Este
pequeno texto nasceu da demanda de diversas escolas
públicas e colégios particulares em que
o NetPsi tem atuado, através de programas de
Educação Preventiva durante os últimos
anos (programas de escolha profissional, prevenção
ao uso abusivo de álcool e drogas, prevenção
à AIDS e DSTs e sexualidade). Em nossas atividades
preventivas junto aos professores e aos pais de diversas
escolas, temos notado diversas queixas e inabilidades
no que tange a temática da disciplina de alunos,
principalmente crianças e pré-adolescentes,
Educadores em geral, tanto professores quanto coordenadores
e diretores, têm se queixado bastante em função
de falta de disciplina e comportamentos inadequados
de alunos nas salas de aulas e nas demais atividades
educativas realizadas nas escolas.
Inicialmente,
convém destacar que os seres humanos são
bastante diferentes uns dos outros e muito complexos.
Assim, uma criança ou um pré-adolescente
apresenta diferentes comportamentos conforme o ambiente
e a situação em que se encontra. Muitas
vezes, o aluno "excessivamente agitado" não
se apresenta assim em todos os ambientes. É bastante
comum que surjam queixas realizadas por professores
de uma escola e que não apresentam respaldo de
todos os educadores da entidade. Há alunos que
são agitados e inconvenientes para uns professores
e apresentam-se de forma bastante distinta em outras
aulas. Resta-nos avaliar se o fator que faz com que
a falta de atenção e o comportamento inadequado
do aluno não provém do próprio
comportamento do professor.
Há
professores que por terem dificuldades de lidar com
a disciplina ou por cansaço e desesperança
na profissão, acabam elegendo alguns alunos para
bodes expiatórios. Assim, a responsabilidade
por todos os problemas que possam ocorrer durante as
aulas, são sempre dos mesmos alunos. Cria-se
assim um grupo de alunos que são considerados
como "terrivelmente agressivos", em geral
liderados por um líder que é visto como
"muito maléfico" (segundo as expressões
usadas por professores).
Convém
analisarmos que os professores, muitas vezes, não
se encontram bem preparados para lidar com a indisciplina
e com os conflitos que possam surgir de disputa de poder
com os alunos. Ressaltamos não ser um bom caminho
entrar em choque direto com os alunos e tentar impor-se,
apenas, de forma ditatorial. Nunca é demais lembrar:
autoridade e autoritarismo são conceitos muito
distintos.
Além
disso, há muitos professores que fazem questão
de passar uma imagem muito negativa, de alguns alunos
ou mesmo de uma sala inteira, aos seus colegas de profissão.
Todos nós sabemos a influência que um pré-conceito
pode gerar em novas situações. Desta maneira,
os novos professores já vão àquela
sala esperando lidar com uns "delinqüentes
mirins", não dando chances para que as novas
relações entre educadores e alunos possam
ser estabelecidas de maneira distinta. De quem é
a responsabilidade então? Infelizmente, dos adultos,
professores que não conseguem lidar com as dificuldades
docentes e que passam a influenciar os colegas de profissão
em sua "cruzada pelo bom comportamento", contra
as crianças.
Não
estamos falando que os alunos em questão sejam
fáceis ou anjinhos e os professores os únicos
culpados.
Muitas
vezes, a proposta educacional, ou seja, o plano pedagógico
da escola não dá margem ao diálogo.
Os alunos nunca têm voz ativa e pouco participam
de decisões. Assim, os alunos mais "sensíveis"
(de acordo com uma visão que tenta ser politicamente
correta de alguns educadores, mas que reforça
o preconceito) reagem negativamente, causando boicotes
e tornando-se inadequados. Os educadores, por sua vez,
não podem usar criatividade e tentar incluir,
da melhor maneira possível, os alunos tidos como
"problemáticos" em suas aulas.
Evidentemente,
os alunos devem aprender desde a mais tenra infância
a abrir mão, em alguns momentos, da realização
direta de seus desejos, para que possam estar em grupo
e viver numa comunidade (no caso as classes de aula).
Todavia, um dos papeis de educador não é
exatamente o de possibilitar esse crescimento e amadurecimento
para as relações pessoais por parte dos
alunos? O que ocorre que impede essa realização?
Alguns
dirão que a educação e os ensinamentos
de limites são papeis das famílias. Têm
razão os que assim pensam. Acontece que as famílias
têm tido pouco tempo e não conseguem exercer
o seu papel de educação das crianças.
Além disso, a televisão ainda exerce uma
influência negativa no que tange à aquisição
de limites pelas crianças. Então, o "problema"
estoura na escola, dentro e fora das salas de aulas.
Indisciplina,
agressividade, inquietação e mau-humor
são sintomas que podem indicar problemas psicológicos
de crianças e adolescentes, como no caso da hiperatividade
e de outros transtornos psíquicos apresentados
por alguns alunos. Entretanto, antes de mandarmos "todos
os alunos de um determinado grupinho" aos divãs
de psicólogos, devemos analisar se os problemas
não estão mais relacionados aos adultos,
à equipe de educadores das escolas, enfim, ao
plano pedagógico e às relações
estabelecidas pelos adultos e os seus alunos.
Concluindo,
ressaltamos a importância de uma análise
da equipe e de qualificações constantes
para melhor desempenhar o papel de educadores. A reciclagem
é uma das principais ações que as
escolas deveriam ofertar aos seus profissionais (incluindo
os funcionários que, diga-se de passagem, exercem
importantes papeis de educadores). Enfim, a questão
da disciplina e dos relacionamentos entre professores
e alunos não deixa de ser um tema de Educação
Preventiva. Assim, deve estar em constante pauta de trabalho
e aperfeiçoamento pelas equipes docentes das entidades
de ensino.