo diferente
na adolescência em comparação com
a infância. Entre os adolescentes, freqüentemente,
a hiperatividade é menor e o distúrbio caracteriza-se
mais por impulsividade contínua, rendimento pobre
e fracasso escolar. As deficiências sociais anteriores
são mais notórias na medida em que as más
relações com os companheiros tornam-se mais
evidentes e significativas, justamente em pleno processo
de amadurecimento, no qual a aceitação pelo
grupo de amigos adquire maior importância. Devido
à contínua impulsividade, os comportamentos
de alto risco na infância convertem-se em comportamento
de risco extraordinariamente altos na adolescência.
Os desafios às regras menores ou ao intento de
pôr limites dos pais na infância precoce e
média, convertem-se, agora, em abuso de drogas,
delinqüência, atividade sexual precoce e sem
proteção, e comportamento anti-social repetido.
O diagnóstico e tratamento dos distúrbios
da atenção do adolescente associam-se a
vários fatores que complicam a situação.
Devido ao processo de separação e individualização
do adolescente, os pais podem não ter uma boa fonte
de informação. A comunicação
do estudante com os professores geralmente se complica
ao ter vários professores, nenhum dos quais pode
conhecê-lo o suficiente como para estabelecer necessidades
específicas de aprendizagem.
Os fatores que favorecem um bom prognóstico em
adolescentes com TDAH são a avaliação
e a intervenção precoces; compreensão
e aceitação próprias de problemas;
uma família que apóia e um sistema escolar
compreensivo e compatível com o nível de
desenvolvimento.
Outras causas
Outros fatores podem provocar distúrbios do aprendizado
na adolescência, como por exemplo, o uso de drogas
e álcool durante o período gestacional possibilitando
distúrbios da atenção e da capacidade
cognitiva. O mesmo acontece com a exposição
significativa a substâncias tóxicas como
o chumbo. Os problemas auditivos e visuais, especialmente
quando não identificados, podem ser causas de mau
rendimento escolar e subseqüentes problemas de comportamento.
Além disso, determinados medicamentos, como alguns
antialérgicos e medicamentos contra a asma podem
induzir à lentidão no processo cognitivo
e causar problemas de atenção no colégio.
Pode também acontecer, que adolescentes com um
funcionamento intelectual bordeline – QI entre 70 e 85
– não tenham sido identificados na infância
ou tenham sido rotulados como “alunos lentos”. Podem não
preencher os critérios para receber uma ajuda especial
do sistema escolar porque seus resultados acadêmicos
não discrepam, significativamente, de suas habilidades
cognitivas (QI). Estes adolescentes são, especialmente,
propensos ao fracasso escolar quando o sucesso demanda
uma habilidade muito maior para organizar, planejar, completar
e entregar trabalhos e depende da disponibilidade e utilização
de muitas aptidões cognitivas de nível mais
alto.
Alguns adolescentes podem apresentar distúrbios
emocionais e de comportamento, que se caracterizam por
perda do autocontrole e desafio às solicitações
e regras dos adultos. Estes adolescentes culpam a outros
pelos próprios erros, são obscenos, e têm
facilidades para serem sensíveis ou aborrecerem-se,
zangarem-se, sentirem ressentimentos e rancores e serem
vingativos. Durante a adolescência estes atributos
podem conduzir a um aumento de conflitos na escola e no
lar à medida em que se torna notória a individuação
no processo de desenvolvimento.
Outro ponto de grande importância é que os
distúrbios depressivos nos adolescentes amiúde
não são identificados por pais e professores
e podem apresentar-se como fracasso escolar inespecífico
e/ou isolamento social. |
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