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Sobre
a vida, o amor e a solidão |
Marcos Bueno
Psicólogo de orientação gestáltica
e ericksoniana, fundador do NUP-GT de Uberlândia/MG,
professor universitário, Mestre em Engenharia de
Produção: Gestão da Inovação
Tecnológica e Ambiental pelo PPGEP/UFSC, Especialista
em Administração pela FGV e UFU/Université
du Quebèc a Trois Rivières e formação
em Psicologia pela UnG e ex-gerente de RH e Qualidade.
E-mail:
mlbueno@brturbo.com
"São os sentimentos e as atitudes que
promovem a ajuda, quando expressos, e não as
opiniões ou os julgamentos sobre outra pessoa".
Carl Rogers
Resumo: O texto foca três palavras essenciais para
o ser humano à vida, o amor e a solidão.Sem
vida não há o ser, sem amor a vida torna-se
apenas um lamento amargo existencial e sem compreender
a solidão como uma necessidade de encontro silencioso
à vida perde seu sentido.
Palavras-chave: vida, amor, solidão e existência.
O ser humano vive a ânsia da vida. Num momento sonha
em viver ansiosamente no presente como se fosse perdê-lo.
Em outros momentos é escravo do desejo do futuro
e esquece que não tem como garantir o amanhã,
a não ser esperá-lo pacientemente, serenamente.
Estamos vivendo uma crise existencial que se repete, entre
a ansiedade motivada pelo medo, insegurança e cobranças
de todo tipo e por um sentimento coletivo de vazio, de
solidão, sentir-se só no meio da multidão.
Jean-Yves Leloup diz que a crise é como a morte
da lagarta e o nascimento da crisálida e da borboleta.
É preciso que a lagarta morra para nascer a borboleta
em toda sua formosura. Não devemos apressar ou
facilitar o nascimento da borboleta, pois se assim fizermos
ela nascerá fraca e não conseguirá
voar e sobreviver. Tudo em nossa vida e na natureza há
um sentido sábio, é preciso que passemos
a ver com outros olhos aquilo que aparentemente não
estamos conseguindo ver devido aos condicionamentos provocados
pela normose.O psicólogo e antropólogo Roberto
Crema vice-reitor da Unipaz diz que a doença muitas
vezes é como um fax, ou um e-mail ou uma carta,
só que não abrimos, não lemos e muitas
vezes jogamos no lixo sem interpretá-la.
Tudo na vida tem uma razão de ser, uma lógica,
um motivo, nem sempre percebemos.Isso é o óbvio,
o gênio percebe o óbvio e consegue produzir
coisas fantásticas, enquanto que o neurótico
não percebe como dizia Perls o pai da gestalt-terapia.
A doença é a manifestação
do desequilibro, quando o ser humano está em equilíbrio
ele está saudável.A doença é
um caminho, não é um problema.
O ser humano necessita de um cuidado especial, diferente
das máquinas, dos equipamentos tecnológicos,
do capital, etc. Leloup diz que é preciso cuidar
do ser humano em sua globalidade, como na gestalt-terapia,
como um todo, uma boa configuração, mesmo
quando são tratados apenas os dentes.
O doente é freqüentemente uma pessoa que se
fechou num único nível de interpretação
simbólica.Os Terapeutas terão de abrir,
sem cessar, esta interpretação, para evitar
a identificação. É necessário
uma resignificação do percebido.Essa perspectiva
Leloup chama de psicologia da profundeza ou antropologia
da vastidão.Dos medos do self e do eu ao mergulho
no ser.O ser que sofre o chamamento da lucidez, do encontro
com a solidão que provoca um movimento da consciência
que deseja se libertar das amarras dos condicionamentos
provocados por uma sociedade doente e carente.
O ser humano na cosmovisão de Leloup é como
no complexo abordado no livro sagrado de Jonas que em
hebreu significa pomba. A pomba das asas aparadas. É
o conflito do desejo de voar com o medo de tirar os pés
do chão. Leloup aborda de forma perfeita o arquétipico
de Jonas que dormindo ele sonha com o Senhor que diz:
Jonas desperta, levanta e vá a Ninive levar minha
palavra a aquele povo que vive na violência.Jonas
acorda, mas foge, e não vai a Ninive enfrentar
os inimigos, prefere ir para Tarsis uma cidade turística
de calmaria e tranqüila na costa da Sardenha. Leloup
traça um paralelo com a vida do homem moderno que
continua sendo o Jonas que prefere ficar dormindo deitado,
a levantar para se movimentar, que foge de sua missão
pessoal e intransferível.Mas acaba pegando um barco
de pesca para Tarsis e vem a tempestade e percebendo que
sua atitude coloca em risco a vida dos pescadores ele
se joga ao mar e a baleia o engole e passa três
dias em seu ventre.O ventre da baleia é o deserto
para refletir, para descobrir a fé perdida, para
ir ao encontro de sua voz interna, do seu anjo, do seu
mestre.Jonas desperta da normose, aceita sua missão
e é despejado próximo a Ninive e cumpre
sua missão.Jonas perdeu todos os seus mapas, todos
os seus pontos de referência, todas as escalas,
mas não perdeu a bússola, ele não
perdeu sua orientação.Como diz Leloup a
sua orientação para o Ser.Nossa bússola
é o nosso coração.Um coração
inteligente e vibra emocionalmente, mas tem o norte do
intelecto racional.Não basta ter asas, é
preciso saber voar, não basta ter uma bússola,
é preciso saber interpretá-la.
O papel do terapeuta para Leloup é colocar o individuo
em contato com sua bússola interior, que mostra
o seu norte, que mostra o Ser em sua plenitude.
O mesmo medicamento, segundo a qualificação
do profissional que nos receita, terá efeitos diferentes.
É por isto que, na formação dos terapeutas,
é importante o desenvolvimento de sua qualificação,
de sua competência, mas também é muito
importante o desenvolvimento de sua qualidade humana.Porque
um individuo pode ter muitas qualificações,
muitos diplomas e muito pouca qualidade e é necessário
juntar as duas para que o resultado apareça(Leloup,1997:59).
O ser humano vive um eterno conflito entre o desejo de
voar e o medo de tirar os pés do chão.O
medo de ser alguém que vai incomodar a muita gente
e o Zé ninguém abordado na psicologia de
massa do fascismo de Wilhelm Reich onde é um ilustre
desconhecido.
Leonardo Boff diz que o ser humano é um ser desejante,
insaciável, queremos tudo, queremos viver para
sempre, somos protestantes, protestamos contra tudo. Não
conseguimos silenciar e acalmar nossa mente que vive numa
turbulência inesgotável, todos os dias alimentamos
essa turbulência mental.
Krishnamurti educador integral diz que vivemos continuamente
uma guerra contra nossa mente, que é o nosso intelecto.
E para entendermos e educarmos nossa mente temos que buscar
recursos fora da mente. E o maior recurso que todos temos
é o amor.Mas, o que é o amor? Quando há
pensamento sobre o amor, isso é o amor?O pensamento
é amor? E, provavelmente só o amor pode
unir as pessoas, e não o pensamento.Onde há
amor, não há grupo, classe, nem nacionalidade,
nem religião.Em plena guerra entre os Estados Unidos
e Iraque tivemos um casal de passagem pelo Brasil, ele
americano e ela iraquiana demonstrando um amor invejável.
Será o amor uma coisa da mente? Ele é uma
coisa da mente quando as coisas da mente preenchem o coração.E
com a maioria de nós conforme Krishnamurti cita
é isso o que acontece. Preenchemos nosso coração
com coisas da mente, que são opiniões, idéias,
preconceitos, visões distorcidas da realidade,
sensações, crenças e acabamos vivendo
e amando essas coisas. O amor só pode ser vivenciado
quando o pensamento não está funcionando,
sereno, calmo, dando permissão ao coração
para sentir o amor.Infelizmente muitos associam amar com
ciúme, com ambição, posse do outro,
busca desesperada pelo desejo e não há dúvida
que quando essas coisas existem não há o
amor presente, mas apenas um pensamento sobre o amor.
Não temos que se preocupar com amor, que vem à
existência naturalmente, sem nenhum esforço
no sentido de buscá-lo de encontrá-lo, ele
simplesmente está dentro de cada ser humano, basta
permiti-lo aflorar a superfície da consciência.O
amor é a resposta para aquietar, serenar nossa
mente, reduzir nossa ansiedade e entender nossa solidão,
que não é algo tão ruim quanto popularmente
se fala. Estar só é uma oportunidade de
encontro consigo mesmo.Quando estamos sentindo solidão
é por que dissociamos, nos dividimos, perdemos
a integração espírito, mente, corpo
e aí surge o vazio. O que temos que fazer não
é buscar preencher loucamente esse vazio que está
nos incomodando, mas sim entendê-lo, interpretá-lo,
buscar o seu significado. As doenças são
apenas mensagens do nosso espírito, de nossa mente,
de nossas emoções e de nosso corpo que alguma
coisa não está bem e precisamos saber o
que e termos a coragem de resolver para que o equilíbrio
volte. Só é possível pensar de modo
correto, viver livre e com plenitude e inteligentemente,
quando há um autoconhecimento cada vez mais profundo
e amplo, como disse um dos maiores sábios que foi
Sócrates.Precisamos aprender a resgatar o que perdemos
há muito tempo, a integração plena,
corpo, mente e espírito.
Para Krishnamurti o essencial para o homem, jovem ou velho,
é que viva plena e integralmente, e, por conseguinte,
nosso mais relevante problema é o cultivo da inteligência,
que traz integração. Amar autenticamente
é promover a integração.Apenas o
amor e o pensar correto farão a verdadeira revolução,
a revolução interior.A revolução
amorosa interna é à busca da saúde,
a revolução externa motivada pela ganância
é cultivar a neurose e a normose social.
Milton Erickson um dos maiores psiquiatras e hipnoterapeuta
do século XX afirma em seus livros que todos os
recursos que precisamos para resolver nossos problemas
estão dentro de nós, basta aprendermos a
utilizá-los. Precisamos aprender a caminhar pela
vida de forma saudável e feliz, nós merecemos.
A solidão, assim como a doença pode ser
um caminho amadurecido para uma vida melhor, é
preciso termos a coragem de aprender com ela e não
apenas rejeitá-la.
Bibliografia consultada:
KRISHNAMURTI, Jiddu. A educação e o significado
da vida. São Paulo; Cultrix,1985.
____________________O descobrimento do amor. São
Paulo: Cultrix, 1985.
____________________Nossa luz interior. São Paulo;
Agora, 2000.
____________________A mente sem medo.São Paulo,
Cultrix, 1984.
____________________Sobre o amor e a solidão.São
Paulo, Cultrix, 1993.
____________________Caminhos da realização.Rio
de Janeiro: Vozes, 1997.
____________________Raízes profundas. São
Paulo, Ed. Psy, 1996. |